domingo, 23 de fevereiro de 2025

Em noites de seresta

 Isabel Pires

 

                Em um tempo não muito distante existiu uma republiqueta perdida no meio do Terceiro Mundo, quando havia Terceiro Mundo. Sua porta de entrada era de concreto, ferro e aço. Só havia porta de entrada. E também uma ponte levadiça, protegendo bem o lugar. Seus muros eram todos pichados: “Tchê Nobyle não perdoa: mata”. Tchê Nobyle, o tirano da pequena república, era, também, capitalista-monopolista, dono de todos os canais de comunicação – os muros em ruínas do lugar. Sua tevê? “Tchê Nobyle no ar”.

            Os soldadinhos de chumbo atravessavam com pernas de pau a pracinha cheia de canteiros floridos: de um lado pro outro, de um lado pro outro. De um lado, o quartel. Do outro, a igreja. A pracinha de canteiros coloridos onde os pracinhas namoravam era o divisor, ponto de referência da republicazinha. E, em volta da praça, a vida se movimentava. De um lado pro outro, de um lado pro outro.

            A mãe de Daniel morreu a facadas e suas tripas ficaram balançando fora da barriga. Daniel, cinco anos de idade, arregalou os olhos e não acreditou que sua mãe tivesse morrido. No quartel, os soldadinhos se agitaram com a novidade. Um deles, pai de mentirinha de Daniel.

            Tchê Nobyle, o tirano, trancado no seu solar, estava fazendo festa. Não soube das facadas na noite de sua seresta. As casas antigas, trancadas e sérias, não quiseram saber. Era contra a religião. Só o povo miúdo, que vivia ao redor do rio que circundava o lugar, se agitou como em dia de festa. Quem foi, quem não foi? O soldado tremia sob o uniforme e, debaixo dos bigodes, pensava: “lá em casa, vai sobrar pra mim”.

            Mas a república resplandecia ao amanhecer. E de noite, quando havia luar, havia seresta na pequena praça florida. O povo, fingindo de contente, bebia muita cachaça. E os meninos cresciam à larga. Às vezes, é verdade, ficavam sem mãe, porque sem pai de há muito já nasciam. Mas era apenas um detalhe, e Tchê Nobyle não se preocupava muito com detalhes. Se importava, isto sim, com sua assessoria de comunicação. Onde estava, que não lhe cuidava a imagem?, pensava ele, se achando bonito no grande espelho oval do salão oval do seu solar. Talvez, precisasse apenas aparar o bigode, tinha esperanças o tirano.

De quando em quando, Tchê Nobyle se mostrava ao povo, dando largos adeuses da sacada do seu solar. Fazia pronunciamentos patrióticos em cadeia de rádio e televisão. O povo aplaudia e eram dias de festa. Era muito querido, em verdade, o tirano.

            Os soldadinhos de perna de pau e cassetetes e pistolas à cintura garantiam o sossego, a ordem e o progresso que prosseguiam na mesma mesmice de décadas na pacata e opaca republiqueta.

            E o sossego do tirano era perturbado apenas pela agitação breve, embora um tanto rebelde, do povo ribeirinho, quando se matava a facadas em noites cheias, de festa.