domingo, 24 de novembro de 2024

Os madrigais de Margarida Madrugada

 Isabel Pires 

            Margarida, de pé em frente ao espelho, construía outro rosto por sobre o seu. Corrigia a linha do nariz, apagava as marcas em volta da boca, escondia, sob a camada de base, o vinco profundo entre as sobrancelhas. Estava quase pronta, de preto, em frente ao espelho.

            Todos pensavam ser Margarida uma bruxa, sempre de preto. Tinha Curso de Estética, e era Perita Manicure. Mas em casa de ferreiro... Suas unhas estavam que era puro sabugo. Enfiou os pés numas botas pretas e as mãos, ia escondê-las como pudesse.

            Margarida era franzina, de uma franzinice que revelava toda sua infelicidade. Tinha, porém, muitos namorados. Na verdade, todos eram namorados de Margarida, embora ela própria não fosse namorada de ninguém. Nenhum daqueles joões capazes de confessar terem tido, pelo menos uma noite, algo a ver com aquela que era: A Bruxa.

            Pois que era assim que definiam aquela que estava sempre de preto. Dela, diziam as mulheres que fazia macumba para segurar homem, embora, na realidade, nunca houvesse conseguido tal intento. Dizia ouvir vozes, principalmente daqueles que dela falassem mal. E tinha pó-de-pemba para queimar de incenso pela casa. Limpar os fluídos negativos, dizia ela.

            Apesar de tudo, Margarida procurava ser feliz e, até, já encontrara quem se aventurasse a querer fazê-la feliz. Nos seus vinte e sete anos, já conhecera de tudo, inclusive a felicidade, embora esta fosse para ela uma mulher de rosto velado. No entanto, queria mesmo ser feliz, e por isso perseguia de perto a tal Mulher-Felicidade por onde quer que apontasse, para arrancar-lhe de uma vez o véu e olhá-la longamente de frente. E tinha de ser já, os Trinta Anos já batendo à porta...

            Margarida voltou-se do espelho para saber o que a mãe queria. Saco. Tinha que interromper, logo quando passava lápis nos olhos?

            A mãe, esta, estremecia as pálpebras de prazer em ver a filha tão linda. Enfim, olhos de mãe são sempre olhos de coruja...

            Margarida, de preto, cabelos esticados e rugas escondidas, dava voltas sobre si mesma no seu minúsculo quarto. Estava pronta, enfim.

            Foi até a penteadeira, passou o perfume barato, relanceando um olhar pela janela. Lá fora, a noite, toda de negro como ela, a aguardava.

 

Monólogo incoerente de uma viúva com um vendedor de lingerie

 Isabel Pires  

— “A camisola do dia, tão transparente e macia...”

— Tá muito chic.

—  É, do jeito que o tempo taí agora, pode até sair que é meia-estação...

— Quanto é esse jogo?

— Tá acompanhando o dólar...

— Tou dizendo prá você que eu gosto é de cor clara...

— Só vou no seis e no oito. Quem falou que posso vestir quarenta e quatro?

— Quem disse que eu posso usar isto aqui, prá ficar olhando só pro travesseiro?

— É coisa fina, tá se vendo.

— Eu, fazendo o orçamento lá em casa, eu lhe pago de duas vezes.

— A blusa me serve, é... a calça me serve, a blusa é que não sei...

— A amarelinha que eu tenho, ela tem essa coisa daqui, ó. Bonitinha...

— Casamento é sofrimento.

— Essa cor de blusa é linda, né?

— Papai Noel, lá em casa, pros meninos já tá adiantado: mesa de bilhar.

— Continuo dizendo que eu gostei é dessa aqui. Não sei porquê, mas eu gosto é de branco.

— Na hora de receber, não fico com nenhum tostão no bolso.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Acampamento – Lua de sangue

 Isabel Pires

Movimentava-se no mundo com certeza das coisas e por isso quase nunca falhava. Quase nunca, embora a certeza fosse constante. Mas... Se não houvera a tal emoção... Vacilava, ah sim. Como vacilava. Embora tivesse certeza de tudo. Mas decidia e não seguia a razão. Uma carinha de emoção e a certeza perdia a graça, a moda, a vida. Se ia.

No outono, com certeza o vento assobiaria baixinho e encresparia pouquinho as peles, os cabelos. No outono, acampariam. No outono...

A fogueira queimava alta e o tocador de violão ajudava a esquentar a lua. Cheia, por detrás dos galhos secos da árvore mais alta que a fogueira, a lua era uma bola de cristal mostrando incertezas. O binóculo passou de mão e mão e a lua ficou mais perto.

 Que lua louca!

Louca, desatinada, a lua se dilacerava. Dor? A fogueira estava boa e trouxeram pipoca e vinho. A pipoca estava muito salgada e alguém reclamou. Mas comeram tudo. O vinho rodou de mão em mão, como o binóculo. E, como o binóculo, deixou a lua ainda mais perto. E a lua estava louca.

– Contam, amor, que antes a Lua era a dona da Terra. Rainha absoluta. E durante o reinado da Lua, a Terra era uma noite só. Noite cheia de lua, noite cheia de graça. Noite minha e tua. E, amor, os namorados ofereciam à deusa lunar, em noite de lua cheia, um ritual sagrado, místico e cheio de mistério. E era bom o reinado da Lua.

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