Isabel Pires
Em um tempo não muito distante existiu
uma republiqueta perdida no meio do Terceiro Mundo, quando havia Terceiro Mundo.
Sua porta de entrada era de concreto, ferro e aço. Só havia porta de entrada. E
também uma ponte levadiça, protegendo bem o lugar. Seus muros eram todos
pichados: “Tchê Nobyle não perdoa: mata”. Tchê Nobyle, o tirano da pequena república,
era, também, capitalista-monopolista, dono de todos os canais de comunicação –
os muros em ruínas do lugar. Sua tevê? “Tchê Nobyle no ar”.
Os soldadinhos de chumbo
atravessavam com pernas de pau a pracinha cheia de canteiros floridos: de um
lado pro outro, de um lado pro outro. De um lado, o quartel. Do outro, a
igreja. A pracinha de canteiros coloridos onde os pracinhas namoravam era o
divisor, ponto de referência da republicazinha. E, em volta da praça, a vida se
movimentava. De um lado pro outro, de um lado pro outro.
A mãe de Daniel morreu a facadas e
suas tripas ficaram balançando fora da barriga. Daniel, cinco anos de
idade, arregalou os olhos e não acreditou que sua mãe tivesse morrido. No
quartel, os soldadinhos se agitaram com a novidade. Um deles, pai de mentirinha
de Daniel.
Tchê Nobyle, o tirano, trancado no
seu solar, estava fazendo festa. Não soube das facadas na noite de sua seresta.
As casas antigas, trancadas e sérias, não quiseram saber. Era contra a
religião. Só o povo miúdo, que vivia ao redor do rio que circundava o lugar, se
agitou como em dia de festa. Quem foi, quem não foi? O soldado tremia sob o
uniforme e, debaixo dos bigodes, pensava: “lá em casa, vai sobrar pra mim”.
Mas a república resplandecia ao
amanhecer. E de noite, quando havia luar, havia seresta na pequena praça
florida. O povo, fingindo de contente, bebia muita cachaça. E os meninos
cresciam à larga. Às vezes, é verdade, ficavam sem mãe, porque sem pai de há
muito já nasciam. Mas era apenas um detalhe, e Tchê Nobyle não se preocupava
muito com detalhes. Se importava, isto sim, com sua assessoria de comunicação. Onde
estava, que não lhe cuidava a imagem?, pensava ele, se achando bonito no grande
espelho oval do salão oval do seu solar. Talvez, precisasse apenas aparar o
bigode, tinha esperanças o tirano.
De
quando em quando, Tchê Nobyle se mostrava ao povo, dando largos adeuses da
sacada do seu solar. Fazia pronunciamentos patrióticos em cadeia de rádio e
televisão. O povo aplaudia e eram dias de festa. Era muito querido, em verdade,
o tirano.
Os soldadinhos de perna de pau e
cassetetes e pistolas à cintura garantiam o sossego, a ordem e o progresso que
prosseguiam na mesma mesmice de décadas na pacata e opaca republiqueta.
E o sossego do tirano era perturbado
apenas pela agitação breve, embora um tanto rebelde, do povo ribeirinho, quando
se matava a facadas em noites cheias, de festa.