domingo, 15 de dezembro de 2024

Duelo

 Isabel Pires 

A noite era escura e gelada na rua de terra. Poças de água brilhavam aqui e ali, refletindo a escassa luz dos poucos postes que iluminavam o caminho. O caminho, deserto.

Uma jovem se achava parada junto a um pequeno portão de ferro batido. Seu rosto lívido, devastado pelo vento gélido, se mantinha na penumbra, protegido pelo muro que fazia uma sombra densa, interpondo-se entre ela e a claridade difusa que vinha da luz de um poste próximo. De quando em quando, porém, seu rosto encrespado se mostrava de encontro à luz, examinando o caminho vazio.

Um vulto agitou-se ao longe, envolto em sombras. O rosto da jovem, destacado contra a luz, o examinava. Alguém aproximava-se zigue-zagueando pela rua, livrando-se das poças de água barrenta. A parca claridade de um poste iluminou por instantes aquele vulto, que pareceu sair repentinamente do anonimato das sombras. Era uma mulher. Carregava uma sacola, impelida pelo vento que lhe fustigava a saia.

A mulher subiu na calçada, batendo os pés, sacudindo o barro que se aderira aos saltos de suas sandálias altas. Veio andando, resoluta. O rosto da jovem recolheu-se à sombra. Seu corpo, porém, envolto numa suéter vermelha e calça desbotada, continuava iluminado parcialmente pela luz do poste.

Ao aproximar-se do portão em que estava a jovem, a mulher com a sacola estacou o passo. As duas mulheres se encararam na semiescuridão. Seus olhares entrechocaram-se como pedras, no rosto de uma e de outra. Por um instante, as trevas se imobilizaram no silêncio da rua deserta.

A mais velha das duas mulheres retomou sua marcha pela calçada molhada, fundindo-se outra vez nas sombras. A outra, parada junto ao portão, foi escorregando de encontro à barra de ferro fria, até alcançar o chão de cimento grosso da calçada. Enlaçou então os joelhos, pousando sobre eles a cabeça, e começou a chorar. 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Linhas analógicas cruzadas

 Isabel Pires 

           Trabalhava numa livraria especializada, quando certa feita atendeu um telefonema de um suposto cliente que, após confirmar o nome da livraria, número do telefone e endereço, disse:

            — Por favor, eu gostaria de falar com o gerente financeiro.

            — Gerente financeiro? Olha, o telefone é outro. Você está falando diretamente no serviço de vendas.

            — Sim? Serviço de vendas? O que é isso?

            — Qual seria o assunto, por favor?

            — Ah, sim. É a respeito de uma compra de títulos.

            — Compra de títulos? Mas então é aqui mesmo. Pode falar...

         — Bem, eu gostaria de saber se vocês por acaso estariam interessados na compra de alguns títulos...

            — Compra? Mas eu queria saber os títulos das publicações que você procura, para ver se os tenho ainda para venda.

            — Venda?! Vocês também vendem títulos?

            — Claro. Quais os títulos que você procura?

            — Não, não. Eu é que estou oferecendo os meus títulos para venda. Quer dizer, são títulos de ações da companhia telefônica.

            — Ah, sim! E os títulos que eu vendo são livros, publicados por nossa editora.

            — Ah, sim!

            Clic.

            Clic.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O grilo, a estrela e a janela

 Isabel Pires 

Estendido em decúbito dorsal na cama, ele via a estrela e pensava como ela era bela. Bela e longe, porque entre ele e a estrela havia a janela. O vidro da janela e a grade da janela. Se olhasse bem para a grade, não veria a estrela, apenas a pressenteria. E, olhando para a estrela, esquecia da grade. Olhava, pois, para a estrela bela e só ela então existia. Mas o vento, querendo invadir tudo, de vez em quando o lembrava da janela – a vidraça tilintava, se anunciando.

Por  que sol? Por que lua? E, sobretudo, por que estrela?

E por que estrela, se as mãos são mais humanas, embora para muitos possam ser imperfeitas? Mas que é a perfeição?

Bom seria deixar o vento invadir o quarto.

Ele rolava no colchão, pingando suor e querendo a estrela. Mas o vento não era vento, apenas uma leve brisa, e era melhor não abrir janela nenhuma. Pegou a toalha, pendurada à cabeceira da cama, e atirou-a, tentando pendurá-la no trinco da janela. Esta, como que adivinhando o gesto, e obediente, recebeu no trinco a toalha úmida que ficou balançando uns instantes e depois quietou.

A saboneteira estava lá, no parapeito da janela. E um pente de bolso e um espelhinho com o retrato de uma mulher nua atrás. Mulher nua, pensou ele, achando sofisticado demais. Pois o que estava do outro lado do espelho não era apenas uma mulher pelada? Peladíssima, confirmaram os seus pensamentos, enquanto ele se queimava de calor e desejava abrir a janela. Mas os pernilongos?

Chamo-me Zé e divido o quarto com um grilo. Meio a meio. Espaços conquistados a duras batalhas. Finalmente, me acostumei a ele. E ele já me aceitou, com minhas manias de levantar fora de hora para escrever desatinos. Mas é que o canto dele me inspira tanto... Não, eu não tenho nem metade do quarto. É todo do grilo, que do canto se apossa de tudo, de mim, com o seu canto. Grilo.

Olhou através das grades procurando a estrela, mas ela já se fora. Que fazer? Seus olhos vagueavam pelas grades da janela hermeticamente fechada. Lá fora, atrás do vidro, a noite. Um pedaço do telhado do vizinho interrompia o quadrado negro do céu atrás das grades. E por instantes ele tentou se lembrar onde havia colocado a escova de dentes, já que ela não estava no parapeito da janela. Raios. Pensou em se levantar, acender a luz e procurar a escova de dentes. Mas o esforço seria demais e talvez vão. Como achar alguma coisa àquela hora, na bagunça do seu quarto minúsculo? De grande, só ele e a janela, encurralados nas quatro paredes do quarto.

A janela e as grades pareciam tomar toda sua existência. Mas tinha o grilo.

Já disse, meu nome é Zé. Tenho mãos que têm veias que latejam um sangue impaciente. Mas uma cigana disse que também tenho estrela. Tenho estrela? Vá lá. Não sou navio nem rei-mago, mas tenho uma estrela. Estrela? O que tenho mesmo é um grilo...

Tenho um grilo, eu disse? Fico a imaginar o que o grilo faria se me ouvisse declarar seu proprietário. Na certa, iria embora. E, espantado, eu o veria fazer as malas. Então, imploraria ao grilo não se vá, grilo, por favor, quem vai tomar conta de mim neste quarto? Ele concederia? Fico a imaginar... E adormeço com o seu canto rompendo a noite. Felizmente, ele não me ouviu.

Meu nome é Zé, e uma noite, quando voltei para casa, o grilo já estava instalado. Tentei expulsá-lo. O que um grilo veio fazer aqui? Inútil, porém, localizá-lo, tão onipresente naquele canto cortante, estridente. Deixei o grilo com o quarto e fui dormir na sala.

Mas eu estava a falar de estrelas, tão distantes, tão frias e brilhantes. Sim, as mãos são mais humanas, embora tenham cinco pontas. Como as estrelas.

Comecei a perceber as estrelas ouvindo o grilo dentro da noite. E, do fundo da noite, as estrelas emergiam para preencher o vazio da minha janela. De vez em quando, era a lua que vinha, solitária e orgulhosa, espiar minha insônia emoldurada pelo canto do grilo.

Pela manhã, uma bola de fogo imersa em intensa claridade tomava conta do quadrado da janela, do quarto, de mim, do grilo. Emudecido, o grilo esquecia de existir.

Por que sol, por que lua, por que estrela? 

Eu dizia que meu nome é Zé, pois não? E que o grilo... Sim, o grilo. Um dia, digo, uma noite dessas de insônia e desatino...


O irmão de Tilda

 Isabel Pires 

Chamava-se Tilda e era profundamente louca. Não que tivesse perdido toda a razão. Isso não. Sobrara-lhe alguma, retida nos olhos saltados. Trabalhava num hospital – enfermeira? Chegava todos os dias em casa tarde da noite. O namorado ia levá-la de carro.

Tilda não conhecia as pessoas pacatas do seu bairro. Só os “pouco recomendáveis”. Culpa do irmão magricela que todas as noites, quando Tilda chegava, estava trancado no quarto com os companheiros pouco recomendáveis.

Tilda tirava os sapatos e se jogava no sofá, olhando o vazio da janela escura. Daí a pouco, invocava e pulava. A mãe tossia, trancada no quarto. Vendo tevê, esperava a filha chegar para tomarem juntas uma atitude. Não que não fosse autoritária: quando fritava batatas, retirava-as ainda cruas da gordura fervente.

As sombras na sala ficaram oscilando pelas paredes, e o abajur, metro e meio acima do chão, parecia um pêndulo. Resultado do safanão de Tilda ao levantar-se.

No fundo do corredor, a fresta da porta fosforescia. Tilda aproximou-se, pé ante pé, respiração presa. À meio caminho, um clarão súbito iluminou-a. A mãe abrira a porta do quarto. Rígida, com o olhar, mandou Tilda seguir em frente.

Tilda acelerou um pulo e alcançou o trinco da porta. Chaveado. Do outro lado da madeira, um “psiu” e o clic do botão da luz. A fresta iluminada extinguiu-se. Então, furiosa, ela começou a esmurrar a porta e a gritar para que abrissem. Silêncio absoluto determinou a decisão de Tilda.

O trinco da porta tombou meigamente sobre o carpete, enquanto Tilda, acuada, parecia sua própria sombra colada à parede. Só os olhos de fora, estes, ainda mais saltados.

Mas, o trinco arrancado, a porta invadindo-se a si mesma, mostraram apenas as moitas cabeludas dos roqueiros dos cartazes espalhados pelas paredes do quarto. Imobilizados e indefesos atrás das guitarras, pareciam eles a fugir inutilmente da inspeção de Tilda. Ninguém no quarto. Só os cabeludos, nos cartazes, cujas cabeleiras pareciam fustigadas pela brisa que vinha da janela. A janela – aberta.

Tilda abriu a porta da rua e atirou-se cegamente pelas escadas abaixo. Como uma louca, deu a volta sob as janelas da casa, a tempo ainda de agarrar o irmão que tentava pular o muro dos fundos atrás dos companheiros. Com o safanão de Tilda, o magricela se estatelou no chão, os olhos arregalados de surpresa e espanto. E então dois pares de olhos infinitamente arregalados e saltados se encararam na escuridão.

***


domingo, 24 de novembro de 2024

Os madrigais de Margarida Madrugada

 Isabel Pires 

            Margarida, de pé em frente ao espelho, construía outro rosto por sobre o seu. Corrigia a linha do nariz, apagava as marcas em volta da boca, escondia, sob a camada de base, o vinco profundo entre as sobrancelhas. Estava quase pronta, de preto, em frente ao espelho.

            Todos pensavam ser Margarida uma bruxa, sempre de preto. Tinha Curso de Estética, e era Perita Manicure. Mas em casa de ferreiro... Suas unhas estavam que era puro sabugo. Enfiou os pés numas botas pretas e as mãos, ia escondê-las como pudesse.

            Margarida era franzina, de uma franzinice que revelava toda sua infelicidade. Tinha, porém, muitos namorados. Na verdade, todos eram namorados de Margarida, embora ela própria não fosse namorada de ninguém. Nenhum daqueles joões capazes de confessar terem tido, pelo menos uma noite, algo a ver com aquela que era: A Bruxa.

            Pois que era assim que definiam aquela que estava sempre de preto. Dela, diziam as mulheres que fazia macumba para segurar homem, embora, na realidade, nunca houvesse conseguido tal intento. Dizia ouvir vozes, principalmente daqueles que dela falassem mal. E tinha pó-de-pemba para queimar de incenso pela casa. Limpar os fluídos negativos, dizia ela.

            Apesar de tudo, Margarida procurava ser feliz e, até, já encontrara quem se aventurasse a querer fazê-la feliz. Nos seus vinte e sete anos, já conhecera de tudo, inclusive a felicidade, embora esta fosse para ela uma mulher de rosto velado. No entanto, queria mesmo ser feliz, e por isso perseguia de perto a tal Mulher-Felicidade por onde quer que apontasse, para arrancar-lhe de uma vez o véu e olhá-la longamente de frente. E tinha de ser já, os Trinta Anos já batendo à porta...

            Margarida voltou-se do espelho para saber o que a mãe queria. Saco. Tinha que interromper, logo quando passava lápis nos olhos?

            A mãe, esta, estremecia as pálpebras de prazer em ver a filha tão linda. Enfim, olhos de mãe são sempre olhos de coruja...

            Margarida, de preto, cabelos esticados e rugas escondidas, dava voltas sobre si mesma no seu minúsculo quarto. Estava pronta, enfim.

            Foi até a penteadeira, passou o perfume barato, relanceando um olhar pela janela. Lá fora, a noite, toda de negro como ela, a aguardava.

 

Monólogo incoerente de uma viúva com um vendedor de lingerie

 Isabel Pires  

— “A camisola do dia, tão transparente e macia...”

— Tá muito chic.

—  É, do jeito que o tempo taí agora, pode até sair que é meia-estação...

— Quanto é esse jogo?

— Tá acompanhando o dólar...

— Tou dizendo prá você que eu gosto é de cor clara...

— Só vou no seis e no oito. Quem falou que posso vestir quarenta e quatro?

— Quem disse que eu posso usar isto aqui, prá ficar olhando só pro travesseiro?

— É coisa fina, tá se vendo.

— Eu, fazendo o orçamento lá em casa, eu lhe pago de duas vezes.

— A blusa me serve, é... a calça me serve, a blusa é que não sei...

— A amarelinha que eu tenho, ela tem essa coisa daqui, ó. Bonitinha...

— Casamento é sofrimento.

— Essa cor de blusa é linda, né?

— Papai Noel, lá em casa, pros meninos já tá adiantado: mesa de bilhar.

— Continuo dizendo que eu gostei é dessa aqui. Não sei porquê, mas eu gosto é de branco.

— Na hora de receber, não fico com nenhum tostão no bolso.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Acampamento – Lua de sangue

 Isabel Pires

Movimentava-se no mundo com certeza das coisas e por isso quase nunca falhava. Quase nunca, embora a certeza fosse constante. Mas... Se não houvera a tal emoção... Vacilava, ah sim. Como vacilava. Embora tivesse certeza de tudo. Mas decidia e não seguia a razão. Uma carinha de emoção e a certeza perdia a graça, a moda, a vida. Se ia.

No outono, com certeza o vento assobiaria baixinho e encresparia pouquinho as peles, os cabelos. No outono, acampariam. No outono...

A fogueira queimava alta e o tocador de violão ajudava a esquentar a lua. Cheia, por detrás dos galhos secos da árvore mais alta que a fogueira, a lua era uma bola de cristal mostrando incertezas. O binóculo passou de mão e mão e a lua ficou mais perto.

 Que lua louca!

Louca, desatinada, a lua se dilacerava. Dor? A fogueira estava boa e trouxeram pipoca e vinho. A pipoca estava muito salgada e alguém reclamou. Mas comeram tudo. O vinho rodou de mão em mão, como o binóculo. E, como o binóculo, deixou a lua ainda mais perto. E a lua estava louca.

– Contam, amor, que antes a Lua era a dona da Terra. Rainha absoluta. E durante o reinado da Lua, a Terra era uma noite só. Noite cheia de lua, noite cheia de graça. Noite minha e tua. E, amor, os namorados ofereciam à deusa lunar, em noite de lua cheia, um ritual sagrado, místico e cheio de mistério. E era bom o reinado da Lua.

***

terça-feira, 29 de outubro de 2024

O viajante

 Isabel Pires

O fio de aço do pensamento cortando implacável, penetrando na carne cada vez mais fundo, rasgando músculos e nervos até atingir aquele ponto onde não há mais matéria, até atingir o espírito, incomodando-o, obrigando-o a desalojar-se do fundo escuro onde se refugiou. A lâmina afiada continuando a devastação impiedosa, deixando um rastro de sangue, chagas expostas, feridas há muito esquecidas, como folhas secas na margem do caminho. Folhas secas e empoeiradas, rolando esquecidas e perdidas por estradas tortuosas. O viajante curva sua fadiga e recolhe as folhas secas, desamassando-as, refrescando-as, reavivando-as. Respingando-lhes água. Água? Sangue vermelho, fresco. Jorra aos borbotões das próprias folhas torturadas. Oh, melhor deixá-las reverberando sem razão, esquecidas de si mesmo, até que virem pó, trituradas naturalmente pelo tempo. Mas sangram cada vez mais, se renovando no próprio sangue, cada vez mais frescas, mais vivas, mais expostas. Chagas que não encontram consolo. Nem sequer piedade.

A lâmina é impiedosa e penetra cada vez mais fundo, varando a ferida, cutucando-a, removendo-lhe as cascas que a recobrem tão artificialmente, denunciando-a. Aqui debaixo há uma chaga mal curada que esconde uma fonte inesgotável de dores.

Havia escárnio naquele riso, justamente o mais amado, o pensado com mais cuidado. A boca se movendo numa expressão de desprezo, se retorcendo de escárnio. Ah, dói. O riso frio rasga a pele, queima, dilacera. E zomba da ferida recém aberta. Mais tarde, ainda sobrevivem os últimos ecos daquele riso exuberante de sarcasmo. Ouvindo-os, acordes adormecidos subitamente despertos, os olhos queimam, ardem. As pálpebras piscam freneticamente, num ritmo louco. Batem, batem, em chamas, flamejantes. E começam finalmente os primeiros pingos quentes de lágrimas, pesados como os primeiros pingos de chuva, numa tempestade de verão. Troveja dentro do peito. As lágrimas escorrem finalmente abundantes, finalmente libertas, mas ainda quentes, por sobre o rosto intumescido. Aos poucos, porém, o horizonte se desanuvia. Não há mais tempestade. O vento bate no rosto, refrescando-o, purificando-o. E novamente as chagas são folhas secas, esquecidas à beira do caminho. 

O viajante retoma a jornada, reconciliado com seu destino.

***

O homem nu

Isabel Pires

Olha no relógio: quase onze horas da manhã. Aula infindável. O seminário se arrasta, monótono. A professora, impaciente com a apatia da turma, tenta despertar o interesse dos alunos com métodos coercitivos.

– Se ninguém quiser continuar o assunto que eu coloquei em discussão, vou ter que tomar uma medida muito séria.

Silêncio. A professora percorre com o olhar a sala, de ponta-a-ponta. Rostos sérios e graves, na maioria jovens, muito jovens.

– Afinal, vocês leram ou não o texto?

– Pro-fes-sora, o-olha, eu acho, eu acho que a questão

porcaria, por que não paro de gaguejar? Todo mundo deve estar me olhando e com vontade de estourar de rir. Na minha cara. Só porque eu gaguejo quando vou falar em público. A culpa é da professora. Autoritária. Nem parece que dá aula para universitários. E essa sala? Tem gente demais. Uns apáticos. E quando alguém resolve abrir a boca, ficam olhando com esse ar de superioridade de quem sabe tudo mas não está afim de falar. Porcaria. Por que é que eu tinha de abrir a boca? Antes ficar quieto, como esse bando de apáticos. O horário já está acabando mesmo

Enquanto fala para a assistência – metade das cadeiras ocupadas, a outra metade vazia –, ele gesticula. Esbarra o braço na pilha de livros sobre a carteira. Dois livros despencam no chão.

– Obrigado – recebe os livros apressadamente, que a jovem a seu lado entrega, com gestos calmos, tranquilos.

e ainda sorri, a cretina. Vê que estou nervoso e sorri. Quem ela pensa que é, com essa autossuficiência toda? Queria ver ela colocar em discussão o assunto que eu levantei. Cretina, convencida

Concentra-se no caderno aberto à frente. Folhas e folhas preenchidas de esquemas, resumos, lembretes, notas. Fixa as linhas simétricas, onde os garranchos das letras se equilibram. Sempre paralelas, nunca incomodam umas às outras, as linhas do caderno. Como os móveis do seu quarto. O quarto.

porcaria, quando tou estudando trancado no quarto, não tem nada disso. Sei perfeitamente o que eu vou falar no seminário, e quando chega o seminário, é essa gagueira toda. Porcaria

(Trancado no quarto, discorre sobre Comte, Marx, Maquiavel, além de temas atuais: a situação do índio no Brasil, o feminismo na América Latina, a crescente violência urbana, o eterno conflito no Oriente Médio. Dá voltas pelo recinto. A cama e o guarda-roupa pomposamente aguardam o pronunciamento. O orador se volta, faz uma reverência – sorriso para o criado-mudo – e prossegue a fala: “Segundo a teoria marxista, o conceito de classe social é um conceito que...”. O discurso vara a noite. De vez em quando, toma um gole de água – a garganta seca. Consulta o despertador – único ouvinte desatento, sempre irrequieto com seu tique-taque, mas não suficiente para interromper a palestra. Tão tarde? Enfia-se debaixo das cobertas, sorrindo ainda para a assistência)

por que as pessoas não são como os guarda-roupas? Ou mesmo como o despertador, que apesar do tique-taque, ainda é bem mais simpático que muita gente por aí?

– Professora, hum, só mais uma coisa, hum. Eu gostaria de voltar ao primeiro item, hum, porque

e esse arranhado na garganta. Estou rouco, completamente rouco. Agora que esses palhaços vão rebentar de rir de mim. Será que eu gripei? Hum, hum, alguém aí tem pastilha de hortelã? Nem que tivessem, não dariam. Uns egoístas, eu sei

Continua a gaguejar e, de repente, olha para a lousa atrás da professora. Fixa o olhar no quadrado branco, embutido na parede. A lousa branca. Como nunca reparou nela, nos dias de seminário? Olhando para a imponente lousa branca, ele não gagueja mais. Não há mais ninguém na sala – foram-se embora todos os apáticos. Ele está só, como no seu quarto. Ele e a lousa branca. Ele e o seu mundo. Mundo quadrado, em branco.

Para de falar e, mecanicamente, apoia a palma da mão na face. Continua encarando a lousa branca, agradecido. Seu rosto não queima mais.

A aula chega ao fim. Cadeiras se arrastam – os apáticos ainda estavam aí? O olhar de superioridade agora é seu. Sorriso iluminado. Quase pisca para a lousa branca. Recolhe os objetos e sai despido para o pátio da faculdade. 

***

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Blow up

Isabel Pires

Essa menina que se tirou muito a descolada. É que ia fazer uma viagem. E era tão tão pálida que todo mundo pensou ser ela de São Paulo, a grande capital. E essa menina se chamava A Menina Que Não Gosta de Salada.

Mãezinha dela dizia:

– Menina vem comer, que com essa cor de cera ninguém arranja namorado.

E ela:

Mãe, agora não dá senão perco o avião. Mas olha, prepara uma salada bem bonita pra quando eu voltar. Com alface a valer, espinafre, rúcula, almeirão, agrião e até manjericão. Mas agora me deixa ir. Está quase na hora do check-in.

Porque – depois descobriu-se – essa menina que tinha nome de natureza-morta dizia tudo por disfarce. Suas palavras descoradas, decoradas junto com a gangue, tinha um cheiro de sangue – sendo ela quase uma vampira (e, portanto, não enxergando um palmo adiante do nariz).

Mas a menina que não gostava de salada, que também tinha por nome Blitz, se dizia muito apaixonada. Por um piloto de avião. A mãe porém continuava a dizer-lhe:

– Um pouco de sangue nas faces não vai te deixar feia não. Mas vai tranquila, minha filha, é que eu não entendo pra que tanta correria.

Porque a menina – e isso, é certo, a mãe desconhecia – queria introduzir-se, como um frêmito, na cabine do avião.

Planos sanguinolentos tinha ela nos cabelos rubros balançando o vento. E a mãe, ao saber da notícia que explodiu em curto-circuito nas manchetes do dia, dançava doida. Ensandecida, dizia:

– Nunca mais alface. Deixa isso pra lá. Vou procurar aquela receita de bolo de chocolate com baba de moça, recheio de brigadeiro, enfeitado com cerejas bem vermelhas. Vou fazer mil guloseimas pra quando ela voltar. Lambuzar as mãos de doces, deixa o alface para lá. 

***

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Um nome na palma da mão


Isabel Pires

                                                                                                                                                

O prédio da faculdade era um tanto antigo, não muito confortável, mas ficava num lugar agradável e bastante amplo. Ao lado das salas de aula funcionava a secretaria. Na outra ala ficavam o auditório e os banheiros. No saguão, ao fundo, a biblioteca. No corredor das salas de aula havia várias portas de acesso ao pátio. Este era vastíssimo, com um imenso estacionamento e um lindo jardim cheio de árvores. Lá no fundo ficava a cantina, que funcionava como ponto de encontro dos estudantes durante o intervalo das aulas. E, ao seu lado, a creche. Esta última era a conquista mais importante dos últimos tempos. Servia tanto aos estudantes como aos professores que possuíam filhos pequenos e não tinham com quem os deixar.

Era hora do intervalo. A sala estava praticamente vazia. Apenas Eneida continuava debruçada sobre a carteira, lendo um livro em seu tablet. No fundo da sala, Roberto também estava sentado, mas demonstrando tão somente preguiça de se mexer do lugar. Vez ou outra dava uma espiada no celular, mas mesmo isso parecia cansá-lo. Roberto era o engraçadinho da turma, sempre com uma piada pronta, sempre disposto a fazer um bullying básico com alguém. Mas naquele exato instante parecia meramente entediado.

No corredor, próximo à porta e de costas para o interior da sala, alguns estudantes conversavam num semicírculo.

Eneida, muito concentrada na leitura, sobressaltou-se quando sentiu um leve toque no braço. Virou-se e respirou aliviada. Era o Ângelo, que acabara de se sentar numa carteira ao lado.

Oi, tudo bem? – começou ele –. Olha, Eneida, você está muito ocupada? 

Bem, mais ou menos. Por quê?

É que eu precisava muito de um favor seu. Mas o que houve?  interrompeu-se ele . Te assustei? , perguntou, observando a tensão no rosto da jovem. 

Não, não foi nada. É que eu estava um pouco distraída, quero dizer, concentrada demais na leitura, sabe como é... Você me pegou um pouco de surpresa. Não tinha visto você entrar.

Desculpe, Eneida. Mas é que realmente eu precisava de uma mão, entende? Estou com um pouco de pressa e ainda tenho que correr lá na secretaria para resolver um probleminha. Não vai dar pra fazer duas coisas ao mesmo tempo. Então eu pensei, e se a Eneida puder me ajudar?

A carteira em que Eneida estava sentada ficava próxima à porta e, enquanto ela conversava com o Ângelo, viu quando as pessoas que estavam no corredor se dispersaram. Deviam estar indo para a cantina tomar o cafezinho do intervalo. No fundo da sala, Roberto deixou momentaneamente de lado a preguiça, e esticava o pescoço em direção ao corredor. Seu rosto era todo curiosidade.

Tudo bem, Ângelo. O que você quer que eu faça? – disse Eneida, já desistindo da leitura e guardando cuidadosamente o tablet em sua mochila.

Eu queria que você pegasse a Yalina na creche pra mim, enquanto eu vou lá na secretaria descascar esse abacaxi que pintou, tudo bem? Depois volto aqui, e pego a Yalina com você. Vai quebrar essa pra mim, não vai, Neidinha?  disse Ângelo, e abriu um largo sorriso, aguardando a resposta. 

Poucas pessoas chamavam Eneida de Neidinha. Ela sorriu um pouco antes de concordar. 

– Tudo bem, vou quebrar essa. Pego a menina pra você.

Yalina, a filha do Ângelo, tinha pouco mais de um ano e ele costumava deixá-la na creche da faculdade. Sua mulher viajava a trabalho com bastante frequência e não podia levar a menina com ela. No entanto, ninguém na turma jamais tinha visto a criança.

– Mas é só dessa vez  – disse Eneida . Não vai abusar... Como é mesmo o nome dela?

– Y  a  li  na – soletrou Ângelo . Com ípsilon no começo. 

É um pouco difícil. Y – – li – na – repetiu Eneida . Espera, é melhor anotar. 

Pescou uma caneta esquecida no fundo da mochila e escreveu o nome na palma da mão. “Yalina”. O Ângelo já saía da sala, apressadamente. Da porta, ele acenou para Eneida, que retribuiu o aceno, já se preparando para levantar e ir buscar e a menina.

Quando ia alcançando a porta, Roberto chamou-a.

– Ei, onde é que você vai?

Eneida o encarou. Roberto era decididamente intrometido.

Por quê?

Desculpa, desculpa. É que eu sou muito curioso…

Ah, disso todo mundo sabe – retrucou Eneida . E daí?

Daí, que eu queria saber com quem você estava falando no corredor esse tempo todo. Não vi ninguém!

Eneida lançou-lhe um olhar bem hostil.

Engraçadinho! – de repente sorriu –. Cara! Você é mesmo maluco! 

Virou-se para sair, mas Roberto a interrompeu novamente.

Espere, você não disse onde vai. Daqui a pouco começa a próxima aula... Vai ter teste oral, lembra?

– Tou sabendo. Mas onde eu vou não é da sua conta – respondeu Eneida. E acrescentou: – Você é mesmo bem curioso, hein?

Ela se pôs a andar, mas estacou o passo e virou-se para Roberto.

Tudo bem, vou satisfazer sua curiosidade insaciável… Vou lá na creche.

Ah, na creche... Mamãe.... Você nunca me disse que tinha filho. Como ele se chama?

Eneida balançou a cabeça, em desaprovação, e, sem mais responder, saiu da sala.

Na creche, Eneida precisou se explicar muito, para conseguir que a professora lhe entregasse a filha do Ângelo. Ao voltar à sala de aula, quase esbarrou em Júlia no corredor, que vinha toda afobada.

Nossa, onde você vai com essa pressa toda?

Júlia ajustou os óculos, piscando muito.

As aulas foram suspensas – disse –. Preciso sair correndo, tenho umas coisas pra resolver. 

As aulas foram suspensas?! – Eneida estava boquiaberta –. Por quê?!

Júlia piscou ainda mais, encarando Eneida.

Ué, você não sabe? Foi por causa do Ângelo. Bom, vou indo. Tá todo mundo lá na cantina, acalmando a Lourdinha. Ela viu tudo, coitada. Mas eu tenho mesmo que ir, desculpa. Ah!...  disse Júlia olhando a criança no colo de Eneida –, linda sua menina! – E foi saindo apressada. 

Mas não é minha… Espera…

Eneida deixou cair o braço livre ao longo do corpo, desanimada, enquanto segurava Yalina com o outro braço. Franziu a testa, tentando compreender o monólogo incoerente da outra. Olhou a menina no seu colo. Só então pareceu decidir-se. Saiu disparada em direção à cantina. Havia uma agitação qualquer por lá, Eneida logo percebeu ainda atravessando o pátio. Entrou. As pessoas faziam um círculo meio compacto em torno de Lourdinha, que estava ainda muito nervosa, soluçando bastante. Lágrimas desordenadas escorriam-lhe pelo rosto.

– O que houve? – perguntou a jovem com a criança no colo. 

Lourdinha olhou-a e fungou ainda mais. Uma outra jovem virou-se, meio enfastiada com a choradeira da outra, e começou a brincar com a criança que Eneida carregava.

Nossa, que menina mais fofa – disse alguém. 

É, é linda. Mas, gente, não é minha filha, não! Afinal, o que aconteceu? – insistiu Eneida.

Então pela vigésima vez, Lourdinha se pôs a contar.

Ah, meu Deus, foi horrível, horrível! – abanava a cabeça, limpando uns restos de lágrimas –. Eu estava saindo mais cedo hoje... Ah! quando lembro disso... Não devia ter matado aula, mas é que com aquele estrupício daquele professor, não dá pra ficar em sala, não dá mesmo!

– Continue, por favor – interrompeu Eneida, mais curiosa.

Bom – continuou Lourdinha –, eu já estava saindo, quando vi o carro do Ângelo, lá na rua. Até pensei em pedir uma carona, mas ele parecia louco de pressa. Nem me viu. Atravessou a rua, normalmente, descendo a outra, sabe?

– Sei, sei.

Eneida estava impaciente. Conhecia perfeitamente as duas ruas transversais, movimentadíssimas, que faziam esquina no quarteirão da faculdade.

Pois aí – continuou Lourdinha –, de repente o Ângelo fez aquela loucura. Só sendo mesmo louco, muito louco. Eu vi que ia dar merda, tive um pressentimento, sabe... Ah, meu Deus!

– Mas o que ele fez, afinal? – Eneida não suportava mais a tensão.

O Ângelo tinha acabado de retirar o carro do estacionamento e já estava saindo da faculdade. Atravessou a rua mais movimentada, descendo a outra para, como de costume, fazer o retorno lá embaixo e pegar a avenida. Mas, ao acabar de atravessar a rua com o carro, pareceu ter se lembrado subitamente de algo e deu marcha à ré, sem olhar para os lados. Um ônibus vinha na transversal. Não estava em alta velocidade, mas pegou Ângelo em cheio, ao volante, de um jeito que o estraçalhou com o impacto. A morte foi instantânea. O carro, bastante danificado, ainda estava no meio da rua. O ônibus também, vazio. O trânsito havia sido interrompido e a perícia lá estava agora, fazendo o seu trabalho.

Eneida, pálida, parecia prestes a desmaiar. Seu lábio tremia, e alguém tirou-lhe a criança dos braços. Sentaram-na numa cadeira e deram-lhe um pouco de água com açúcar.

O Ângelo?! Mas é incrível!  balbuciou, trêmula . Eu tinha acabado de falar com ele, lá na sala. Agora mesmo, não faz nem 15 minutos! Ele me pediu para buscar a filha na creche. A Yalina, essa menina fofa, é a filha do Ângelo. – Parou, franzindo a testa. – Mas que coisa estranha, parece que ele se esqueceu completamente da menina. Tinha combinado de pegar a Yasmim comigo, na sala! 

As pessoas em volta olhavam para ela, sem compreender. Súbito, o silêncio se fez intenso. Eneida levantou a cabeça, perplexa.

– Mas o que há? Por que vocês estão me olhando assim?

Foi Roberto quem respondeu, numa cara incrivelmente séria. 

– O acidente aconteceu há mais de uma hora.


***


sábado, 14 de setembro de 2024

Anjos e flores

 Isabel Pires

Ela colhia margaridas

quando eu passei. As margaridas eram

os corações de seus namorados,

que depois se transformavam em ostras

e ela engolia em grupos de dez.

(Carlos Drummond de Andrade,

Registro Civil [trecho])

 

As duas se conheceram numa clara manhã de domingo, enquanto compravam legumes orgânicos numa barraca da feira.

– Prazer. Rosa

– Prazer. Margarida.

E ficaram tão embevecidas de ambas terem nomes de flores que se tornaram amigas. De infância. Telefonavam-se dia sim, no outro também. Trocavam mensagens pré fabricadas, daquele tipo com flores virtuais e música de fundo, essas coisas que amigas de infância fazem desde sempre. Sempre que podiam, faziam algum programinha juntas: shopping, praia, balada. Pouco a pouco, porém, o negro ciúme começou a se infiltrar entre elas, devastando lentamente tão linda amizade: se outra amiga roubava a atenção de alguma delas, Rosa amuava dias e dias seguidos. Ou então era Margarida quem embirrava.

Mas era bom quando faziam as pazes, um verdadeiro céu. Tratavam de passar mais tempo juntas, fazendo-se gentilezas recíprocas, trocavam lembrancinhas por nada. Agora – ou deste sempre – uma não podia mais viver sem a outra.

Mas Rosa precisou viajar, uma viagem demorada, a trabalho, nos cafundós do judas, onde este teria perdido as botas. Dois meses sem ver Margarida.

Margarida quis ir junto, mas como faltar ao próprio trabalho?

Quando Rosa voltou, Margarida parecia diferente.

No shopping lotado, a praça de alimentação exalava balbúrdia e cheiros indefinidos. Margarida lanchava, quando Rosa a avistou, de longe, de mãos dadas com uma amiga.

A amiga de Margarida, grávida, não cabia em si de contente, e a convidava para madrinha do rebento. Um sonho, dizia ela, há tanto tempo sonhado, e agora plenamente realizado.

Quando Rosa aproximou-se, Margarida convidou-a a juntar-se a elas, mas Rosa, sem disfarçar a agonia que sentia, se foi, não sem antes olhar bem no fundo dos olhos castanho-escuros de Margarida, para levar consigo um pouco de saudade com que aquecer suas noites geladas.

Nunca mais tinham se visto, quando o acaso, que não tem mais o que fazer, colocou-as frente à frente, num final de tarde úmido e quente. Margarida segurava com uma das mãos a imensa barriga, como fazem as mães desde sempre. Alguma coisa muito terna invadiu o peito de Rosa, derretendo-a toda. Apenas se abraçaram, contentes com o reencontro casual.

Margarida desfiou suas lamentações para a amiga: o pai do bebê, um bancário que ela conhecera sob um sol forte num sábado de praia e muita cerveja, era um rematado canalha. Rosa queria saber mais sobre aquele serzinho que estava vindo. Menina ou menino? Puseram-se a falar de nomes – era preciso, afinal, conversar com a bebê. Vitória, queria Margarida. Regina, palpitou Rosa. Vitória Regina? Ou Regina Vitória. E ficou decidido, num súbito espasmo de alegria e espanto: Vitória Régia seria.

Retornando uma tarde do trabalho, Rosa foi visitar Margarida e Vitória Régia. Quando tocou a campainha, o bancário veio atender, com a pequena Vitória Régia tão aninhada em seus braços, que pareciam entrelaçados desde sempre. Rosa, atrapalhada com a caixa de nhás-bentas que levava, não sabia o que fazer. Margarida veio à porta, recebeu os doces da amiga, devolveu um livro há tanto tempo esquecido e – “Tudo de bom para você!” – fechou a porta, com Rosa despetalada do lado de fora.

O Largo da Carioca fervilhava quando Rosa o atravessou a passos largos, em direção ao banco: aos pés da estátua viva de um anjo, cujas asas purpurinadas rebrilhavam ao sol do meio-dia, um casal apresentava, ao som de viola, um repente que falava em mulher-diaba, crianças sem cérebro, políticos corruptos – esses seres que só existem na ficção –, enquanto, do outro lado do Largo, uma mulher de longas vestes brancas clamava aos passantes: “ABANDONEM SEUS PECADOS. DEUS TEM GRANDES PLANOS PARA VOCÊS, MAS VOCÊS DEVEM ABANDONAR O PECADO”. Rosa seguia incólume, uma pilha de contas atrasadas a pagar dentro da bolsa.

No banco, uma fila interminável fazia Rosa desacreditar das pessoas, dos astros, do amor. Subitamente, o acaso: Miguel – era o bancário de Margarida – estava atendendo na fila das prioridades. Rosa decidiu ir falar-lhe. “A senhora é correntista desta agência?”. “Sou a Rosa, não se lembra?”. E como lhe falhasse a memória, ela esclareceu: “Um dia, na praia… Você me disse que trabalhava aqui…”.

Dia chuvoso, de shopping lotado. Era preciso levar as crianças para algum lugar. Miguel, Margarida e Vitória Régia, esta última de cavalinho no pescoço do pai, que, decididamente, parecia talhado desde tempos imemoriais para esta função.

Na fila de ingressos para o cinema, Rosa segurava a barriga com uma das mãos – como fazem as mães desde sempre –, enquanto discutia com alguém sobre prioridade, exibindo o barrigão de oito meses.

Ao vê-la, Margarida derreteu-se toda. E então foi sua vez de sentir alguma coisa terna e quente espalhando-se dentro do peito. Posou a mão sobre a barriga de Rosa, que, com olhos úmidos e grandes, fitava a amiga. “Sentiu?”. Um puxão, um chute bem dado. Lá dentro, Gabriel parecia impaciente para saber o que havia do outro lado.

As duas, enlaçadas, tagarelando sobre tudo e sobre nada, entraram esquecidas do mundo no mundo escuro do cinema, enquanto Miguel levava pela mão a pequena Vitória Régia, agarrada a um imenso pacote de pipocas quentinhas.

***

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

O pagode

 Isabel Pires

 

Dizia que sim, que sim! E sabia perfeitamente que estava mentindo.

— Comprei umas terrinhas. Quero plantar e colher. Não é muita terra, mas é terra boa. É lá onde meu filho vai crescer e tomar banho de rio.

Ela ouvia, olhando longe.

— Você vai lá conhecer, não vai?, perguntou ele, e como ela não respondesse, ele a forçou a olhá-lo, segurando a cabeça dela com ambas as mãos, e sem mais perguntar, disse:

— Você vai lá conhecer.

Ela mexeu um pouco a cabeça, os lábios trancados, pois queria dizer outra coisa. Mas balançou a cabeça afirmativamente. Sim, iria. A pressão das mãos dele na cabeça dela cedeu e ela respirou forte, piscando os olhos. Ele bebeu mais da pinga com mel e ela aproveitou para virar bastante o rosto, observando a turma do pagode, lá na outra mesa, pagodando com todo vigor uma história de feijoada em que entravam orelha e rabo de porco, feijão, farinha e pimenta. Ela riu um pouco escancaradamente mas arrependeu-se em seguida, quando se lembrou de que deveria levar tudo muito a sério. Então olhou para ele.

Ele aproximou o rosto demais, quase tocando no dela, e subitamente enfiou os dedos indicadores nos ouvidos dela. Puxou assim o rosto dela para junto do seu e queria morder-lhe os lábios, as maçãs do rosto, os olhos.

Ela mordeu com força o lábio superior dele e ele, magoado, retrocedeu. Bebeu mais. E abaixou a cabeça, entristecido. Ela sorriu por dentro, mas novamente arrependeu-se. Observou a força bruta que parecia saltar dos músculos do braço do homem à sua frente. A cabeça dele, porém, era frágil, cheia de sonhos, de inocência. Ela sentia-se uma víbora. Não poderia perdoar-se a si mesma. Quis abraçá-lo. Mas já era tarde. 

— Vamos – decidiu ele, numa voz seca.

Levantaram-se e, quem sabe decepcionados consigo mesmos, iniciaram a caminhada para o nada.


***

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Oficina de pipas e papagaios

                                           Isabel Pires

 

Papagaio não é pipa. Esta é feita com dois pedaços de varinha de bambu atravessados, a intervalos regulares, sobre outra vareta maior. Forra-se com o papel de seda, com um dedo de margem, apenas as duas partes superiores, deixando aberta a terça parte de baixo. O papagaio é um quadrado inteiriço, todo forrado. Ambos têm rabiola. Sabe fazer rabiola?

O menino sabia. Esticava a linha sobre a mesa e ia fazendo os laços, colocando dentro deles as tirinhas da seda recortada com uma tesourinha meio cega. Uma tirinha preta, outra vermelha, outra preta, outra vermelha. Uma rabiola pro Flamengo. Outra pro Fluminense. Fazer pipa e papagaio tinha ciência, medida certa das coisas. A rabiola, por exemplo. Não podia ser muito grande. Senão rodava. E a pipa perdia altura, embicava, caía. Cerol não pode. A linha de carretel, contornando todos os lados da pipa, é enrolada em garrafas plásticas. Algumas meninas ajudavam. Menos passar cola, que achavam nojento.

Crianças. Pão doce e maçã eram a base por excelência de sua alimentação, complementada por pirulito, pipoca, chicletes. Pipa, bola, praia e bicicleta em abundância. E sorvete. Crianças deviam ser proibidas de ficarem doentes. O menino foi levado para o hospital para curar o dodói que iria sarar logo logo. Mandaram-no soprar um balão gozado e ele adormeceu.

O menino – chamava-se Julinho – sonhou que voava bem alto. Sentia o vento forte batendo-lhe no rosto, cabelos e braços, enquanto uma vertigem tomava conta dele. Aos poucos, percebeu que estava agarrado a uma pipa gigante toda colorida com todos os tons de cores. Ela dava volteios no ar. Girava girava girava e ficava toda branca. Depois, um raio de sol a atravessava, aquecendo-a, e ela voltava a ficar colorida de novo, parecendo um arco-íris. A rabiola, imensa, descrevia círculos no ar, girando sobre si mesma. A pipa ameaçava embicar e cair. Ele segurava firme, equilibrando-se nas varetas de bambu, mas a perícia de quem controlava a pipa, lá embaixo, era tamanha, que ela sempre ganhava altura. E subia novamente. E novamente voava voava voava. O mundo, apenas uma mancha azulada. Numa dessas manobras mirabolantes, o menino aproveitou para olhar para baixo. E viu, plantado na areia grossa da praia, um garoto de sua idade, manejando com destreza a linha de carretel esticada ao vento. O garoto usava um short igualzinho a um que ele tinha. E seu cabelo, meio comprido, batia-lhe nos olhos, tal como o de Julinho. Era Julinho. Do seio da imensa pipa colorida, Julinho viu-se lá embaixo, na areia da praia.

Nisto, acordou. Um tubo de plástico, fino, enfiado no dorso de uma das mãos, levava para dentro de seu corpo um líquido transparente que saía de uma garrafa plástica, pendurada de cabeça para baixo no alto de um cabide de ferro ao lado da cama. Ele mal podia mover o pescoço, cheio de esparadrapos na nuca. A enfermeira que veio dar-lhe os comprimidos e tomar-lhe a temperatura sorria um sorriso azul e dourado, macio como nuvem. Quando sair daqui vou poder soltar pipa? Claro que sim que sim sim sim sim

Um mês depois ele voltou ao hospital. Desta vez, ficou isolado numa espécie de cabine durante três dias. Quando a enfermeira de sorriso azul e dourado perguntou-lhe como estava, ele disse que sentia uma dor de barriga esquisita. Ao voltar para casa, percebeu que os primos menores sumiram de lá. Os maiores lhe dirigiam um olhar trágico, misto de pavor e piedade. Os adultos disfarçavam. A tia Clara, grávida de oito meses, não foi visitá-lo. Mas mandou-lhe barras de chocolate e um álbum de figurinhas. Progressivamente, sua rotina mudara. Os deveres de casa quase não lhe eram mais cobrados. Mês seguinte, o bebê da tia Clara nasceu e só ele não foi conhecê-lo. Dois meses depois, a rotina do menino mudou definitivamente. Em vez de escola, hospital. No lugar dos deveres, aqueles tubos, e injeções e comprimidos. E a enfermeira Regina, de sorriso azul e dourado, substituiu de vez a professora Vera, que tomava as lições com uma cantilena meio monótona meio estridente.

O pai de Julinho levou-o ao barbeiro e mandou que o homem passasse a máquina zero na cabeça do filho. Havia dado peste de piolho na escola no prédio no bairro na cidade no mundo. Julinho ganhou um boné novo, azul-marinho e vermelho, que ele usava com a aba virada para trás.

Pai, vamos fazer uma pipa? Só se for do Vasco. Julinho condescendeu. Havia sobrado muita seda preta e branca. Uns retalhos vermelhos completaram a cruz intrépida de Vasco da Gama. Cortaram tudo com a tesourinha que a mãe mandara afiar no chaveiro da esquina.

A ficha começou a cair certo dia em que Julinho viu o pai, de raiva, dar um chute com toda força na bola. A bola atravessou o ar e espatifou o bibelô de porcelana que enfeitava a estante da mãe, do outro lado da sala. Julinho olhou para a mãe, que acabara de entrar. E viu-lhe os lábios muito colados, os olhos imensamente abertos e marejados. Enxugando umas lágrimas furtivas com as pontas dos dedos, a mãe de Julinho retirou-se, sem palavras, e foi trancar-se no quarto. O pai ia saindo, apressado, quando Julinho segurou-o. Pai? O homem voltou-se, sem chão. Eu vou morrer, pai? O pai de Julinho, quarenta anos recém completados, caiu num choro estrangulado que parecia não ter fim. Foi Julinho quem o consolou, com as mesmas palavras que ouvia de Regina, a enfermeira de sorriso azul dourado:

Seja forte garoto, seja forte.

 

***

 

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pirâmide

Isabel Pires

Isso aqui tá uma chatice. E tenho a piramidal ideia de ir visitar o anão verde, que me olha antigo e sorri para mim cor-de-vômito. E os seus dentes são amarelos, pontiagudos, e têm alguma coisa de errado que eu não consigo captar o que seja. Mas é tremendo o esforço que a gente faz para viver, aguentando os engulhos que nos sobem à garganta e lá ficam entalados. A gente acaba calejando e, por isso, a visão do anão verde sorrateiro e sorridente já não nos provoca mais nenhuma emoção. Distraio a atenção dele. Mas o anão verde percebe e bate palminhas, tentando me capturar. 

Foi assim quando ele bateu na porta e eu pensei que era o anão verde, insistindo em me perseguir. Mas era um rapaz alto, muito alto, e todo dourado. Sorriu para mim cor-de-alegria e tão delicadamente que eu quase chorei de verdade. E de repente eu e ele, o moço dourado, a gente tava sentado nas almofadas da sala, vendo desenho na tevê e tomando chocolate quente, pois estava muito frio e dias frios são próprios para isso. 

Pois aí, minha panterinha começou a rosnar e assustou o moço dourado que se pôs de pé rapidinho e foi embora, sem dizer a que veio. O dia estava muito frio, mas minha pantera negra precisava tomar banho e eu fui banhá-la, depois que o moço dourado foi embora. Esfreguei bastante xampu cremoso e brilhante no pelo dela, e o pelo negro dela ficou cremoso e brilhante, mas com um cheiro assim meio esquisito, que não sei não. Acho que vou trocar a marca do xampu. 

Mas é tudo tão simples e natural, que até aquele rapaz do apartamento em cima do meu achou que era mais fácil sair para a rua pulando da janela do que descendo pelo elevador ou mesmo pelas escadas. Acho que ele esqueceu das outras janelas debaixo da janela dele. Mas não tem importância, lá embaixo já está tudo limpo. O novo síndico é realmente muito zeloso. 

O cheiro de dama-da-noite estava no ar e era uma noite quente de verão. Tão quente, que as pessoas nas ruas tinham o cuidado para não se esbarrarem, confundindo os seus suores e os seus sonhos pegajosos de tão libidinosos nessa noite quente e cheirando a dama-da-noite. Mas isso é outra história, nessa aqui é tudo limpo e asseado. 

E por isso eu não conto o que estava escrito atrás da porta do banheiro sobre Deus. Quer dizer, estava escrito sobre Deus atrás da porta do banheiro, sei lá. Os crentes iam se escandalizar. Os católicos, não. Há muito tempo que eles não mais se escandalizam. Mas eu não conto, não conto, não conto. 

E ele soprou – eu já disse que ele tinha soprado? Pois soprou toda a cinza do cinzeiro e a cinza ficou espalhada, sentida de fazer dó. E depois alguém pisou por todo o lugar e não mais se podia distinguir a cinza amassada, apenas na sola dos sapatos de quem a amassou. Mas quem mesmo fez isso? 

O sorvete começou a derreter e começou a ficar sem graça e sem açúcar e sem nada. E eu comecei a ficar triste por causa disto e comecei a pensar numa ideia piramidal, mas tinha muito tempo que todas minhas ideias piramidais tinham me abandonado, e a única ideiazinha mais ou menos que tive foi ligar para ele. Mas o telefone deu “fora de área ou desligado. Tente mais tarde”. Aí, quando a gente senta e fica séria, começa a dar rugas no nosso rosto e começam a dizer que o tempo está marcando a nossa cara. Mas não é o tempo, e sim o vento, a água, o sabão que a gente usa. E o batom, a sombra, a máscara. Quando me dei conta, a solução era pegar carona numa nuvem e sair por aí, por cima dos mares do sul. Mas não tinha nuvem no céu, nem mesmo um fiapozinho.