domingo, 15 de dezembro de 2024

Duelo

 Isabel Pires 

A noite era escura e gelada na rua de terra. Poças de água brilhavam aqui e ali, refletindo a escassa luz dos poucos postes que iluminavam o caminho. O caminho, deserto.

Uma jovem se achava parada junto a um pequeno portão de ferro batido. Seu rosto lívido, devastado pelo vento gélido, se mantinha na penumbra, protegido pelo muro que fazia uma sombra densa, interpondo-se entre ela e a claridade difusa que vinha da luz de um poste próximo. De quando em quando, porém, seu rosto encrespado se mostrava de encontro à luz, examinando o caminho vazio.

Um vulto agitou-se ao longe, envolto em sombras. O rosto da jovem, destacado contra a luz, o examinava. Alguém aproximava-se zigue-zagueando pela rua, livrando-se das poças de água barrenta. A parca claridade de um poste iluminou por instantes aquele vulto, que pareceu sair repentinamente do anonimato das sombras. Era uma mulher. Carregava uma sacola, impelida pelo vento que lhe fustigava a saia.

A mulher subiu na calçada, batendo os pés, sacudindo o barro que se aderira aos saltos de suas sandálias altas. Veio andando, resoluta. O rosto da jovem recolheu-se à sombra. Seu corpo, porém, envolto numa suéter vermelha e calça desbotada, continuava iluminado parcialmente pela luz do poste.

Ao aproximar-se do portão em que estava a jovem, a mulher com a sacola estacou o passo. As duas mulheres se encararam na semiescuridão. Seus olhares entrechocaram-se como pedras, no rosto de uma e de outra. Por um instante, as trevas se imobilizaram no silêncio da rua deserta.

A mais velha das duas mulheres retomou sua marcha pela calçada molhada, fundindo-se outra vez nas sombras. A outra, parada junto ao portão, foi escorregando de encontro à barra de ferro fria, até alcançar o chão de cimento grosso da calçada. Enlaçou então os joelhos, pousando sobre eles a cabeça, e começou a chorar. 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Linhas analógicas cruzadas

 Isabel Pires 

           Trabalhava numa livraria especializada, quando certa feita atendeu um telefonema de um suposto cliente que, após confirmar o nome da livraria, número do telefone e endereço, disse:

            — Por favor, eu gostaria de falar com o gerente financeiro.

            — Gerente financeiro? Olha, o telefone é outro. Você está falando diretamente no serviço de vendas.

            — Sim? Serviço de vendas? O que é isso?

            — Qual seria o assunto, por favor?

            — Ah, sim. É a respeito de uma compra de títulos.

            — Compra de títulos? Mas então é aqui mesmo. Pode falar...

         — Bem, eu gostaria de saber se vocês por acaso estariam interessados na compra de alguns títulos...

            — Compra? Mas eu queria saber os títulos das publicações que você procura, para ver se os tenho ainda para venda.

            — Venda?! Vocês também vendem títulos?

            — Claro. Quais os títulos que você procura?

            — Não, não. Eu é que estou oferecendo os meus títulos para venda. Quer dizer, são títulos de ações da companhia telefônica.

            — Ah, sim! E os títulos que eu vendo são livros, publicados por nossa editora.

            — Ah, sim!

            Clic.

            Clic.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O grilo, a estrela e a janela

 Isabel Pires 

Estendido em decúbito dorsal na cama, ele via a estrela e pensava como ela era bela. Bela e longe, porque entre ele e a estrela havia a janela. O vidro da janela e a grade da janela. Se olhasse bem para a grade, não veria a estrela, apenas a pressenteria. E, olhando para a estrela, esquecia da grade. Olhava, pois, para a estrela bela e só ela então existia. Mas o vento, querendo invadir tudo, de vez em quando o lembrava da janela – a vidraça tilintava, se anunciando.

Por  que sol? Por que lua? E, sobretudo, por que estrela?

E por que estrela, se as mãos são mais humanas, embora para muitos possam ser imperfeitas? Mas que é a perfeição?

Bom seria deixar o vento invadir o quarto.

Ele rolava no colchão, pingando suor e querendo a estrela. Mas o vento não era vento, apenas uma leve brisa, e era melhor não abrir janela nenhuma. Pegou a toalha, pendurada à cabeceira da cama, e atirou-a, tentando pendurá-la no trinco da janela. Esta, como que adivinhando o gesto, e obediente, recebeu no trinco a toalha úmida que ficou balançando uns instantes e depois quietou.

A saboneteira estava lá, no parapeito da janela. E um pente de bolso e um espelhinho com o retrato de uma mulher nua atrás. Mulher nua, pensou ele, achando sofisticado demais. Pois o que estava do outro lado do espelho não era apenas uma mulher pelada? Peladíssima, confirmaram os seus pensamentos, enquanto ele se queimava de calor e desejava abrir a janela. Mas os pernilongos?

Chamo-me Zé e divido o quarto com um grilo. Meio a meio. Espaços conquistados a duras batalhas. Finalmente, me acostumei a ele. E ele já me aceitou, com minhas manias de levantar fora de hora para escrever desatinos. Mas é que o canto dele me inspira tanto... Não, eu não tenho nem metade do quarto. É todo do grilo, que do canto se apossa de tudo, de mim, com o seu canto. Grilo.

Olhou através das grades procurando a estrela, mas ela já se fora. Que fazer? Seus olhos vagueavam pelas grades da janela hermeticamente fechada. Lá fora, atrás do vidro, a noite. Um pedaço do telhado do vizinho interrompia o quadrado negro do céu atrás das grades. E por instantes ele tentou se lembrar onde havia colocado a escova de dentes, já que ela não estava no parapeito da janela. Raios. Pensou em se levantar, acender a luz e procurar a escova de dentes. Mas o esforço seria demais e talvez vão. Como achar alguma coisa àquela hora, na bagunça do seu quarto minúsculo? De grande, só ele e a janela, encurralados nas quatro paredes do quarto.

A janela e as grades pareciam tomar toda sua existência. Mas tinha o grilo.

Já disse, meu nome é Zé. Tenho mãos que têm veias que latejam um sangue impaciente. Mas uma cigana disse que também tenho estrela. Tenho estrela? Vá lá. Não sou navio nem rei-mago, mas tenho uma estrela. Estrela? O que tenho mesmo é um grilo...

Tenho um grilo, eu disse? Fico a imaginar o que o grilo faria se me ouvisse declarar seu proprietário. Na certa, iria embora. E, espantado, eu o veria fazer as malas. Então, imploraria ao grilo não se vá, grilo, por favor, quem vai tomar conta de mim neste quarto? Ele concederia? Fico a imaginar... E adormeço com o seu canto rompendo a noite. Felizmente, ele não me ouviu.

Meu nome é Zé, e uma noite, quando voltei para casa, o grilo já estava instalado. Tentei expulsá-lo. O que um grilo veio fazer aqui? Inútil, porém, localizá-lo, tão onipresente naquele canto cortante, estridente. Deixei o grilo com o quarto e fui dormir na sala.

Mas eu estava a falar de estrelas, tão distantes, tão frias e brilhantes. Sim, as mãos são mais humanas, embora tenham cinco pontas. Como as estrelas.

Comecei a perceber as estrelas ouvindo o grilo dentro da noite. E, do fundo da noite, as estrelas emergiam para preencher o vazio da minha janela. De vez em quando, era a lua que vinha, solitária e orgulhosa, espiar minha insônia emoldurada pelo canto do grilo.

Pela manhã, uma bola de fogo imersa em intensa claridade tomava conta do quadrado da janela, do quarto, de mim, do grilo. Emudecido, o grilo esquecia de existir.

Por que sol, por que lua, por que estrela? 

Eu dizia que meu nome é Zé, pois não? E que o grilo... Sim, o grilo. Um dia, digo, uma noite dessas de insônia e desatino...


O irmão de Tilda

 Isabel Pires 

Chamava-se Tilda e era profundamente louca. Não que tivesse perdido toda a razão. Isso não. Sobrara-lhe alguma, retida nos olhos saltados. Trabalhava num hospital – enfermeira? Chegava todos os dias em casa tarde da noite. O namorado ia levá-la de carro.

Tilda não conhecia as pessoas pacatas do seu bairro. Só os “pouco recomendáveis”. Culpa do irmão magricela que todas as noites, quando Tilda chegava, estava trancado no quarto com os companheiros pouco recomendáveis.

Tilda tirava os sapatos e se jogava no sofá, olhando o vazio da janela escura. Daí a pouco, invocava e pulava. A mãe tossia, trancada no quarto. Vendo tevê, esperava a filha chegar para tomarem juntas uma atitude. Não que não fosse autoritária: quando fritava batatas, retirava-as ainda cruas da gordura fervente.

As sombras na sala ficaram oscilando pelas paredes, e o abajur, metro e meio acima do chão, parecia um pêndulo. Resultado do safanão de Tilda ao levantar-se.

No fundo do corredor, a fresta da porta fosforescia. Tilda aproximou-se, pé ante pé, respiração presa. À meio caminho, um clarão súbito iluminou-a. A mãe abrira a porta do quarto. Rígida, com o olhar, mandou Tilda seguir em frente.

Tilda acelerou um pulo e alcançou o trinco da porta. Chaveado. Do outro lado da madeira, um “psiu” e o clic do botão da luz. A fresta iluminada extinguiu-se. Então, furiosa, ela começou a esmurrar a porta e a gritar para que abrissem. Silêncio absoluto determinou a decisão de Tilda.

O trinco da porta tombou meigamente sobre o carpete, enquanto Tilda, acuada, parecia sua própria sombra colada à parede. Só os olhos de fora, estes, ainda mais saltados.

Mas, o trinco arrancado, a porta invadindo-se a si mesma, mostraram apenas as moitas cabeludas dos roqueiros dos cartazes espalhados pelas paredes do quarto. Imobilizados e indefesos atrás das guitarras, pareciam eles a fugir inutilmente da inspeção de Tilda. Ninguém no quarto. Só os cabeludos, nos cartazes, cujas cabeleiras pareciam fustigadas pela brisa que vinha da janela. A janela – aberta.

Tilda abriu a porta da rua e atirou-se cegamente pelas escadas abaixo. Como uma louca, deu a volta sob as janelas da casa, a tempo ainda de agarrar o irmão que tentava pular o muro dos fundos atrás dos companheiros. Com o safanão de Tilda, o magricela se estatelou no chão, os olhos arregalados de surpresa e espanto. E então dois pares de olhos infinitamente arregalados e saltados se encararam na escuridão.

***