segunda-feira, 7 de julho de 2025

A caminho de Copacabana

 Isabel Pires

Embora seja dia “útil”, o noticiário da televisão mostra as praias da Cidade Maravilhosa “bombando” sob o sol de 40 graus, repletas de banhistas, surfistas, turistas... Desde que o sol nasce até quando se põe – mais de doze horas de sol. A televisão noticia que alguns sequer vão para casa, ficam por ali mesmo, se refrescando à beira d’água.

Os termômetros implacáveis, o sol dominando todo o céu – nem um fiapo de nuvem ousa disputar a primazia do astro-rei. E me surge, não sei de onde, uma inveja danada de quem pode aproveitar a praia num dia como este. Num dia como este, por exemplo, os “istas” das praias não precisam enfrentar o trânsito infernal, onde o calor parece redobrar de tamanho, principalmente dentro dos ônibus lotados.

Consulto o relógio: treze horas e quarenta e cinco minutos de uma tarde de verão intenso no Rio de Janeiro. Tudo parado na Avenida Presidente Vargas, em direção à Zona Sul. O que terá havido? Acidente? Passeata na Avenida Rio Branco? Uma coisa, porém, é certa: vou me atrasar. Ah! A praia... Meio que devaneio de olhos bem abertos, protegidos por óculos escuros. E penso em anotar na lista de itens a comprar mais um: filtro solar. Fator cinquenta, talvez.

O ônibus finalmente dá um arranco e começa a se mover, embora lentamente. Estamos próximos da Central, a temida Central do Brasil, onde os pivetes batem livremente celulares, correntinhas de ouro, carteiras, enfim, tudo o que puderem. Os mais ousados levam até bolsas e mochilas, deixando a vítima desesperada e atônita. Todo cuidado é pouco. Os ônibus param, no ponto ou no sinal, e lá vem o ataque repentino: as mãos hábeis penetram pelas janelas e saem fugindo a todo vapor. Parecem ter asas nos pés. Nada os detém.

Dou uma conferida na rua, enquanto o ônibus encosta junto ao meio-fio para embarque e desembarque de passageiros. E subitamente, antes que alguém perceba o que está de fato acontecendo, eles entram por todos os lados: pelas portas dianteira e traseira, pelas janelas. São muitos, entre sete e quinze anos. A maioria apenas de bermuda, alguns de short e camiseta sem manga.

Imediatamente começa uma debandada entre os passageiros que, assustados e aflitos, correm para a porta e vão saindo aos trambolhões, sem olhar para trás. Eu fico inerte. O lugar onde estou é próximo à roleta, bem distante da porta de saída. Pelo retrovisor, posso ver o rosto do motorista, e percebo que seus olhos acompanham, pelos espelhos, o movimento dos pivetes no interior do ônibus. Mas suas mãos estão presas ao volante, e ele nada pode fazer. 

Não sei se tiro ou não os óculos. Acho melhor ficar bem quieta, fingindo indiferença. Ou devo fingir que estou dormindo?

Abro a bolsa (devo estar louca), vasculhando uma caneta. Pego um pedaço de papel e começo a rabiscar alguma coisa, apenas para espantar o nervosismo. Em seguida, lembro dos papéis guardados no envelope que trago comigo. Uma cópia de uma lei que preciso estudar. Puxo a tal lei e enfio a cara dentro do papel, quando de repente sinto um toque no meu cotovelo.

— Moça!

— O que é?!

Ele me encara, um pingo de gente. Deve ter uns oito anos, se muito. De bermudas e chinelos de borracha bem gastos, aquela criaturinha parece, na verdade, desamparada diante de mim. Os olhos grandes e vivos me encaram. E a pergunta:

 — Esse ônibus passa em Copacabana?

***

Os tijucanos

Isabel Pires

 

Passava das três da tarde quando a família, vinda da Tijuca, chegou à praia, lotada, do Arpoador. Barracas e cadeiras de lona plástica disputando os mínimos espaços nas areias congestionadas. Àquela hora, ninguém parecia querer arredar pé dali: verdadeiros “ratos de praia”, chegaram cedo e não pretendiam sair antes que os últimos raios de sol se enterrassem lá para os lados do Dois Irmãos.

O mais novo da família recém-chegada às areias, cinco anos incompletos, partiu em direção à água, enquanto a matrona desabava seus 80 anos de praia na cadeira sob a barraca.  

Verão praticamente sem chuvas no Rio, para a felicidade de mineiros, paulistas, argentinos e cariocas. Há muito tempo não se via uma estiagem tão prolongada, um Rio tão 40 graus como nesse verão. Aqui e acolá, uma mãe de biquíni com as mãos na cabeça, a incerteza corroendo a consciência: o filho (ou filha) perdeu-se? Afogou-se? Foi sequestrado(a)?! E de repente, para alívio geral, a criança é encontrada. Indiferente, o menino, ou menina, não parece compreender a agitação à sua volta, as lágrimas da mãe, as recriminações e felicitações dos banhistas. Não entende nem mesmo o picolé, que ganha como uma espécie de prêmio. E todos voltam à monotonia das barracas, um ou outro fiapo de conversa rolando solto no vento.  

Era por volta de quatro da tarde quando o rapaz muito branco, barba por fazer, perguntou à matriarca da família tijucana, que descansava sob a barraca azul, se poderia deixar ali suas coisas, enquanto dava um mergulho. “É só um instante. Vocês já estão indo?”.

— Pode ir, filho. Não se apresse. Não vamos sair daqui agora.  

O moço deixou as coisas aos pés da matriarca: bermuda e camiseta enroladas e, entre elas, visíveis, o celular e a carteira com os documentos. Também havia o par de chinelos, que uma das filhas recolheu para debaixo da cadeira. “Melhor colocar tudo aqui embaixo. Vai que tem arrastão!”.

— Não estão mesmo indo?, certificou-se ele.

 — Não. Também acabamos de chegar, disse, com ar cúmplice, a outra filha, saboreando sua cerveja gelada.

E ficaram, mãe e filhas, especulando um pouco de onde o moço seria, até que se esqueceram dele por completo.

O genro chegou, no mesmo instante em que o rapaz, já menos branco, retornava da água. “Será que vocês poderiam olhar minhas coisas só mais um pouco?”.

— Fique à vontade, reafirmou a matriarca, enquanto o rapaz, agradecendo muito, zarpava em direção ao mar.

Os preços na praia estavam “surreais”, a nova moeda desse verão, mas nem por isso os ambulantes dos isopores de latinhas de bebidas eram menos requisitados. Surreal também era a água do mar, geladíssima, sob um sol de 40 graus. Efeito, talvez, do aquecimento global. Quem sabe,  as calotas polares, em processo de derretimento, enviassem suas águas geladas para a orla carioca? O fato é que os banhistas que se aventuravam no mergulho deviam se sentir como uma lata de cerveja boiando dentro de um isopor cheio de gelo.

Foi quando o pai e o filho mais velho foram mergulhar que a ventania começou, ameaçando levar a barraca que a senhora, com seus 80 anos de idade, agarrava vigorosamente. Uma das filhas ajudou a fechá-la. Em volta, muitos acompanharam o movimento e, em pouco, a praia era um deserto de barracas fechadas.

O garoto, ao retornar da água com o pai, não aprovou a ideia: “O cara vai se perder, se a gente fechar a barraca”.

— Cara? Que cara?!

— É mesmo! O cara do mergulho. Vocês o viram na água?

A família já preocupada, imaginando o pior: “Será que ele se afogou?”.

— Que nada, foi só dar uma volta. Daqui a pouco ele vem.

Reabriram a barraca. E nada do moço aparecer. 

Quem apareceu, majestoso, foi o pôr do sol, paralisando a todos para uma justa reverência. Já começava a escurecer. E a família toda postada em volta do celular do moço, à espera de uma chamada que nunca vinha.

Que fazer: ir embora ou esperar mais um pouco? 

— Vamos levar as coisas. Com certeza, ele vai fazer contato, vai ligar para o próprio celular.

Já estavam enrolando a barraca e fechando as cadeiras, decididos, quando o filho apontou, há alguns metros atrás deles: “Olha, pai”. 

Era o moço? Seria? Barba por fazer, sunga preta... Mas tão moreno, que não parecia ser ele. Em dúvida, pai e filho se aproximaram. 

— Desculpe, mas... por acaso... você está procurando suas coisas? Documentos, roupas...

O rapaz, cheio de culpa: “Gente, desculpa fazer vocês esperarem tanto. Mas é que o pôr do sol...”.

— Tudo bem, está tudo bem. A gente sabia que ia te encontrar.

— Cheguei a pensar que vocês já tinham ido.

— É, a gente estava indo mesmo.

— Mas suas coisas estavam seguras. 

— Você ia fazer contato, não ia?

— Pessoal, nem sei como agradecer.

— Esquece. Deixa pra lá.

 Afinal, era verão. Turistas no Rio. E o pôr do sol no Arpoador.

Uma das filhas resolveu perguntar: “De onde você é mesmo?”. 

E o rapaz, enquanto calçava os chinelos: “Da Tijuca”.

 

***