Isabel Pires
Para Stael e Patrícia
A Orientadora Educacional
redigiu a carta que a Datilógrafa datilografou com esmero na máquina elétrica
e passou à Secretária da Diretora. A Secretária, por sua vez, após colher a assinatura da Diretora, anotou o teor da carta num pequeno caderno de controle e chamou o Contínuo que a levou à Professora da turma
101-B, turno da tarde.
A Professora recebeu o
envelope no qual havia um bilhete, preso por um clipe: “ENTREGAR AO RESPONSÁVEL AINDA HOJE” e a assinatura da Assistente Social. Ela já sabia do
que se tratava: Rômulo. Olhou o menino. Agora, ele estava quieto, na sua
carteira, todo compenetrado no exercício. E agora, nesse instante, qualquer um
que o visse duvidaria ser ele o garoto-problema da escola. Tão inteligente... A
maioria das crianças da primeira série chegavam mal sabendo soletrar. Mas não
ele, que havia tido aulas particulares, nas férias, com o irmão mais velho.
Este, já na quinta série, era o orgulho da classe. Pequeno, franzino para os seus
onze anos, tinha lá um ar de intelectual, com aqueles grossos óculos de miopia.
Herança da mãe, fortemente míope. Aluno mais aplicado não havia em toda a
escola. Agora, o irmão, Rômulo, garoto levado da breca. Um rebelde. De uns
tempos para cá, deu para ameaçar as professoras: “Meu pai tem um facão. Vou
pegar o facão dele, e aí vocês vão ver só”. E acrescentava: “Fio da puta”. Dizia
tudo de cenho franzido, falando a sério e com voz rouca, sempre que era
repreendido, contrariado ou colocado para “pensar” no cantinho da sala. Os
outros garotos todos com um sorriso armado no canto da boca. As professoras se riam.
Um facão...
Para tudo, em qualquer
ocasião, ele usava o “fio da puta”. Se batia nos coleguinhas, se apanhava dos meninos, se era repreendido
por algum adulto, se... Ninguém aguentava mais o xingamento. Até as meninas
mais quietinhas da turma aprendendo... Mas a sua pior aprontação foi na última
sexta-feira, quando foi flagrado fazendo xixi no canteiro da horta que as
merendeiras, ajudadas por algumas mães de boa vontade, mantinham para reforçar
o lanche da escola: salsa, cebolinha, couve e couve-flor, que eram acrescidos à
sopa oferecida pelo governo. As professoras ficaram indignadas com o menino. As
merendeiras, então, “Ah, se fosse meu filho!”. “Fio da puta, vou pegar o facão
do meu pai”, respondia ele, sendo levado para o castigo na sala da Diretoria.
Houve reunião: a Diretora,
a Assistente Social, a Orientadora Educacional, a Professora, a Secretária e a Cozinheira
que havia dado o flagrante. “Assim não dá”. “Ele está demais”. “Xinga muito”. “E
o facão?”. Foi unanimidade: mandariam chamar o responsável, o pai, que vez
outra, apanhava os garotos na escola.
Rômulo morava num dos
barracos que margeavam a linha do trem, próximo à escola. Há algum tempo atrás,
a Orientadora Educacional e a Assistente Social haviam feito uma visita às
casas das crianças da escola residentes nesses barracos. Notaram: a casa de
Rômulo, de tijolos, era a única que tinha janela – uma janela só, no cômodo que
servia de sala e cozinha, aberta para a linha do trem. Sobre a pequena mesa
mambembe e encostada embaixo da janela, os cadernos das crianças, sem uma
orelha, cobertos com plástico grosso, para não pegar poeira ou mesmo gordura. A
mãe era lavadeira, o pai, mestre-de-obras. Tudo estava muito bem asseado, e não
escapou às visitas nem mesmo o detalhe dos panos de prato, tão alvos, cobrindo
a louça limpa sobre a pequena pia. Eles tinham uma barra colorida feita de
crochê, cuja ponta laranja, verde e vermelho se refletia nos copos de
alumínio, muito bem areados, separados num prato de ágata que servia de
bandeja. Tudo constou do Relatório. Isso, em contraste com a casa do Zelito,
que morava num barraco – sem janelas – com mais dez pessoas, entre tios, tias,
mãe e a avó que fumava cachimbo. Quando a velha começava com as baforadas, todos
saíam de dentro do barraco. A única criança da casa. Na escola, mal sabia pegar
no lápis. Verdadeiro trabalho fazê-lo acompanhar a turma. Mas era dócil e não
xingava tanto quanto o Rômulo. Esse, ah... Os pais eram esforçados, via-se. As
paredes internas do barraco, as únicas também que eram caiadas. A mãe,
analfabeta, começava a aprender a ler com o filho mais velho. O pai, alguma
coisa sabia. Tinha estudado até a quarta série. Se não fosse a bebida... E como
bebia. E quando bebia, tornava-se arruaceiro de meter medo. “Fio da puta, vou
pegar meu facão lá em casa”. Chegava em casa, cambaleando e xingando. A mulher
não o deixava mais sair. E ele, com a cara vermelha e inchada, se estendia por
ali, na cama do casal. Apagava, depois de dizer o último “fio da puta” do dia.
“Lembra quando ele atirou
pedra na igreja e acertou a cabeça do Padre?”. “O Padre André? Tão velhinho,
coitado”. Quem não lembrava? O sino batia às três e meia da tarde, toda tarde.
Em ponto. E era hora do recreio, na escola. A escola e a igreja, separadas por
um muro baixo. Pois o Alonso, aquele outro, também já não havia pulado o muro?
Meninos levados, acabavam matando o Padre. Foi o Rômulo. O sino começou sua
ladainha, e o Padre, na porta lateral da igreja, conversava distraído com umas
beatas. Do outro lado, o Rômulo começou a atirar pedras contra a torre da
igreja. Queria acertar o sino. Aí uma pedra veio certeira. Não que ele quisesse
alvejar o Padre André. Do outro lado do muro, ele sequer sabia que alguém
estava ali, sob sua mira. Foi um deus-nos-acuda. A cabeça do Padre sangrava.
Ele veio até a escola, conversou com a Diretora. Um caso perdido, esse Rômulo.
Depois, o xixi na horta.
Foi demais. A mãe veio apanhá-lo. A Professora conversou um pouco com ela. A
mãe, preocupada, fuzilava em Rômulo um olhar azul através das grossas lentes
dos óculos. “Ele xinga, é?”. “Fez xixi na horta, foi?”. Na outra semana, na hora de
buscá-lo, perguntou: “E hoje, o que ele fez?”. A Professora entregou a carta,
mas avisando que era para o pai comparecer. Ou os dois, pai e mãe. Só a mãe não
servia.
Em casa, o filho mais
velho leu a carta em voz alta. Rômulo, encolhido num canto. O pai: “Fio da puta,
é para isso que tu tá na escola? Para me chamarem lá para uma conversa? Quê que ocê aprontou, demônio??”. No outro dia foi, corajoso, encontrar as
professoras. Foi um rebuliço. “Lá vem ele”. Uma das merendeiras perguntou para
outra em voz baixa: “Cadê o facão?”. A Secretária era toda gentilezas. Fê-lo
entrar na sala onde já o aguardavam a Diretora, a Orientadora Educacional, a Assistente
Social e a Professora. A porta foi cerrada.
Nos corredores, as outras professoras e as merendeiras, curiosas. Que fazer? Esperar? Bem, como esta história é brasileira, pode-se dar um jeitinho. A Faxineira, rigorosamente em seu horário, abriu a porta da sala para retirar o lixo. Vamos aproveitar essa brecha e entrar junto com ela na sala da reunião. A Diretora olha para a Faxineira, um olhar de repreensão. Mas a Faxineira, altiva, limpa as coisas indiferentemente, completamente alheia ao assunto do pai do Rômulo.
Lá dentro, uma só voz: “O Rômulo é um menino muito inteligente”. “Inteligente”. “É sim”. “Um pouco levado também”. “Mas, na idade dele, todos somos levados, não?”. “Sim”. “É verdade”. O homem não estava entendendo nada. Então o filho não era mais o “capeta” de menino, o terror da escola? A Diretora fez hum-hum, aprontando a garganta e mandou os defeitos, que era por isso que o estavam chamando ali. Pois que ele fez isto, que fez aquilo. Fez também aquilo outro. Deu um bicudo na canela da dona Inácia, a tia da merenda. E abriu a cabeça do Padre André com uma pedrada. E o xixi nas folhas de couve? O pai do Rômulo, já vermelho, inchava mais, vergonhoso. “A senhora desculpe, vou dar um jeito nele. Só batendo pancada. De vara”. “Isso é que não”, diziam elas. “Estamos aqui só para lhe orientar”. “Para o senhor saber, entende?”. “E tomar as providências de conversar com ele”. “É, conversar”. “Mas o difícil mesmo, o senhor vai compreender, são os xingamentos”. “Está impossível”. “E aí a escola queria que o senhor colaborasse, em casa, corrigindo-o”. “Porque está fora de controle!...”. “Até as meninas mais quietinhas...”. “Pois é”.
“Engraçado”, retrucou o pai de Rômulo. “Não sei com quem esse moleque aprende essas coisas”. As professoras, incrédulas. E ele: “Juro para as senhoras. Lá em casa, não tem disso não. Palavrão? Não admito. Nem eu, nem minha senhora. A única coisa que falo, assim mesmo de vez em quando, só quando estou muito bravo, é fio da puta!”.
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