Isabel Pires
Embora seja dia “útil”, o noticiário da televisão mostra as
praias da Cidade Maravilhosa “bombando” sob o sol de 40 graus, repletas de
banhistas, surfistas, turistas... Desde que o sol nasce até quando se põe –
mais de doze horas de sol. A televisão noticia que alguns sequer vão para casa,
ficam por ali mesmo, se refrescando à beira d’água.
Os termômetros implacáveis, o sol dominando todo o céu – nem um
fiapo de nuvem ousa disputar a primazia do astro-rei. E me surge, não sei de
onde, uma inveja danada de quem pode aproveitar a praia num dia como este. Num
dia como este, por exemplo, os “istas” das praias não precisam enfrentar o
trânsito infernal, onde o calor parece redobrar de tamanho, principalmente
dentro dos ônibus lotados.
Consulto o relógio: treze horas e quarenta e cinco minutos de
uma tarde de verão intenso no Rio de Janeiro. Tudo parado na Avenida
Presidente Vargas, em direção à Zona Sul. O que terá havido? Acidente? Passeata
na Avenida Rio Branco? Uma coisa, porém, é certa: vou me atrasar. Ah! A
praia... Meio que devaneio de olhos bem abertos, protegidos por óculos escuros.
E penso em anotar na lista de itens a comprar mais um: filtro solar. Fator cinquenta,
talvez.
O ônibus finalmente dá um arranco e começa a se mover, embora
lentamente. Estamos próximos da Central, a temida Central do Brasil, onde os
pivetes batem livremente celulares, correntinhas de ouro, carteiras, enfim,
tudo o que puderem. Os mais ousados levam até bolsas e mochilas, deixando a vítima
desesperada e atônita. Todo cuidado é pouco. Os ônibus param, no ponto ou no
sinal, e lá vem o ataque repentino: as mãos hábeis penetram pelas janelas e
saem fugindo a todo vapor. Parecem ter asas nos pés. Nada os detém.
Dou uma conferida na rua, enquanto o ônibus encosta junto ao
meio-fio para embarque e desembarque de passageiros. E subitamente, antes que
alguém perceba o que está de fato acontecendo, eles entram por todos os lados:
pelas portas dianteira e traseira, pelas janelas. São muitos, entre sete e quinze
anos. A maioria apenas de bermuda, alguns de short e camiseta sem manga.
Imediatamente começa uma debandada entre os passageiros
que, assustados e aflitos, correm para a porta e vão saindo aos trambolhões,
sem olhar para trás. Eu fico inerte. O lugar onde estou é próximo à roleta, bem
distante da porta de saída. Pelo retrovisor, posso ver o rosto do motorista, e
percebo que seus olhos acompanham, pelos espelhos, o movimento dos pivetes no
interior do ônibus. Mas suas mãos estão presas ao volante, e ele nada pode
fazer.
Não sei se tiro ou não os óculos. Acho melhor ficar bem quieta,
fingindo indiferença. Ou devo fingir que estou dormindo?
Abro a bolsa (devo estar louca), vasculhando uma caneta. Pego um
pedaço de papel e começo a rabiscar alguma coisa, apenas para espantar o
nervosismo. Em seguida, lembro dos papéis guardados no envelope que trago
comigo. Uma cópia de uma lei que preciso estudar. Puxo a tal lei e enfio a cara
dentro do papel, quando de repente sinto um toque no meu cotovelo.
— Moça!
— O que é?!
Ele me encara, um pingo de gente. Deve ter uns oito anos, se
muito. De bermudas e chinelos de borracha bem gastos, aquela criaturinha
parece, na verdade, desamparada diante de mim. Os olhos grandes e vivos me
encaram. E a pergunta:
— Esse ônibus passa em Copacabana?