Isabel Pires
Margarida, de pé em frente ao
espelho, construía outro rosto por sobre o seu. Corrigia a linha do nariz,
apagava as marcas em volta da boca, escondia, sob a camada de base, o vinco
profundo entre as sobrancelhas. Estava quase pronta, de preto, em frente ao
espelho.
Todos pensavam ser Margarida uma
bruxa, sempre de preto. Tinha Curso de Estética, e era Perita Manicure. Mas em
casa de ferreiro... Suas unhas estavam que era puro sabugo. Enfiou os pés numas
botas pretas e as mãos, ia escondê-las como pudesse.
Margarida era franzina, de uma
franzinice que revelava toda sua infelicidade. Tinha, porém, muitos namorados.
Na verdade, todos eram namorados de Margarida, embora ela própria não fosse
namorada de ninguém. Nenhum daqueles joões capazes de confessar terem tido,
pelo menos uma noite, algo a ver com aquela que era: A Bruxa.
Pois que era assim que definiam
aquela que estava sempre de preto. Dela, diziam as mulheres que fazia macumba
para segurar homem, embora, na realidade, nunca houvesse conseguido tal
intento. Dizia ouvir vozes, principalmente daqueles que dela falassem mal. E
tinha pó-de-pemba para queimar de incenso pela casa. Limpar os fluídos
negativos, dizia ela.
Apesar de tudo, Margarida procurava
ser feliz e, até, já encontrara quem se aventurasse a querer fazê-la feliz. Nos
seus vinte e sete anos, já conhecera de tudo, inclusive a felicidade, embora
esta fosse para ela uma mulher de rosto velado. No entanto, queria mesmo ser
feliz, e por isso perseguia de perto a tal Mulher-Felicidade por onde quer que
apontasse, para arrancar-lhe de uma vez o véu e olhá-la longamente de frente. E
tinha de ser já, os Trinta Anos já batendo à porta...
Margarida voltou-se do espelho para
saber o que a mãe queria. Saco. Tinha que interromper, logo quando passava
lápis nos olhos?
A mãe, esta, estremecia as pálpebras
de prazer em ver a filha tão linda. Enfim, olhos de mãe são sempre olhos de
coruja...
Margarida, de preto, cabelos
esticados e rugas escondidas, dava voltas sobre si mesma no seu minúsculo
quarto. Estava pronta, enfim.
Foi até a penteadeira, passou o
perfume barato, relanceando um olhar pela janela. Lá fora, a noite, toda de
negro como ela, a aguardava.