domingo, 21 de junho de 2026

A hora da estrela de Mademoiselle Charlotte

 Isabel Pires

 

A revolução francesa me fascinou de repente. Digo, a Revolução Francesa me fascinou de repente. E foi quando resolvi escrever sobre a realidade dessa revolução. Qualquer que seja o que quer dizer “realidade” “dessa” “revolução”. O que narrarei, como mulher? – já que essa realidade me ultrapassa? Escreveria com lágrimas sobre barões guilhotinados e meninos amotinados? Pelo menos, o que escrevo não pede favor a ninguém – talvez implore algum socorro aos mortos. Foi quando Marat – não a Revolução – me fascinou de repente. Ou seria ele a própria Revolução? Eu ia dizer que resolvi escrever sobre Marat? Mas Marat foi morto por uma mulher, o que me faria escrever não sobre ele, o conteúdo, mas sobre ela, que era pura forma. E por que eu escreveria sobre ela? Antes de tudo porque captei o apelo dela e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da Liberdade, nem da Fraternidade. Sequer por causa da Igualdade. Escrevo por motivo grave “de força maior”, como dizem os requerimentos oficiais, ou por “força de lei”. (O apelo da francesa já começa a me contaminar?). Não, não é fácil escrever sobre revoluções. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como espelhos despedaçados. Ah que medo de começar, mesmo já sabendo o nome da moça: mademoiselle Charlotte de Corday. Sem falar que a história me desespera por simples demais. O que me proponho contar parece fácil: está nos livros de História e à mão de todos os mouses. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que já está quase apagado, soterrado sob o pó de uma História tantas vezes (mal) contada. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível da própria História. Mas por enquanto não é confortável: para falar da moça tenho que imaginar Marat sem fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, ele, que era um revolucionário. Além de vestir-se com roupa velha rasgada. Tudo isso para impressionar a moça. Sabendo no entanto que talvez fosse melhor se apresentar de modo mais convincente a essa francesa que muito reclama de quem está neste instante mesmo mergulhado em um banho regenerador. (Quando penso que eu poderia ter nascido ela – e por que não? – estremeço. E parece-me covarde fuga de eu não ser – sinto culpa por não ter sido eu a matar Marat?). Estou procurando danadamente achar na existência de Charlotte pelo menos um topázio de esplendor. Até o fim talvez o vislumbre, ainda não sei, mas tenho esperança. (Mas não – ela pegou a faca). Marat: — Para desdenhar da moça tenho que me domar e para poder captá-la tenho que degustar frutas importadas e beber vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver a Revolução. Também tive que me abster de sexo e de filosofias. Sem falar que não tenho mais contato com ninguém. (Todos se assustam com minha pele sem cor?) Voltarei algum dia à minha vida anterior? Duvido muito. Vejo agora que esqueci de dizer que por enquanto nada leio nem escrevo para não me contaminar com falsos luxos intelectuais. Pois, como eu disse, a Revolução tem que se parecer com a revolução, instrumento meu. Ou não sou um revolucionário? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de encenação, obrigo o respirar plebeu a me acompanhar nesse difícil entrecho. Charlotte: — Tudo isso acontece no ano este que passa e só acabarei esta história difícil quando eu ficar exausta da luta, não sou uma desertora. Com fúrias de desenvoltura estou usando a palavra já escrita e isso estremece em mim que fico com medo de me afastar da Verdade e cair no abismo povoado de gritos por demais iguais: o inferno da minha liberdade. Mas continuarei. O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que li sobre a Revolução que jogaram no lixo, para o meu desespero, de Marat e de Charlotte – e que os mortos me ajudem a suportar o quase insuportável, já que de nada me valem os burgueses vivos, ainda que de fato alguns nobres tenham sido degolados. Nem de longe conseguiram igualar a tentativa de repetição artificial dessa Revolução, nem mesmo como farsa. E quem sabe o que originalmente se passou no encontro de Charlotte com o revolucionário? É com humildade que contarei agora a história da História. Portanto se me perguntarem como foi direi: não sei, perdi o encontro. Marat, de novo: — E eis que fiquei agora receoso dessa francesa. E a pergunta é: como luto? Verifico que luto de ouvido assim como aprendi inglês e espanhol de ouvido. Antecedentes do meu lutar? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando luto não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média me vê com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim. Mas um dia certamente me reverenciará. Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas aí que está: Charlotte não tinha nenhuma técnica, nem estilo, ela era ao deus-dará. Eu que também não mancharia por nada deste mundo com palavras de plágio o ato extremamente simples dessa francesa. Durante o dia eu faço, como Charlotte, gestos despercebidos por mim mesma. Pois foi dela um dos gestos mais despercebidos nesta História de que não tenho culpa e que saiu como saiu. A francesa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Acho que julgava ter direitos legalizados, ela, que era apenas um acaso, feita de fatos de que não tratam os jornais. Houve milhares como ela? Sim, havia. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque gostaria de escrever sobre este ato que um dia foi um fato. É quando entro em contato com forças revolucionárias minhas, encontro através de mim o vosso Deus revolucionário. Marat? Marx? Babeuf? Para qual deles escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço estar numa galáxia longínqua e estranha dentro de mim mesma. Sou eu? Espanto-me com o meu próprio encontro. (Charlotte me incomoda tanto que fiquei oca. Estou oca desta moça. E ela tanto mais me incomoda quanto menos reclama de sua missão. Estou com raiva. Uma cólera de derrubar copos e quebrar vidraças. Como vingar Marat? Ou melhor, como compensá-lo? Já sei: amando meu cão, que não será guilhotinado como a moça. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela é doce e obediente). A submissão. E agora – agora nem um cigarro posso mais acender – não sobraram espaços possíveis (talvez, os virtuais?) em que ninguém incomode quem fume. Vou para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?! Não esquecer que houve um tempo em que todos os morangos mofaram. Sim.

 

(Escrito e plagiado sobre texto de Clarice Lispector, em A hora da estrela)

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Os mar

Isabel Pires

Pensando bem, até que não está tão ruim assim, pensou ela, a caminho da pracinha com o filho. O garoto ia ao seu lado, em passos um pouco hesitantes, embora pudesse caminhar perfeitamente bem. O problema eram os braços: ambos quebrados e engessados. Levara uma queda da árvore do pátio da escola, a qual escalara na hora do recreio. Havia apostado com os colegas da quarta série quem subia mais alto. Ele ganhara a aposta, mas...

“Mas podia ter sido bem pior”, ponderou ela, dando-se por satisfeita que o menino não tivesse quebrado, em vez dos braços, as pernas. Ou, quem sabe, as pernas e os braços, com o risco de ficar até paraplégico. “Deus me livre!”, pensou em voz baixa, enquanto refletia que aquele momento catastrófico tinha um lado bom, afinal. Podia passar mais tempo com o filho, e isso compensava alguma coisa.

O médico recomendara o afastamento das atividades escolares por pelo menos um mês. E também banho de sol todos os dias pela manhã. “Para ajudar na regeneração óssea”, dissera o ortopedista.

Finalmente chegaram à pracinha, àquele horário, completamente lotada. Ela procurou um banco vazio. Deu alguns passos em direção ao centro da praça, apinhado de crianças que disputavam os balanços. Próximo a estes, havia um banco de cimento relativamente desocupado. Desistiu, porém, temerosa de que alguma criança esbarrasse com balanço e tudo nos braços engessados do filho.

Foi quando se deparou com uma cara familiar. Sim, era um senhor, vizinho de prédio, morador do apartamento da cobertura. Conhecia-o apenas de vista mas com certeza era ele. Estava acompanhado de um cuidador e usava uma cadeira de rodas. Ele também a reconheceu. Acenou para ela e o filho, chamando-os. E então mostrou um banco com um lugar bem atrás da cadeira de rodas. Só havia um lugar, mas apertando um pouco, caberia os dois, ela e o menino.

Ela sorriu agradecida. Problema resolvido. Naquele banco, o menino poderia tranquilamente tomar a sua dose de sol receitada pelo ortopedista. E ela poderia aproveitar para ler o livro que levara e que já começava a abrir na página em que parara, assinalada por um marcador de página artesanal, de madeira, gravado com as suas iniciais. Presente do marido, quando ela resolvera retomar o curso de História, seis meses antes.

Como foi isso?, quis saber o vizinho, a respeito dos braços engessados do garoto. Ao se inteirar da aposta da árvore, soltou uma gargalhada. “Quem sabe, montamos um time de futebol, hein? Eu de centroavante, você de goleiro. O que acha?”. E piscou cúmplice para o menino.

Perguntou o nome do filho, o nome da mãe. E se apresentou: “Sou o Osmar”. E engrossando a voz, meio cantarolando: “Os mar que não é os oceanos!”. E ria, a bandeiras despregadas, como diria o seu pai, se vivo fosse. Mãe e filho se entreolharam, e também caíram na risada. Então ele apresentou o cuidador que o acompanhava: “Esse aqui é o Divino”. Mãe e filho já prestes a rirem, pensando que se tratava de mais uma piada do seu Osmar. Não era. O homem chamava-se mesmo Divino. José Divino. E era de poucas palavras. Quase não falava. Mas ria muito das piadas bobas e inofensivas do patrão.

“Moro no décimo segundo andar, isto é...”. “O senhor mora na cobertura, não é?”, perguntou o menino. “Moro lá desde que o prédio foi construído, isso há mais de cinquenta anos. Você nem sonhava em nascer... Aliás, nem sua mãe! Me casei e fui para lá”. “O senhor tem filhos?”, perguntou a mãe do menino. “Tive três”, ele disse, e contou que os filhos – dois homens e uma mulher – moravam no estrangeiro, raramente vindo ao Brasil. Sua mulher morrera havia oito anos. E ele agora morava sozinho no apartamento da cobertura, com jardim e piscina e área para churrasco e mesas de jogos. Tinha até totó, da época em que os filhos eram adolescentes e levavam os amigos lá. Mas ele preferia sair, ir à praça, ver gente. Conversar.

A mãe consultou o relógio e constatou que levou mais do que a meia hora recomendada pelo médico. Percebeu também que não lera o livro. Nem sequer o abrira. “As horas voam, não é seu Osmar?”. Ele assentiu vigorosamente com a cabeça, “Sim, sim, é verdade, as horas voam”. “Preciso ir. Até logo”. “Mas já? Por que não ficam mais um pouco?”.

“Os mar que não são os oceanos!”, repetia o garoto, no caminho de volta para casa, cantarolando e imitando o seu Osmar. E caía na risada. A mãe tentava conter o riso, mas não resistia e acabava se rindo também. Mas ao chegarem próximo à portaria do prédio, a mulher, séria, falou para o filho parar com aquilo.

No dia seguinte, na pracinha, mãe e filho depararam-se novamente com seu Osmar, que acenava insistentemente para eles. Defendia com unhas e dentes e cadeira de rodas um lugar no banco para ela e o filho. Ela sorriu, satisfeita. A pracinha, como sempre, lotada. Mãe e filho instalados, seu Osmar entabulou a conversação. Desta vez, falou sobre o filho médico, o mais velho, que havia ido para Nova Iorque especializar-se, tão logo se formou, há vinte e cinco anos atrás, e nunca mais retornara ao Brasil, a não ser em viagens esporádicas, sempre apressadas. Ou em casos de muita necessidade, como no falecimento da mãe. Chamava-se Osmar, como o pai. E era ortopedista. Ao ouvir esta palavra, o garoto abriu bem os olhos, atento. Seu Osmar sorria, orgulhoso. “Pois é, quem sabe ele vem por aqui, e dá um jeito nesses seus braços, hein?! E também nessas minhas pernas!”. E gargalhava a sua gargalhada singular, contente com o encontro imaginário entre esse médico e esse paciente.  

No terceiro dia, lá estava o seu Osmar, defendendo incansavelmente um lugar ao sol para a mãe e o filho. E nos dias que se seguiram também. Às vezes, o seu Osmar pagava uma água de coco para eles. “Não precisava! Agradeça a seu Osmar, filho”, dizia a mãe, meio sem jeito. E bebiam, contentes, a água de coco bem gelada, que o José Divino ia buscar na barraquinha da moça dos cocos, mais adiante. Quando seu Osmar não aparecia na pracinha, mãe e filho sentiam a sua falta, ficavam até preocupados. Num desses dias, na volta, perguntaram ao porteiro se ele tinha notícias do seu Osmar. “Seu Osmar? Osmar de onde?”. “Seu Osmar, da cobertura”. “Ah, sim, foi a uma consulta médica com o Divino”, informou ele, estranhando um pouco a pergunta. O porteiro, que já estava naquela portaria havia pelo menos uns dez anos, não fazia ideia de que os moradores do 308, que haviam se mudado há pouco, conheciam o seu Osmar.

 Em outra ocasião, na pracinha, seu Osmar contou sobre a filha advogada, que se casara com um argentino que conhecera na praia. A filha, Lídia, a segunda dos filhos de seu Osmar, morava na Argentina e tinha três filhos – dois meninos e uma menina, tal como seu Osmar, com a diferença que a filha era a caçula dos irmãos. “Eles costumam vir para o Natal, mas tem ano que não dá. Sabe como é, época de férias... E tem vezes que querem viajar para outros lugares também”, explicou o homem.

Era meados de setembro e fazia muito calor, prenunciando o que seria o alto verão dos meses vindouros de dezembro, janeiro e fevereiro. O garoto, após mais uma visita ao ortopedista, retirou o gesso dos braços e voltou à rotina de escola e atividades extracurriculares. A mãe, por seu turno, retornou aos seus afazeres de dona de casa, secretária num escritório de contabilidade e estudante universitária, acumulando jornadas e estresses. Nem se lembraram mais do seu “Os mar que não era os oceanos”.

No saguão do terceiro andar, à espera do elevador, ela se impacientava, sentindo a maquiagem escorregar pelo rosto, naquele dia de verão escaldante. Era dezembro. Olhou para o visor: o elevador, parado no décimo segundo andar. O outro, em eterna manutenção. E o de serviço, ocupado com uma mudança. Era só o que faltava! Já estava atrasada, mas não queria descer as escadas, para não chegar ao seu destino – o escritório de contabilidade – completamente suada. Além do mais, estava de salto alto. À noitinha, haveria um happy hour no trabalho, em comemoração ao Natal que se aproximava e por isso ela caprichara um pouco mais no visual: salto alto, maquiagem. Um vestido que só usara uma vez, no aniversário de uma amiga, no verão passado, lembrava-se. Não, esperaria mais.

O elevador desceu lentamente, parando em vários andares. Finalmente chegou ao terceiro andar. Lotado. Havia uma imensa cadeira de rodas ocupando quase todo o espaço, e o que sobrava era disputado por mais umas quatro ou cinco pessoas. Então ela reparou bem: o homem na cadeira de rodas não era mesmo o seu Osmar? Mas cadê o Divino? Em vez do cuidador, uma desconhecida parecia acompanhá-lo. E havia uma garota, aparentando uns quinze anos de idade, bem junto à cadeira do seu Osmar.

– Bom dia! Tudo bem? Como o senhor está? – ela disse e sorriu para seu Osmar, esquecendo por instantes o rímel que ameaçava escorrer dos cílios, o batom que se desmanchava nos lábios.

– Como o senhor está?! Tudo bem?! É só isso o que tem pra me dizer? – retrucou um seu Osmar furioso e agressivo. Em poucos segundos, sua cara inchou, vermelha. No pescoço, a veia parecia querer saltar. Levantou um braço, indignado e ameaçador.

A porta do elevador se abriu. Haviam chegado ao térreo. As pessoas em volta da cadeira de rodas foram se atirando para fora. Ficou seu Osmar, sua acompanhante, a garota e ela, completamente paralisada, sem saber que dissesse, mas querendo dizer algo. “O senhor desculpe, é que...”, ensaiou.

– Desculpe meu pai – atalhou a acompanhante do seu Osmar. – Ele está com Alzheimer, não sabe o que diz. Imagine! Destratar uma estranha assim dessa maneira!

Empurrou a cadeira com seu Osmar para fora do elevador enquanto chamava a garota. “Vamos, filha”. Lídia olhou ainda uma vez mais para a mulher, que parecia derretida à sua frente. E pediu, com humildade:

– Desculpe, por favor, sim? Peço que entenda. Meu pai não fez por mal...

 

*** 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Cidade de Papel

Isabel Pires


Quando finalmente abriu, com alguma dificuldade, por causa do braço dolorido, a persiana meio empoeirada do pequeno escritório, ele percebeu um tanto agastado que perdera muito tempo aquele dia com o trabalho, embora soubesse que pouca coisa de fato tivesse produzido, limitando-se a revisar o texto já bastante revisado. No céu de verão, os últimos raios de sol se esbatiam contra fiapos de nuvens douradas, dispersas pelo azul como cabelos revoltos de um anjo desleixado.

Suspensa por trás do vidro hermeticamente fechado, a cidade parecia de papel. Um imenso cartão-postal feito de suor, sangue, areia e pedra. Montanha e praia produzindo um calor de mil diabos. O ar condicionado, porém, acalmava o medo e a solidão que passeavam nas ruas apinhadas de gente lá embaixo.

Bruscamente, ele deixou a janela. Atirou-se à poltrona reservada às poucas visitas, a olhar vazio para as prateleiras cobertas de livros e revistas especializadas. Muitos desses livros e revistas continham os artigos que escrevera, debruçando-se infinitamente sobre outros livros e revistas, fabricando eternos palimpsestos, preso em um círculo vicioso, gastando enormes pedaços de um tempo que agora, sabia, não podia mais dispor. Projetos pessoais adiados, desejos eternamente insatisfeitos em troca do seu nome impresso ou de um convite para alguma palestra. Pressentiu assim sua vida: uma tela com grandes claros, inacabada. Sempre por retocar. Uma infinidade de simpósios, palestras, seminários. Saguões de aeroportos e noites mal dormidas. O estresse das comissárias de bordo contido todo naquela rede que segura, corretamente penteados, os cabelos: “O senhor? Vai beber o quê?”. “Não, senhor, não temos uísque. Uísque não temos, senhor.

Mais adiante, seu olhar esbarrou no arranjo de flores desidratado e brega, herança do antigo ocupante da sala, pendurado próximo à janela. Já perdera a conta das vezes que pedira à moça da limpeza para tirar aquilo de lá, mas, por trás daquele largo sorriso de dentes muito alvos, Rose – era o nome dela – parecia não escutá-lo.

Consultando o relógio de pulso, ele constatou que a sessão de radioterapia daquele dia estava perdida. Deu de ombros, com a mão espalmada no bolso da camisa, no gesto de pegar os cigarros. Lembrou, porém, que desde que o médico lhe diagnosticara o câncer de próstata, que também o aconselhara a parar de fumar. Começara com uma dor discreta nas costas, na altura dos rins, que ele ia adiando dia a dia para “ver depois”. Até que o incômodo estendera-se para os ombros, limitando-lhe drasticamente os movimentos.

A porta abriu-se de repente. Era Rose, armada de vassoura e pá. “Dá licença, doutor?”. Rose esfregava a flanela encharcada de óleo de lustrar móveis na mesa já quase sem verniz, nas prateleiras descarnadas, e ia puxando conversa. Bastava ele perguntar “tudo bem, Rose?”, que um botão automático, do tipo “aperte o play”, disparava uma metralhadora falante. Outras vezes, porém, ela se fechava em copas, apesar do sorriso claro sempre aberto, e o play simplesmente não funcionava.

Enquanto Rose ainda recolhia o lixo, ele, um pouco agastado com o cheiro do óleo de peroba, dirigiu-se à mesa de trabalho, retirando de dentro da velha pasta de couro preto as laudas do artigo, presas por um clipe. De testa franzida, passeou por instantes os olhos pelo trabalho impresso, sentindo necessidade de revisá-lo mais uma vez. Por fim, juntou novamente as laudas e devolveu-as à pasta, inúteis. Ligou o computador. Iria revisar o trabalho na tela mesmo, decidira.

Logo no primeiro dia, ela contou: tinha dois filhos, uma menina de sete anos e um menino de quatro. Seu atual marido não era o pai das crianças. Este, Rose perdera, grávida de oito meses. “Maior barrigão”. Estavam quase chegando em casa, ela, o marido e a menina. O assassino vinha em direção contrária. “Um tiro só, doutor”. O menino nasceu sem pai.

Preso por durex na parede atrás da mesa dele, o “mapa do Rio de Janeiro” apresentava uma cidade perfeitamente ordeira, apesar do seu desenho irregular. Uma cidade de papel, onde as sirenes da polícia, das ambulâncias e dos bombeiros não eram, em absoluto, necessárias. Sorte grande viver na Cidade Maravilhosa sem um arranhão.

Vista do alto, a cidade parecia caber na palma da mão, como o mapa dela, preso por durex na parede, cabia inteiro num só olhar. Do alto, encerrado naquela torre de vidro gelada, ele via a cidade como se não tivesse nada a ver com aquelas ruas e avenidas e artérias invadidas de sangue, suor, lágrimas, sorrisos, desespero e alegrias: um cidadão de gabinete. Exceto, talvez, quando saía de casa para trabalhar, atravessando as ruas dentro do carro fechado e refrigerado. De dentro do carro, o rés do chão da Cidade Maravilhosa parecia um tanto cinzento, com seus prédios de concreto e vidro fumê e seus tapetes de asfalto, cortados aqui e ali por algum inesperado canteiro verde, um outdoor colorido, uma copa de árvore retorcida à beira do rio de carros. Aqui e ali, muros pichados aliviavam a pesada paisagem urbana. A massa compacta de gente, essa sim, bem colorida e diversificada contra o fundo quase neutro, atravessando as avenidas como soldados enfileirados.

Relanceou o olhar pela janela e percebeu, com uma raiva impotente de injustiçado, que o ocaso lá fora era passageiro, se renovando sempre, enquanto o seu se tornava cada vez mais irremediável e definitivo. Olhou para Rose: ela falava algo sobre a inveja das vizinhas, o marido carinhoso que ela tinha, e que esse, não, esse ninguém ia lhe tirar. Trabalhador, pai de família, responsável. A metralhadora falante novamente disparada, enquanto, lá fora, o ocaso...

Voltou o olhar para a página virtual que o aguardava à sua frente, impassível. Precisava arranjar um título para o trabalho, mas sabia que suas melhores ideias o haviam abandonado. Balbuciou um título qualquer entre dentes. Depois o repetiu em voz alta, para testar-lhe o efeito. “O que disse?”. Era Rose, tentando estabelecer contato. Mas ele estava longe, não a escutava mais. Decidiu: era esse o título. Digitou as palavras no alto da página virtual à sua frente, quase apaziguado consigo mesmo. Retirou por instantes os olhos da tela fosforescente do computador, buscando mais uma vez a janela, mas esbarrou novamente o olhar no arranjo brega que o tirava do sério há algum tempo.

“Rose”, ele ia falar, mas era sexta-feira. Toda sexta-feira, ele sabia, Rose largava o serviço mais cedo, por causa do pagode, “que disso eu não abro mão”. Rose na soleira da porta, prestes a atravessá-la, levando consigo a vassoura, o espanador, o saco de lixo e a pá. “Rose”, tentou ele, “tira, por favor, esse arranjo...”. Ela nem sequer se virou. “Segunda-feira, de manhã cedo, eu tiro”, ela disse, e se foi.

***

 

domingo, 24 de agosto de 2025

Ler é preciso viver

Isabel Pires

 

Estarei só, bem só em mim, indiferente a todos os balés do mundo. 
O que eu fiz, dou tudo para vocês. 
André Breton

 

Depois que lera Kafka, ele não sabia mais o que fazer com os braços. À noite, não encontrava posição na cama, sentindo-se tão desajeitado quanto o inseto Gregor Samsa. Se dormia de barriga para cima, tinha pesadelos horríveis com um admirável mundo novo que parecia cada vez mais próximo, inexoráveis exércitos de mulheres de cabelo verde e roupa vermelha e roxa marchando sobre seus miolos. Mas foi na estrada para Oz que as coisas começaram a piorar. A imagem daquele homem de lata não saía por nada de sua cabeça. No carro, no metrô ou no ônibus, ele próprio se sentindo mais lata que tais veículos. Por dúvida das vias, como diria um amigo seu, passou a carregar consigo um spray antiferrugem, que guardava dentro da pasta abarrotada de revistas de cultura, suplementos de jornais e um ou outro volume de contos, poemas, romance.

Em casa, os livros não paravam de multiplicar-se na(s) estante(s), desde edições bilíngues, boas e más traduções, línguas estrangeiras diversas, numa biblioteca que, antes de ser babélica tornava-se progressivamente bélica, verdadeiro arsenal em que se encontravam filosofia e literatura, economia, política, antropologia, algum conhecimento de direito e, até, um tratado de paleontologia. Os filhos adolescentes tornavam-se esquivos. Medo de que ele os obrigasse a ler um livro todo final de semana. Deu para emendar ditados. Por exemplo, quando alguém se punha a relembrar fatos, ele invariavelmente comentava: “Como diria Dom Quixote, águas passadas não movem gigantes”. Ao atender o telefone, em vez do clássico “alô”, mandava: “Fala, amendoeira!”. Não perdia um lançamento, sobretudo de revistas especializadas, ele próprio especializado – para terror dos amigos articulistas – em descobrir coincidências entre autores, omissão de citações e plágios diversos. Em suma, tudo aquilo que compõe a emaranhada rede do trabalho intelectual, e que ele, com paciência magistral e muitas horas de leitura, se esmerava em esburacar. Tornara-se assim muito erudito.

Essas e outras miudezas que progressivamente se incorporavam à sua personalidade e ao cotidiano seu e de outros não seriam de modo algum motivo de preocupação maior, não tivesse ele, inadvertidamente, trocado o nome da mulher. Agora, só a chamava de Laura Beatriz e dedicava-lhe sonetos de pé quebrado em súbitos arroubos literários de paixão. Reunidos, os parentes decidiram chamar o Doutor Carlos, médico da família. Ele veio quando o paciente, abajur aceso à cabeceira da cama, preparava-se para mais uma noite de leitura febril.

O jaleco branco do Doutor Carlos era a própria neutralidade e objetividade da Ciência. O cérebro aturdido do outro, em contraste, vazava leituras para todo lado. Entretanto, pós-kafkianos que os dois de fato eram, algum bretonismo, como o halo difuso que vinha do pequeno abajur, se interpunha entre eles. Algo que não era pura ilusão nem a mais concreta realidade. “Sabe por quê vim?”, perguntou o médico. Cabisbaixo, desta vez o paciente parecia desprovido de palavras. Lentamente, levantou os olhos: “Está tudo perdido, não é mesmo?”. “Bem”, começou o Doutor Carlos, mas o outro atalhou a sua fala. “Talvez ainda dê tempo de salvar-lhe a vida”. O médico aguardava. “Imediatamente, senão será tarde demais”. “Sim?”. “Em que página ela está?”. “Não sei ao certo”. “Então corra, pode ser que você encontre o veneno antes dela”. O Doutor Carlos assentiu com a cabeça, e rapidamente deixou o quarto para tentar cumprir sua missão. Afinal, amava muito Emma Bovary.

A sós, ele retirou de debaixo do travesseiro o livro. Das páginas do Quincas Borba, Rubião acenava-lhe um sorriso azul. Mergulhou na leitura, nela naufragando não vencido, não vencedor. Apenas leitor: “Ao leitor, as batatas!”. 

***

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O homem invisível

Isabel Pires

 

Seus olhos cristalinos atravessavam os objetos como querendo arrumar-lhes os sentidos. Tudo metodicamente disposto, sobre a mesa higienicamente arrumada.

Fora, durante boa parte de sua vida, um burocrata numa grande empresa, e tal experiência como que se aderira à sua personalidade, confundindo-se com sua própria pele. Durante esse período, desenvolvera a capacidade de tornar-se invisível. No escritório, chegava sempre cedo, antes dos outros, e tomava seu cafezinho, sem açúcar e sem estardalhaço.

Trabalhava. Sim, trabalhava, embora procurasse não se mover em demasia, tudo bem ao alcance das mãos. Nas suas, é verdade, raras ausências, quase ninguém notava a diferença entre ele estar lá, sentado em sua cadeira almofadada, ou não estar. Não que não fosse grande. Alto, de longos braços e mãos imensas e brancas, quase vermelhas, chamava a atenção quando circulava pelos corredores, em direção ao banheiro ou à copa. Por isto, limitava essas idas e vindas tanto quanto pudesse.

Falava pouco, pausado e em tom sempre moderado. Como conviria a um homem invisível. Talvez não se lembrasse quando começou a desenvolver esta capacidade, nem a partir de que premente necessidade – pois é sempre para satisfazer alguma necessidade que uma determinada técnica é desenvolvida. Mas logo percebeu a vantagem do negócio, e a ele aderiu completa e irrestritamente, ainda que comedidamente. 

***

segunda-feira, 7 de julho de 2025

A caminho de Copacabana

 Isabel Pires

Embora seja dia “útil”, o noticiário da televisão mostra as praias da Cidade Maravilhosa “bombando” sob o sol de 40 graus, repletas de banhistas, surfistas, turistas... Desde que o sol nasce até quando se põe – mais de doze horas de sol. A televisão noticia que alguns sequer vão para casa, ficam por ali mesmo, se refrescando à beira d’água.

Os termômetros implacáveis, o sol dominando todo o céu – nem um fiapo de nuvem ousa disputar a primazia do astro-rei. E me surge, não sei de onde, uma inveja danada de quem pode aproveitar a praia num dia como este. Num dia como este, por exemplo, os “istas” das praias não precisam enfrentar o trânsito infernal, onde o calor parece redobrar de tamanho, principalmente dentro dos ônibus lotados.

Consulto o relógio: treze horas e quarenta e cinco minutos de uma tarde de verão intenso no Rio de Janeiro. Tudo parado na Avenida Presidente Vargas, em direção à Zona Sul. O que terá havido? Acidente? Passeata na Avenida Rio Branco? Uma coisa, porém, é certa: vou me atrasar. Ah! A praia... Meio que devaneio de olhos bem abertos, protegidos por óculos escuros. E penso em anotar na lista de itens a comprar mais um: filtro solar. Fator cinquenta, talvez.

O ônibus finalmente dá um arranco e começa a se mover, embora lentamente. Estamos próximos da Central, a temida Central do Brasil, onde os pivetes batem livremente celulares, correntinhas de ouro, carteiras, enfim, tudo o que puderem. Os mais ousados levam até bolsas e mochilas, deixando a vítima desesperada e atônita. Todo cuidado é pouco. Os ônibus param, no ponto ou no sinal, e lá vem o ataque repentino: as mãos hábeis penetram pelas janelas e saem fugindo a todo vapor. Parecem ter asas nos pés. Nada os detém.

Dou uma conferida na rua, enquanto o ônibus encosta junto ao meio-fio para embarque e desembarque de passageiros. E subitamente, antes que alguém perceba o que está de fato acontecendo, eles entram por todos os lados: pelas portas dianteira e traseira, pelas janelas. São muitos, entre sete e quinze anos. A maioria apenas de bermuda, alguns de short e camiseta sem manga.

Imediatamente começa uma debandada entre os passageiros que, assustados e aflitos, correm para a porta e vão saindo aos trambolhões, sem olhar para trás. Eu fico inerte. O lugar onde estou é próximo à roleta, bem distante da porta de saída. Pelo retrovisor, posso ver o rosto do motorista, e percebo que seus olhos acompanham, pelos espelhos, o movimento dos pivetes no interior do ônibus. Mas suas mãos estão presas ao volante, e ele nada pode fazer. 

Não sei se tiro ou não os óculos. Acho melhor ficar bem quieta, fingindo indiferença. Ou devo fingir que estou dormindo?

Abro a bolsa (devo estar louca), vasculhando uma caneta. Pego um pedaço de papel e começo a rabiscar alguma coisa, apenas para espantar o nervosismo. Em seguida, lembro dos papéis guardados no envelope que trago comigo. Uma cópia de uma lei que preciso estudar. Puxo a tal lei e enfio a cara dentro do papel, quando de repente sinto um toque no meu cotovelo.

— Moça!

— O que é?!

Ele me encara, um pingo de gente. Deve ter uns oito anos, se muito. De bermudas e chinelos de borracha bem gastos, aquela criaturinha parece, na verdade, desamparada diante de mim. Os olhos grandes e vivos me encaram. E a pergunta:

 — Esse ônibus passa em Copacabana?

***

Os tijucanos

Isabel Pires

 

Passava das três da tarde quando a família, vinda da Tijuca, chegou à praia, lotada, do Arpoador. Barracas e cadeiras de lona plástica disputando os mínimos espaços nas areias congestionadas. Àquela hora, ninguém parecia querer arredar pé dali: verdadeiros “ratos de praia”, chegaram cedo e não pretendiam sair antes que os últimos raios de sol se enterrassem lá para os lados do Dois Irmãos.

O mais novo da família recém-chegada às areias, cinco anos incompletos, partiu em direção à água, enquanto a matrona desabava seus 80 anos de praia na cadeira sob a barraca.  

Verão praticamente sem chuvas no Rio, para a felicidade de mineiros, paulistas, argentinos e cariocas. Há muito tempo não se via uma estiagem tão prolongada, um Rio tão 40 graus como nesse verão. Aqui e acolá, uma mãe de biquíni com as mãos na cabeça, a incerteza corroendo a consciência: o filho (ou filha) perdeu-se? Afogou-se? Foi sequestrado(a)?! E de repente, para alívio geral, a criança é encontrada. Indiferente, o menino, ou menina, não parece compreender a agitação à sua volta, as lágrimas da mãe, as recriminações e felicitações dos banhistas. Não entende nem mesmo o picolé, que ganha como uma espécie de prêmio. E todos voltam à monotonia das barracas, um ou outro fiapo de conversa rolando solto no vento.  

Era por volta de quatro da tarde quando o rapaz muito branco, barba por fazer, perguntou à matriarca da família tijucana, que descansava sob a barraca azul, se poderia deixar ali suas coisas, enquanto dava um mergulho. “É só um instante. Vocês já estão indo?”.

— Pode ir, filho. Não se apresse. Não vamos sair daqui agora.  

O moço deixou as coisas aos pés da matriarca: bermuda e camiseta enroladas e, entre elas, visíveis, o celular e a carteira com os documentos. Também havia o par de chinelos, que uma das filhas recolheu para debaixo da cadeira. “Melhor colocar tudo aqui embaixo. Vai que tem arrastão!”.

— Não estão mesmo indo?, certificou-se ele.

 — Não. Também acabamos de chegar, disse, com ar cúmplice, a outra filha, saboreando sua cerveja gelada.

E ficaram, mãe e filhas, especulando um pouco de onde o moço seria, até que se esqueceram dele por completo.

O genro chegou, no mesmo instante em que o rapaz, já menos branco, retornava da água. “Será que vocês poderiam olhar minhas coisas só mais um pouco?”.

— Fique à vontade, reafirmou a matriarca, enquanto o rapaz, agradecendo muito, zarpava em direção ao mar.

Os preços na praia estavam “surreais”, a nova moeda desse verão, mas nem por isso os ambulantes dos isopores de latinhas de bebidas eram menos requisitados. Surreal também era a água do mar, geladíssima, sob um sol de 40 graus. Efeito, talvez, do aquecimento global. Quem sabe,  as calotas polares, em processo de derretimento, enviassem suas águas geladas para a orla carioca? O fato é que os banhistas que se aventuravam no mergulho deviam se sentir como uma lata de cerveja boiando dentro de um isopor cheio de gelo.

Foi quando o pai e o filho mais velho foram mergulhar que a ventania começou, ameaçando levar a barraca que a senhora, com seus 80 anos de idade, agarrava vigorosamente. Uma das filhas ajudou a fechá-la. Em volta, muitos acompanharam o movimento e, em pouco, a praia era um deserto de barracas fechadas.

O garoto, ao retornar da água com o pai, não aprovou a ideia: “O cara vai se perder, se a gente fechar a barraca”.

— Cara? Que cara?!

— É mesmo! O cara do mergulho. Vocês o viram na água?

A família já preocupada, imaginando o pior: “Será que ele se afogou?”.

— Que nada, foi só dar uma volta. Daqui a pouco ele vem.

Reabriram a barraca. E nada do moço aparecer. 

Quem apareceu, majestoso, foi o pôr do sol, paralisando a todos para uma justa reverência. Já começava a escurecer. E a família toda postada em volta do celular do moço, à espera de uma chamada que nunca vinha.

Que fazer: ir embora ou esperar mais um pouco? 

— Vamos levar as coisas. Com certeza, ele vai fazer contato, vai ligar para o próprio celular.

Já estavam enrolando a barraca e fechando as cadeiras, decididos, quando o filho apontou, há alguns metros atrás deles: “Olha, pai”. 

Era o moço? Seria? Barba por fazer, sunga preta... Mas tão moreno, que não parecia ser ele. Em dúvida, pai e filho se aproximaram. 

— Desculpe, mas... por acaso... você está procurando suas coisas? Documentos, roupas...

O rapaz, cheio de culpa: “Gente, desculpa fazer vocês esperarem tanto. Mas é que o pôr do sol...”.

— Tudo bem, está tudo bem. A gente sabia que ia te encontrar.

— Cheguei a pensar que vocês já tinham ido.

— É, a gente estava indo mesmo.

— Mas suas coisas estavam seguras. 

— Você ia fazer contato, não ia?

— Pessoal, nem sei como agradecer.

— Esquece. Deixa pra lá.

 Afinal, era verão. Turistas no Rio. E o pôr do sol no Arpoador.

Uma das filhas resolveu perguntar: “De onde você é mesmo?”. 

E o rapaz, enquanto calçava os chinelos: “Da Tijuca”.

 

***