segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Os mar

Isabel Pires

Pensando bem, até que não está tão ruim assim, pensou ela, a caminho da pracinha com o filho. O garoto ia ao seu lado, em passos um pouco hesitantes, embora pudesse caminhar perfeitamente bem. O problema eram os braços: ambos quebrados e engessados. Levara uma queda da árvore do pátio da escola, a qual escalara na hora do recreio. Havia apostado com os colegas da quarta série quem subia mais alto. Ele ganhara a aposta, mas...

“Mas podia ter sido bem pior”, ponderou ela, dando-se por satisfeita que o menino não tivesse quebrado, em vez dos braços, as pernas. Ou, quem sabe, as pernas e os braços, com o risco de ficar até paraplégico. “Deus me livre!”, pensou em voz baixa, enquanto refletia que aquele momento catastrófico tinha um lado bom, afinal. Podia passar mais tempo com o filho, e isso compensava alguma coisa.

O médico recomendara o afastamento das atividades escolares por pelo menos um mês. E também banho de sol todos os dias pela manhã. “Para ajudar na regeneração óssea”, dissera o ortopedista.

Finalmente chegaram à pracinha, àquele horário, completamente lotada. Ela procurou um banco vazio. Deu alguns passos em direção ao centro da praça, apinhado de crianças que disputavam os balanços. Próximo a estes, havia um banco de cimento relativamente desocupado. Desistiu, porém, temerosa de que alguma criança esbarrasse com balanço e tudo nos braços engessados do filho.

Foi quando se deparou com uma cara familiar. Sim, era um senhor, vizinho de prédio, morador do apartamento da cobertura. Conhecia-o apenas de vista mas com certeza era ele. Estava acompanhado de um cuidador e usava uma cadeira de rodas. Ele também a reconheceu. Acenou para ela e o filho, chamando-os. E então mostrou um banco com um lugar bem atrás da cadeira de rodas. Só havia um lugar, mas apertando um pouco, caberia os dois, ela e o menino.

Ela sorriu agradecida. Problema resolvido. Naquele banco, o menino poderia tranquilamente tomar a sua dose de sol receitada pelo ortopedista. E ela poderia aproveitar para ler o livro que levara e que já começava a abrir na página em que parara, assinalada por um marcador de página artesanal, de madeira, gravado com as suas iniciais. Presente do marido, quando ela resolvera retomar o curso de História, seis meses antes.

Como foi isso?, quis saber o vizinho, a respeito dos braços engessados do garoto. Ao se inteirar da aposta da árvore, soltou uma gargalhada. “Quem sabe, montamos um time de futebol, hein? Eu de centroavante, você de goleiro. O que acha?”. E piscou cúmplice para o menino.

Perguntou o nome do filho, o nome da mãe. E se apresentou: “Sou o Osmar”. E engrossando a voz, meio cantarolando: “Os mar que não é os oceanos!”. E ria, a bandeiras despregadas, como diria o seu pai, se vivo fosse. Mãe e filho se entreolharam, e também caíram na risada. Então ele apresentou o cuidador que o acompanhava: “Esse aqui é o Divino”. Mãe e filho já prestes a rirem, pensando que se tratava de mais uma piada do seu Osmar. Não era. O homem chamava-se mesmo Divino. José Divino. E era de poucas palavras. Quase não falava. Mas ria muito das piadas bobas e inofensivas do patrão.

“Moro no décimo segundo andar, isto é...”. “O senhor mora na cobertura, não é?”, perguntou o menino. “Moro lá desde que o prédio foi construído, isso há mais de cinquenta anos. Você nem sonhava em nascer... Aliás, nem sua mãe! Me casei e fui para lá”. “O senhor tem filhos?”, perguntou a mãe do menino. “Tive três”, ele disse, e contou que os filhos – dois homens e uma mulher – moravam no estrangeiro, raramente vindo ao Brasil. Sua mulher morrera havia oito anos. E ele agora morava sozinho no apartamento da cobertura, com jardim e piscina e área para churrasco e mesas de jogos. Tinha até totó, da época em que os filhos eram adolescentes e levavam os amigos lá. Mas ele preferia sair, ir à praça, ver gente. Conversar.

A mãe consultou o relógio e constatou que levou mais do que a meia hora recomendada pelo médico. Percebeu também que não lera o livro. Nem sequer o abrira. “As horas voam, não é seu Osmar?”. Ele assentiu vigorosamente com a cabeça, “Sim, sim, é verdade, as horas voam”. “Preciso ir. Até logo”. “Mas já? Por que não ficam mais um pouco?”.

“Os mar que não são os oceanos!”, repetia o garoto, no caminho de volta para casa, cantarolando e imitando o seu Osmar. E caía na risada. A mãe tentava conter o riso, mas não resistia e acabava se rindo também. Mas ao chegarem próximo à portaria do prédio, a mulher, séria, falou para o filho parar com aquilo.

No dia seguinte, na pracinha, mãe e filho depararam-se novamente com seu Osmar, que acenava insistentemente para eles. Defendia com unhas e dentes e cadeira de rodas um lugar no banco para ela e o filho. Ela sorriu, satisfeita. A pracinha, como sempre, lotada. Mãe e filho instalados, seu Osmar entabulou a conversação. Desta vez, falou sobre o filho médico, o mais velho, que havia ido para Nova Iorque especializar-se, tão logo se formou, há vinte e cinco anos atrás, e nunca mais retornara ao Brasil, a não ser em viagens esporádicas, sempre apressadas. Ou em casos de muita necessidade, como no falecimento da mãe. Chamava-se Osmar, como o pai. E era ortopedista. Ao ouvir esta palavra, o garoto abriu bem os olhos, atento. Seu Osmar sorria, orgulhoso. “Pois é, quem sabe ele vem por aqui, e dá um jeito nesses seus braços, hein?! E também nessas minhas pernas!”. E gargalhava a sua gargalhada singular, contente com o encontro imaginário entre esse médico e esse paciente.  

No terceiro dia, lá estava o seu Osmar, defendendo incansavelmente um lugar ao sol para a mãe e o filho. E nos dias que se seguiram também. Às vezes, o seu Osmar pagava uma água de coco para eles. “Não precisava! Agradeça a seu Osmar, filho”, dizia a mãe, meio sem jeito. E bebiam, contentes, a água de coco bem gelada, que o José Divino ia buscar na barraquinha da moça dos cocos, mais adiante. Quando seu Osmar não aparecia na pracinha, mãe e filho sentiam a sua falta, ficavam até preocupados. Num desses dias, na volta, perguntaram ao porteiro se ele tinha notícias do seu Osmar. “Seu Osmar? Osmar de onde?”. “Seu Osmar, da cobertura”. “Ah, sim, foi a uma consulta médica com o Divino”, informou ele, estranhando um pouco a pergunta. O porteiro, que já estava naquela portaria havia pelo menos uns dez anos, não fazia ideia de que os moradores do 308, que haviam se mudado há pouco, conheciam o seu Osmar.

 Em outra ocasião, na pracinha, seu Osmar contou sobre a filha advogada, que se casara com um argentino que conhecera na praia. A filha, Lídia, a segunda dos filhos de seu Osmar, morava na Argentina e tinha três filhos – dois meninos e uma menina, tal como seu Osmar, com a diferença que a filha era a caçula dos irmãos. “Eles costumam vir para o Natal, mas tem ano que não dá. Sabe como é, época de férias... E tem vezes que querem viajar para outros lugares também”, explicou o homem.

Era meados de setembro e fazia muito calor, prenunciando o que seria o alto verão dos meses vindouros de dezembro, janeiro e fevereiro. O garoto, após mais uma visita ao ortopedista, retirou o gesso dos braços e voltou à rotina de escola e atividades extracurriculares. A mãe, por seu turno, retornou aos seus afazeres de dona de casa, secretária num escritório de contabilidade e estudante universitária, acumulando jornadas e estresses. Nem se lembraram mais do seu “Os mar que não era os oceanos”.

No saguão do terceiro andar, à espera do elevador, ela se impacientava, sentindo a maquiagem escorregar pelo rosto, naquele dia de verão escaldante. Era dezembro. Olhou para o visor: o elevador, parado no décimo segundo andar. O outro, em eterna manutenção. E o de serviço, ocupado com uma mudança. Era só o que faltava! Já estava atrasada, mas não queria descer as escadas, para não chegar ao seu destino – o escritório de contabilidade – completamente suada. Além do mais, estava de salto alto. À noitinha, haveria um happy hour no trabalho, em comemoração ao Natal que se aproximava e por isso ela caprichara um pouco mais no visual: salto alto, maquiagem. Um vestido que só usara uma vez, no aniversário de uma amiga, no verão passado, lembrava-se. Não, esperaria mais.

O elevador desceu lentamente, parando em vários andares. Finalmente chegou ao terceiro andar. Lotado. Havia uma imensa cadeira de rodas ocupando quase todo o espaço, e o que sobrava era disputado por mais umas quatro ou cinco pessoas. Então ela reparou bem: o homem na cadeira de rodas não era mesmo o seu Osmar? Mas cadê o Divino? Em vez do cuidador, uma desconhecida parecia acompanhá-lo. E havia uma garota, aparentando uns quinze anos de idade, bem junto à cadeira do seu Osmar.

– Bom dia! Tudo bem? Como o senhor está? – ela disse e sorriu para seu Osmar, esquecendo por instantes o rímel que ameaçava escorrer dos cílios, o batom que se desmanchava nos lábios.

– Como o senhor está?! Tudo bem?! É só isso o que tem pra me dizer? – retrucou um seu Osmar furioso e agressivo. Em poucos segundos, sua cara inchou, vermelha. No pescoço, a veia parecia querer saltar. Levantou um braço, indignado e ameaçador.

A porta do elevador se abriu. Haviam chegado ao térreo. As pessoas em volta da cadeira de rodas foram se atirando para fora. Ficou seu Osmar, sua acompanhante, a garota e ela, completamente paralisada, sem saber que dissesse, mas querendo dizer algo. “O senhor desculpe, é que...”, ensaiou.

– Desculpe meu pai – atalhou a acompanhante do seu Osmar. – Ele está com Alzheimer, não sabe o que diz. Imagine! Destratar uma estranha assim dessa maneira!

Empurrou a cadeira com seu Osmar para fora do elevador enquanto chamava a garota. “Vamos, filha”. Lídia olhou ainda uma vez mais para a mulher, que parecia derretida à sua frente. E pediu, com humildade:

– Desculpe, por favor, sim? Peço que entenda. Meu pai não fez por mal...

 

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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Cidade de Papel

Isabel Pires


Quando finalmente abriu, com alguma dificuldade, por causa do braço dolorido, a persiana meio empoeirada do pequeno escritório, ele percebeu um tanto agastado que perdera muito tempo aquele dia com o trabalho, embora soubesse que pouca coisa de fato tivesse produzido, limitando-se a revisar o texto já bastante revisado. No céu de verão, os últimos raios de sol se esbatiam contra fiapos de nuvens douradas, dispersas pelo azul como cabelos revoltos de um anjo desleixado.

Suspensa por trás do vidro hermeticamente fechado, a cidade parecia de papel. Um imenso cartão-postal feito de suor, sangue, areia e pedra. Montanha e praia produzindo um calor de mil diabos. O ar condicionado, porém, acalmava o medo e a solidão que passeavam nas ruas apinhadas de gente lá embaixo.

Bruscamente, ele deixou a janela. Atirou-se à poltrona reservada às poucas visitas, a olhar vazio para as prateleiras cobertas de livros e revistas especializadas. Muitos desses livros e revistas continham os artigos que escrevera, debruçando-se infinitamente sobre outros livros e revistas, fabricando eternos palimpsestos, preso em um círculo vicioso, gastando enormes pedaços de um tempo que agora, sabia, não podia mais dispor. Projetos pessoais adiados, desejos eternamente insatisfeitos em troca do seu nome impresso ou de um convite para alguma palestra. Pressentiu assim sua vida: uma tela com grandes claros, inacabada. Sempre por retocar. Uma infinidade de simpósios, palestras, seminários. Saguões de aeroportos e noites mal dormidas. O estresse das comissárias de bordo contido todo naquela rede que segura, corretamente penteados, os cabelos: “O senhor? Vai beber o quê?”. “Não, senhor, não temos uísque. Uísque não temos, senhor.

Mais adiante, seu olhar esbarrou no arranjo de flores desidratado e brega, herança do antigo ocupante da sala, pendurado próximo à janela. Já perdera a conta das vezes que pedira à moça da limpeza para tirar aquilo de lá, mas, por trás daquele largo sorriso de dentes muito alvos, Rose – era o nome dela – parecia não escutá-lo.

Consultando o relógio de pulso, ele constatou que a sessão de radioterapia daquele dia estava perdida. Deu de ombros, com a mão espalmada no bolso da camisa, no gesto de pegar os cigarros. Lembrou, porém, que desde que o médico lhe diagnosticara o câncer de próstata, que também o aconselhara a parar de fumar. Começara com uma dor discreta nas costas, na altura dos rins, que ele ia adiando dia a dia para “ver depois”. Até que o incômodo estendera-se para os ombros, limitando-lhe drasticamente os movimentos.

A porta abriu-se de repente. Era Rose, armada de vassoura e pá. “Dá licença, doutor?”. Rose esfregava a flanela encharcada de óleo de lustrar móveis na mesa já quase sem verniz, nas prateleiras descarnadas, e ia puxando conversa. Bastava ele perguntar “tudo bem, Rose?”, que um botão automático, do tipo “aperte o play”, disparava uma metralhadora falante. Outras vezes, porém, ela se fechava em copas, apesar do sorriso claro sempre aberto, e o play simplesmente não funcionava.

Enquanto Rose ainda recolhia o lixo, ele, um pouco agastado com o cheiro do óleo de peroba, dirigiu-se à mesa de trabalho, retirando de dentro da velha pasta de couro preto as laudas do artigo, presas por um clipe. De testa franzida, passeou por instantes os olhos pelo trabalho impresso, sentindo necessidade de revisá-lo mais uma vez. Por fim, juntou novamente as laudas e devolveu-as à pasta, inúteis. Ligou o computador. Iria revisar o trabalho na tela mesmo, decidira.

Logo no primeiro dia, ela contou: tinha dois filhos, uma menina de sete anos e um menino de quatro. Seu atual marido não era o pai das crianças. Este, Rose perdera, grávida de oito meses. “Maior barrigão”. Estavam quase chegando em casa, ela, o marido e a menina. O assassino vinha em direção contrária. “Um tiro só, doutor”. O menino nasceu sem pai.

Preso por durex na parede atrás da mesa dele, o “mapa do Rio de Janeiro” apresentava uma cidade perfeitamente ordeira, apesar do seu desenho irregular. Uma cidade de papel, onde as sirenes da polícia, das ambulâncias e dos bombeiros não eram, em absoluto, necessárias. Sorte grande viver na Cidade Maravilhosa sem um arranhão.

Vista do alto, a cidade parecia caber na palma da mão, como o mapa dela, preso por durex na parede, cabia inteiro num só olhar. Do alto, encerrado naquela torre de vidro gelada, ele via a cidade como se não tivesse nada a ver com aquelas ruas e avenidas e artérias invadidas de sangue, suor, lágrimas, sorrisos, desespero e alegrias: um cidadão de gabinete. Exceto, talvez, quando saía de casa para trabalhar, atravessando as ruas dentro do carro fechado e refrigerado. De dentro do carro, o rés do chão da Cidade Maravilhosa parecia um tanto cinzento, com seus prédios de concreto e vidro fumê e seus tapetes de asfalto, cortados aqui e ali por algum inesperado canteiro verde, um outdoor colorido, uma copa de árvore retorcida à beira do rio de carros. Aqui e ali, muros pichados aliviavam a pesada paisagem urbana. A massa compacta de gente, essa sim, bem colorida e diversificada contra o fundo quase neutro, atravessando as avenidas como soldados enfileirados.

Relanceou o olhar pela janela e percebeu, com uma raiva impotente de injustiçado, que o ocaso lá fora era passageiro, se renovando sempre, enquanto o seu se tornava cada vez mais irremediável e definitivo. Olhou para Rose: ela falava algo sobre a inveja das vizinhas, o marido carinhoso que ela tinha, e que esse, não, esse ninguém ia lhe tirar. Trabalhador, pai de família, responsável. A metralhadora falante novamente disparada, enquanto, lá fora, o ocaso...

Voltou o olhar para a página virtual que o aguardava à sua frente, impassível. Precisava arranjar um título para o trabalho, mas sabia que suas melhores ideias o haviam abandonado. Balbuciou um título qualquer entre dentes. Depois o repetiu em voz alta, para testar-lhe o efeito. “O que disse?”. Era Rose, tentando estabelecer contato. Mas ele estava longe, não a escutava mais. Decidiu: era esse o título. Digitou as palavras no alto da página virtual à sua frente, quase apaziguado consigo mesmo. Retirou por instantes os olhos da tela fosforescente do computador, buscando mais uma vez a janela, mas esbarrou novamente o olhar no arranjo brega que o tirava do sério há algum tempo.

“Rose”, ele ia falar, mas era sexta-feira. Toda sexta-feira, ele sabia, Rose largava o serviço mais cedo, por causa do pagode, “que disso eu não abro mão”. Rose na soleira da porta, prestes a atravessá-la, levando consigo a vassoura, o espanador, o saco de lixo e a pá. “Rose”, tentou ele, “tira, por favor, esse arranjo...”. Ela nem sequer se virou. “Segunda-feira, de manhã cedo, eu tiro”, ela disse, e se foi.

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domingo, 24 de agosto de 2025

Ler é preciso viver

Isabel Pires

 

Estarei só, bem só em mim, indiferente a todos os balés do mundo. 
O que eu fiz, dou tudo para vocês. 
André Breton

 

Depois que lera Kafka, ele não sabia mais o que fazer com os braços. À noite, não encontrava posição na cama, sentindo-se tão desajeitado quanto o inseto Gregor Samsa. Se dormia de barriga para cima, tinha pesadelos horríveis com um admirável mundo novo que parecia cada vez mais próximo, inexoráveis exércitos de mulheres de cabelo verde e roupa vermelha e roxa marchando sobre seus miolos. Mas foi na estrada para Oz que as coisas começaram a piorar. A imagem daquele homem de lata não saía por nada de sua cabeça. No carro, no metrô ou no ônibus, ele próprio se sentindo mais lata que tais veículos. Por dúvida das vias, como diria um amigo seu, passou a carregar consigo um spray antiferrugem, que guardava dentro da pasta abarrotada de revistas de cultura, suplementos de jornais e um ou outro volume de contos, poemas, romance.

Em casa, os livros não paravam de multiplicar-se na(s) estante(s), desde edições bilíngues, boas e más traduções, línguas estrangeiras diversas, numa biblioteca que, antes de ser babélica tornava-se progressivamente bélica, verdadeiro arsenal em que se encontravam filosofia e literatura, economia, política, antropologia, algum conhecimento de direito e, até, um tratado de paleontologia. Os filhos adolescentes tornavam-se esquivos. Medo de que ele os obrigasse a ler um livro todo final de semana. Deu para emendar ditados. Por exemplo, quando alguém se punha a relembrar fatos, ele invariavelmente comentava: “Como diria Dom Quixote, águas passadas não movem gigantes”. Ao atender o telefone, em vez do clássico “alô”, mandava: “Fala, amendoeira!”. Não perdia um lançamento, sobretudo de revistas especializadas, ele próprio especializado – para terror dos amigos articulistas – em descobrir coincidências entre autores, omissão de citações e plágios diversos. Em suma, tudo aquilo que compõe a emaranhada rede do trabalho intelectual, e que ele, com paciência magistral e muitas horas de leitura, se esmerava em esburacar. Tornara-se assim muito erudito.

Essas e outras miudezas que progressivamente se incorporavam à sua personalidade e ao cotidiano seu e de outros não seriam de modo algum motivo de preocupação maior, não tivesse ele, inadvertidamente, trocado o nome da mulher. Agora, só a chamava de Laura Beatriz e dedicava-lhe sonetos de pé quebrado em súbitos arroubos literários de paixão. Reunidos, os parentes decidiram chamar o Doutor Carlos, médico da família. Ele veio quando o paciente, abajur aceso à cabeceira da cama, preparava-se para mais uma noite de leitura febril.

O jaleco branco do Doutor Carlos era a própria neutralidade e objetividade da Ciência. O cérebro aturdido do outro, em contraste, vazava leituras para todo lado. Entretanto, pós-kafkianos que os dois de fato eram, algum bretonismo, como o halo difuso que vinha do pequeno abajur, se interpunha entre eles. Algo que não era pura ilusão nem a mais concreta realidade. “Sabe por quê vim?”, perguntou o médico. Cabisbaixo, desta vez o paciente parecia desprovido de palavras. Lentamente, levantou os olhos: “Está tudo perdido, não é mesmo?”. “Bem”, começou o Doutor Carlos, mas o outro atalhou a sua fala. “Talvez ainda dê tempo de salvar-lhe a vida”. O médico aguardava. “Imediatamente, senão será tarde demais”. “Sim?”. “Em que página ela está?”. “Não sei ao certo”. “Então corra, pode ser que você encontre o veneno antes dela”. O Doutor Carlos assentiu com a cabeça, e rapidamente deixou o quarto para tentar cumprir sua missão. Afinal, amava muito Emma Bovary.

A sós, ele retirou de debaixo do travesseiro o livro. Das páginas do Quincas Borba, Rubião acenava-lhe um sorriso azul. Mergulhou na leitura, nela naufragando não vencido, não vencedor. Apenas leitor: “Ao leitor, as batatas!”. 

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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O homem invisível

Isabel Pires

 

Seus olhos cristalinos atravessavam os objetos como querendo arrumar-lhes os sentidos. Tudo metodicamente disposto, sobre a mesa higienicamente arrumada.

Fora, durante boa parte de sua vida, um burocrata numa grande empresa, e tal experiência como que se aderira à sua personalidade, confundindo-se com sua própria pele. Durante esse período, desenvolvera a capacidade de tornar-se invisível. No escritório, chegava sempre cedo, antes dos outros, e tomava seu cafezinho, sem açúcar e sem estardalhaço.

Trabalhava. Sim, trabalhava, embora procurasse não se mover em demasia, tudo bem ao alcance das mãos. Nas suas, é verdade, raras ausências, quase ninguém notava a diferença entre ele estar lá, sentado em sua cadeira almofadada, ou não estar. Não que não fosse grande. Alto, de longos braços e mãos imensas e brancas, quase vermelhas, chamava a atenção quando circulava pelos corredores, em direção ao banheiro ou à copa. Por isto, limitava essas idas e vindas tanto quanto pudesse.

Falava pouco, pausado e em tom sempre moderado. Como conviria a um homem invisível. Talvez não se lembrasse quando começou a desenvolver esta capacidade, nem a partir de que premente necessidade – pois é sempre para satisfazer alguma necessidade que uma determinada técnica é desenvolvida. Mas logo percebeu a vantagem do negócio, e a ele aderiu completa e irrestritamente, ainda que comedidamente. 

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segunda-feira, 7 de julho de 2025

A caminho de Copacabana

 Isabel Pires

Embora seja dia “útil”, o noticiário da televisão mostra as praias da Cidade Maravilhosa “bombando” sob o sol de 40 graus, repletas de banhistas, surfistas, turistas... Desde que o sol nasce até quando se põe – mais de doze horas de sol. A televisão noticia que alguns sequer vão para casa, ficam por ali mesmo, se refrescando à beira d’água.

Os termômetros implacáveis, o sol dominando todo o céu – nem um fiapo de nuvem ousa disputar a primazia do astro-rei. E me surge, não sei de onde, uma inveja danada de quem pode aproveitar a praia num dia como este. Num dia como este, por exemplo, os “istas” das praias não precisam enfrentar o trânsito infernal, onde o calor parece redobrar de tamanho, principalmente dentro dos ônibus lotados.

Consulto o relógio: treze horas e quarenta e cinco minutos de uma tarde de verão intenso no Rio de Janeiro. Tudo parado na Avenida Presidente Vargas, em direção à Zona Sul. O que terá havido? Acidente? Passeata na Avenida Rio Branco? Uma coisa, porém, é certa: vou me atrasar. Ah! A praia... Meio que devaneio de olhos bem abertos, protegidos por óculos escuros. E penso em anotar na lista de itens a comprar mais um: filtro solar. Fator cinquenta, talvez.

O ônibus finalmente dá um arranco e começa a se mover, embora lentamente. Estamos próximos da Central, a temida Central do Brasil, onde os pivetes batem livremente celulares, correntinhas de ouro, carteiras, enfim, tudo o que puderem. Os mais ousados levam até bolsas e mochilas, deixando a vítima desesperada e atônita. Todo cuidado é pouco. Os ônibus param, no ponto ou no sinal, e lá vem o ataque repentino: as mãos hábeis penetram pelas janelas e saem fugindo a todo vapor. Parecem ter asas nos pés. Nada os detém.

Dou uma conferida na rua, enquanto o ônibus encosta junto ao meio-fio para embarque e desembarque de passageiros. E subitamente, antes que alguém perceba o que está de fato acontecendo, eles entram por todos os lados: pelas portas dianteira e traseira, pelas janelas. São muitos, entre sete e quinze anos. A maioria apenas de bermuda, alguns de short e camiseta sem manga.

Imediatamente começa uma debandada entre os passageiros que, assustados e aflitos, correm para a porta e vão saindo aos trambolhões, sem olhar para trás. Eu fico inerte. O lugar onde estou é próximo à roleta, bem distante da porta de saída. Pelo retrovisor, posso ver o rosto do motorista, e percebo que seus olhos acompanham, pelos espelhos, o movimento dos pivetes no interior do ônibus. Mas suas mãos estão presas ao volante, e ele nada pode fazer. 

Não sei se tiro ou não os óculos. Acho melhor ficar bem quieta, fingindo indiferença. Ou devo fingir que estou dormindo?

Abro a bolsa (devo estar louca), vasculhando uma caneta. Pego um pedaço de papel e começo a rabiscar alguma coisa, apenas para espantar o nervosismo. Em seguida, lembro dos papéis guardados no envelope que trago comigo. Uma cópia de uma lei que preciso estudar. Puxo a tal lei e enfio a cara dentro do papel, quando de repente sinto um toque no meu cotovelo.

— Moça!

— O que é?!

Ele me encara, um pingo de gente. Deve ter uns oito anos, se muito. De bermudas e chinelos de borracha bem gastos, aquela criaturinha parece, na verdade, desamparada diante de mim. Os olhos grandes e vivos me encaram. E a pergunta:

 — Esse ônibus passa em Copacabana?

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Os tijucanos

Isabel Pires

 

Passava das três da tarde quando a família, vinda da Tijuca, chegou à praia, lotada, do Arpoador. Barracas e cadeiras de lona plástica disputando os mínimos espaços nas areias congestionadas. Àquela hora, ninguém parecia querer arredar pé dali: verdadeiros “ratos de praia”, chegaram cedo e não pretendiam sair antes que os últimos raios de sol se enterrassem lá para os lados do Dois Irmãos.

O mais novo da família recém-chegada às areias, cinco anos incompletos, partiu em direção à água, enquanto a matrona desabava seus 80 anos de praia na cadeira sob a barraca.  

Verão praticamente sem chuvas no Rio, para a felicidade de mineiros, paulistas, argentinos e cariocas. Há muito tempo não se via uma estiagem tão prolongada, um Rio tão 40 graus como nesse verão. Aqui e acolá, uma mãe de biquíni com as mãos na cabeça, a incerteza corroendo a consciência: o filho (ou filha) perdeu-se? Afogou-se? Foi sequestrado(a)?! E de repente, para alívio geral, a criança é encontrada. Indiferente, o menino, ou menina, não parece compreender a agitação à sua volta, as lágrimas da mãe, as recriminações e felicitações dos banhistas. Não entende nem mesmo o picolé, que ganha como uma espécie de prêmio. E todos voltam à monotonia das barracas, um ou outro fiapo de conversa rolando solto no vento.  

Era por volta de quatro da tarde quando o rapaz muito branco, barba por fazer, perguntou à matriarca da família tijucana, que descansava sob a barraca azul, se poderia deixar ali suas coisas, enquanto dava um mergulho. “É só um instante. Vocês já estão indo?”.

— Pode ir, filho. Não se apresse. Não vamos sair daqui agora.  

O moço deixou as coisas aos pés da matriarca: bermuda e camiseta enroladas e, entre elas, visíveis, o celular e a carteira com os documentos. Também havia o par de chinelos, que uma das filhas recolheu para debaixo da cadeira. “Melhor colocar tudo aqui embaixo. Vai que tem arrastão!”.

— Não estão mesmo indo?, certificou-se ele.

 — Não. Também acabamos de chegar, disse, com ar cúmplice, a outra filha, saboreando sua cerveja gelada.

E ficaram, mãe e filhas, especulando um pouco de onde o moço seria, até que se esqueceram dele por completo.

O genro chegou, no mesmo instante em que o rapaz, já menos branco, retornava da água. “Será que vocês poderiam olhar minhas coisas só mais um pouco?”.

— Fique à vontade, reafirmou a matriarca, enquanto o rapaz, agradecendo muito, zarpava em direção ao mar.

Os preços na praia estavam “surreais”, a nova moeda desse verão, mas nem por isso os ambulantes dos isopores de latinhas de bebidas eram menos requisitados. Surreal também era a água do mar, geladíssima, sob um sol de 40 graus. Efeito, talvez, do aquecimento global. Quem sabe,  as calotas polares, em processo de derretimento, enviassem suas águas geladas para a orla carioca? O fato é que os banhistas que se aventuravam no mergulho deviam se sentir como uma lata de cerveja boiando dentro de um isopor cheio de gelo.

Foi quando o pai e o filho mais velho foram mergulhar que a ventania começou, ameaçando levar a barraca que a senhora, com seus 80 anos de idade, agarrava vigorosamente. Uma das filhas ajudou a fechá-la. Em volta, muitos acompanharam o movimento e, em pouco, a praia era um deserto de barracas fechadas.

O garoto, ao retornar da água com o pai, não aprovou a ideia: “O cara vai se perder, se a gente fechar a barraca”.

— Cara? Que cara?!

— É mesmo! O cara do mergulho. Vocês o viram na água?

A família já preocupada, imaginando o pior: “Será que ele se afogou?”.

— Que nada, foi só dar uma volta. Daqui a pouco ele vem.

Reabriram a barraca. E nada do moço aparecer. 

Quem apareceu, majestoso, foi o pôr do sol, paralisando a todos para uma justa reverência. Já começava a escurecer. E a família toda postada em volta do celular do moço, à espera de uma chamada que nunca vinha.

Que fazer: ir embora ou esperar mais um pouco? 

— Vamos levar as coisas. Com certeza, ele vai fazer contato, vai ligar para o próprio celular.

Já estavam enrolando a barraca e fechando as cadeiras, decididos, quando o filho apontou, há alguns metros atrás deles: “Olha, pai”. 

Era o moço? Seria? Barba por fazer, sunga preta... Mas tão moreno, que não parecia ser ele. Em dúvida, pai e filho se aproximaram. 

— Desculpe, mas... por acaso... você está procurando suas coisas? Documentos, roupas...

O rapaz, cheio de culpa: “Gente, desculpa fazer vocês esperarem tanto. Mas é que o pôr do sol...”.

— Tudo bem, está tudo bem. A gente sabia que ia te encontrar.

— Cheguei a pensar que vocês já tinham ido.

— É, a gente estava indo mesmo.

— Mas suas coisas estavam seguras. 

— Você ia fazer contato, não ia?

— Pessoal, nem sei como agradecer.

— Esquece. Deixa pra lá.

 Afinal, era verão. Turistas no Rio. E o pôr do sol no Arpoador.

Uma das filhas resolveu perguntar: “De onde você é mesmo?”. 

E o rapaz, enquanto calçava os chinelos: “Da Tijuca”.

 

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quinta-feira, 26 de junho de 2025

O dragão de São Jorge

Isabel Pires

 

Direi mesmo: que importa, que importa que nunca mais o paraíso volte e que não exista mais (uma vez que o compreendo, digo-vos), apesar de tudo, pregarei o paraíso. (Dostoievski, in O sonho de um homem ridículo)

Era uma vez uma cidade arrasada pela guerra cujos sobreviventes se refugiaram em um trem, única coisa que restou. O trem, que era ao mesmo tempo lar, trabalho, centro de lazer, maternidade e também crematório – os que morriam eram lançados à fornalha, uma vez que se tratava, o trem, de uma velha maria-fumaça –, não parava nunca, autoalimentado que era pelos cadáveres. Seu trajeto era o antigo perímetro da cidade destruída, o que fazia com que a sua viagem circular nunca tivesse fim. Os viajantes do trem estavam condenados a jamais saírem dele, pois a área central – o que havia sido a cidade – estava contaminada por material toxicológico, radioativo, bacteriológico e nuclear. Deixar o trem era morte certa. Mas ficar no trem também. Em pouco tempo, os víveres começaram a se esgotar e os sobreviventes só viam uma saída possível.

E qual era?, perguntei, a essa altura ardendo em curiosidade. 

Depois termino a história, disse ela, espreguiçando-se e bocejando. Neste dia estava bem bonita, com os cabelos vermelhos amarrados por uma tira colorida. Angelina era mesmo diabólica. Nunca terminava as histórias que inventava – e que garantia serem reais –, deixando o final sempre para uma próxima vez. Mas, ao chegar “a próxima vez”, o que ela fazia era começar outra história que não ia ter nenhum fim. Todas as vezes que a gente se despedia, ela perguntava, reforçando aquele olhar apreensivo que sempre me lançava, “você vai ficar bem?”. E eu respondia que sim, que eu ia ficar muito bem, obrigado.

Eu sabia que ela era uma espécie de bruxa. Dada a ler mãos, cartas. Tarô e quiromancia. E, afinal, me sentia grato por ela nunca ter se oferecido para decifrar a minha sorte, minha sina ou meu destino, coisas enigmáticas, com as quais, por algum motivo obscuro, eu pensava que não se devia brincar. Consultar oráculos não era muito a minha praia.

Conheci uma mulher que tinha o dom da terceira visão, começou ela, um tanto séria demais, olhando fixamente para mim. Quando olhava para uma pessoa, podia enxergar como ela seria no futuro. Mas isto era uma coisa que ela nunca comentava com ninguém, comentou minha bruxa particular. E pelo seu tom e o jeito dela me olhar, intuí que, desta vez, aquela história não era uma ficção. A mulher que possuía o dom da terceira visão devia ser ela mesma, e devia ser aquela “terceira visão” que a fazia me olhar daquele jeito esquisito, e, ao mesmo tempo, refleti, meio irracionalmente, que ela deveria estar vendo algo em mim que o espelho do banheiro não me mostrava, todas as vezes em que eu me demorava em frente a ele, me barbeando e penteando. Confesso que sou vaidoso. Confesso também que fiquei ardendo em curiosidade, mas, para não dar o braço a torcer, perguntei, num tom o mais casual e brincalhão que pude inventar, o que era que aquela mulher da terceira visão veria em mim, se acaso me visse.

As verdadeiras bruxas têm lá seus segredos. Ela embarafustou por veredas, sem me responder diretamente. Passou a dar detalhes técnicos, explicando que a “terceira visão” se localizava num ponto equidistante entre os dois globos oculares, e que, na verdade, todo mundo tinha essa terceira visão, não se tratava de nenhuma paranormalidade. Apenas as pessoas não sabiam usá-la. É tão terrível assim o que você vê que não quer me contar?, provoquei. Angelina sentou-se, com aquele olhar apreensivo fixo em mim. “É curioso”. Curioso? Desatei a rir, um tanto descontroladamente. Eu me sentia um objeto de contemplação apenas “curioso”. O que é curioso?, perguntei, frisando bem a palavra que. “É curioso, porque não consigo ver o seu rosto mais velho”. Disse que me via apenas com um sorriso nos lábios e um olhar curioso. É. Ela usou exatamente essa palavra, curioso, para descrever o olhar que via. Curioso. Essa palavra nojenta e ambígua já começava a me dar nos nervos.

A minha bruxa não era uma bruxa profissional, porém. Embora isso não venha ao caso, esclareço que ela ganhava o seu dinheiro com uma loja de papelaria que herdara do pai. E, segundo eu soube, administrava os negócios com mão de ferro. Também tinha uma página mística na Internet: poemas e orações.

Depois daquela confissão, quando a encontrava, estendia-lhe a palma da minha mão direita, em posição de leitura. Ela ria e afastava a mão de si, ou a pegava e colocava em alguma parte do seu delirante corpo. E acabava arrematando tudo com mais uma das suas histórias malucas. Mas um dia Angelina se resolveu. Tomou minhas mãos entre as suas e ficou assim um tempão – apenas segurando-me as mãos. Depois, fitou as palmas das mãos – ambas – longamente. Quando eu ia perguntar qualquer coisa, ela pareceu voltar a si. Soltou-me as mãos, bruscamente, e disse apenas que eu iria fazer uma longa viagem. Uma não, duas. Talvez, várias, corrigiu, meio hesitante.

Na última vez em que a vi, Angelina confessou-me que era ela que iria viajar: vendera a loja, casara e sequer me convidara. Estávamos bebendo um chope no bar do Félix, aonde costumávamos ir sempre. Antes que eu pudesse retrucar algo, Angelina contou mais uma das suas estranhas histórias. A diferença, porém, é que a de agora possuía um fim. Um fim duvidoso, sem dúvida, mas ainda assim um fim. Era a história de um homem que roubava espelhos. Esse homem acreditava que, olhando-se no mesmo espelho que outra pessoa costumava olhar-se, ele descobriria as fraquezas daquela pessoa, seus medos, seus planos, suas crenças e, principalmente, seus segredos mais íntimos e mais terríveis, podendo, em resumo, se apoderar da alma e dos segredos da pessoa. Quando era do seu interesse, o homem dava um jeito de entrar na casa alheia e pegar o espelho. Assim ele venceu boa parte dos seus inimigos e tornou-se muito rico. Até que um dia apaixonou-se perdidamente por uma bela mulher. Desconfiado de que ela o traía, foi em busca do espelho da mulher. Ao se mirar nele, porém, o espelho partiu-se e o homem morreu, sem conhecer, afinal, a verdade que tanto fizera questão de ir buscar.

Alguém já disse que não se pode sair dessa vida com vida. A profecia do oráculo de Delfos – aquele mesmo onde está escrito “conhece-te a ti mesmo” – talvez não tivesse se cumprido, e Édipo não tivesse matado o pai e se casado com a mãe, se ele não tivesse, também, começado uma viagem. Estou perdido, pensei, enquanto eles me levavam para o carro, encostando algo como um cano de revólver sob a minha camisa. E, como os nossos pensamentos nem sempre obedecem à lógica e ao bom senso, admiti também que havia sido um sequestro-relâmpago – se é que era sequestro, e se é que era relâmpago – perfeito. Ninguém no bar percebera coisa alguma, distraídos certamente pelo quebra-quebra, os espelhos em pedaços, cadeiras e mesas reviradas. Quando saímos de lá, eles me segurando firme com suas mãos enormes, devíamos parecer apenas velhos amigos.

Uma bela manhã um homem acordou. Enquanto esfregava os olhos e se espreguiçava, percebeu que se mover na cama era algo inexplicavelmente penoso. Com extrema dificuldade, levantou-se, e só então, ao fincar as quatro patas no chão, acompanhadas de uma bela crina e um longo rabo, se deu conta de que agora era um centauro. Por mais razões que buscasse, o homem não compreendia o que se passara. O cavalo parecia nada querer entender, mas, sentindo-se aprisionado, levantava as patas e se agitava, destruindo o quarto à sua volta. O homem sentiu-se aterrorizado. Como sair do quarto naquele estado? Como não sair, mantendo o cavalo preso num cubículo, apertado para qualquer homem normal? Com esforço, ele passou todo o dia, na esperança de que a noite chegasse logo quando então talvez pudesse dormir, e talvez então sonhasse, e o seu sonho finalmente o despertasse de tal pesadelo.

E, se na manhã seguinte, acordasse novamente centauro, o que faria?

Enquanto um dos meus sequestradores dirigia tranquilo aquele estranho carro todo branco, pensei que a viagem deveria ser longa, como Angelina, afinal, havia previsto. Tentei fechar os olhos e adormecer. Quem sabe, não estaria sonhando, e, dormindo, acordasse daquele pesadelo? Ou, quem sabe, eu não seria apenas um personagem de uma das histórias de Angelina, e não passasse, portanto, de mera ficção?

O carro avançava noite adentro pela estrada comprida, mas eu não conseguia pregar o olho. Emendo. Não sei se dormi ou não. Só sei que, depois de algum tempo, o carro estacionou em frente a um prédio enorme, um edifício de segurança máxima, cheio de guardas, cercas eletrificadas, detectores de metal, câmeras. Principalmente câmeras. Finalmente entramos. Havia muitas mulheres, todas metidas em aventais brancos, de toucas brancas. Até os sapatos e meias eram brancos.

Numa cidade longínqua, um homem perdera seu grande amor. Havia sido um equívoco, um lamentável mal-entendido, ela disse, e se foi, sem dar maiores satisfações. Deixou para trás pequenas coisas que dizia amar: alguns vasos de plantas, os CDs com as canções preferidas, os livros. Um porta-joias de metal, sem joias, em formato ovalado, forrado de cetim vermelho e com um laço de fita de metal dourado incrustado na tampa contornada por pequenos frisos. Sobretudo uma gata de olhos cinzentos, lânguida e arisca, chamada Gitana. O homem caiu em profunda melancolia. Sua voz tornou-se um fiapo lamentoso, mesmo quando aparentava não lembrar dela. Quando parecia quase conformado, deu para enxergar, em todas as mulheres à sua volta, o rosto da amada. Não eram bem os traços fisionômicos. Era mais o jeito de olhar. O mesmo jeito que o enlouquecera de paixão. Impossibilitado de amar todas ou escolher uma, ele arrastava o seu viver, enquanto, devagar, enlouquecia.

Quando abri os olhos, Angelina sorria para mim à cabeceira da cama, enquanto outra Angelina me aplicava uma injeção que, apesar do tamanho da agulha, não doeu nada nada, e outra Angelina, ainda, entrava no quarto carregando uma bandeja. Apenas quando as Angelinas falavam a ilusão se desfazia, e eu ficava com a sensação angustiante de que a minha Angelina talvez sequer tivesse existido um dia.

Mas como lembro tão perfeitamente das histórias que ela contava?

Sei que nunca mais serei o mesmo. Tenho comigo apenas as lembranças das histórias de Angelina. Sei, também, que ela não era nenhuma miragem. Lembro de cada detalhe do seu corpo, do seu rosto salpicado de pequenas sardas, os dentes muito brancos irrompendo subitamente das gengivas cor de morango, quando ela sorria. A gente costumava frequentar o bar do Felix, lembra? Aquele bar cheio de espelhos. Muitos espelhos. Amigos em comum, todo mundo nos via, não nos viam? Sei que existimos juntos sim, eu e Angelina.

E sei que, aqui, não terei sequer as histórias de Angelina para lembrar, porque já não tenho, cada vez mais, a lembrança da própria Angelina, isto é, do seu cheiro, da sua pele. Não saberei mais como era o seu sabor, nem o gosto de suas lágrimas. Já não sinto mais como meus os seus projetos, tão ingenuamente ambiciosos, nem os seus espantos, os seus espasmos. As suas tristezas e as suas alegrias.

Embora jamais tocassem no assunto, percebi que eles – aqueles homens sisudos, sempre vestidos com jalecos brancos, que todos os dias iam me ver – me preparavam para uma longa viagem. Claro, era isto. Como não desconfiei antes? Eu iria navegar infinitamente pelo espaço interestelar, às vezes pousando ora aqui ora ali, em mundos longínquos, numa errante viagem cósmica. Ou talvez eu estivesse destinado à lua, e talvez pudesse dizer, ao chegar lá, não sei se poética ou pateticamente, porque não sei se me sobraria humanidade possível, que “a terra é azul”. Eu, o escolhido, afinal.

Certa feita, ao visitar uma tribo distante, um xamã dera-lhe um pouco da poção mágica, que ele usava gota a gota, secretamente. A poção o fazia viajar sem sair um milímetro do lugar. Dos diversos mundos que ele conhecera, nessas viagens inimagináveis, um ele escolhera para sua futura e definitiva morada. Nesse mundo, os habitantes tinham longas cabeleiras azuis, eram dourados e prateados e não usavam roupa. Apenas uma luz diáfana os envolvia, e eles eram extremamente suaves e pareciam em eterno êxtase e devaneio. Quando ele achou que era chegada a hora da partida, descobriu, porém, que a poção mágica havia desaparecido.

Não, não se tratava de viagens espaciais, concluí finalmente. Eles me preparavam para viagens no tempo – ou, possivelmente, “nos tempos”. Por que não? Física quântica, precisões atômicas de tempo, medidas holográficas... Coisas misteriosas e profundas a que os pobres mortais não têm acesso. Apenas os escolhidos.

Sei também que serão generosos comigo, pressinto. Certamente me deixarão escolher uma companhia. E então lhes falarei de certa contadora de histórias, de cabelos ruivos e olhar brilhante. Cercado por minhas Angelinas, aguardarei ansioso a chegada dela. Mas não sei se algum dia eles a encontrarão.

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quarta-feira, 25 de junho de 2025

Crônica de um sábado de verão

Isabel Pires


Não pode um cristão dormir um pouco mais numa manhã de sábado? Era o que me vinha à mente, ainda entorpecida, enquanto olhava os números do alarme-despertador, que exibiam, na penumbra do quarto, seis horas e dois minutos da madrugada! Contudo, o despertador não tocava sozinho. Junto com ele, a campainha do telefone berrava estridente num dueto infernal. E a segunda coisa que me veio à cabeça foi uma ideia funesta. Algo de terrível tinha por força de ter acontecido, para justificar a insistência daquela campainha àquela hora da manhã. Atendia ou não? Como aquele troço não parasse, resolvi ver afinal do que se tratava. “Alô? Querido? Já está pronto?”. A voz meiga de Lina era um balde de água fria nos meus ouvidos. Como poderia ter esquecido? Eu era mesmo um animal. Um monstro. “Cla claro querida. Daqui a dez minutos? Tudo bem”.

Como eu ia disfarçar o gosto de sola-de-sapato-cabo-de-guarda-chuva na boca, eu não fazia a mínima ideia. Como aquilo acontecera comigo, eu conseguia explicar. Só um asno poderia sair para um happy-hour com a turma do trabalho – a mesma com a qual eu passava oito horas por dia, quarenta por semana – e chegar em casa às... Bem, isso não importava agora, mas apenas chegar na casa da Lina em... Cinco minutos?

Sentei-me desolado na beira da cama, tentando lembrar onde foram parar as chaves do carro. Felizmente, havia um spray para garganta no armário do banheiro. Enfiei-me numa roupa qualquer e fui dirigindo com a janela do carro bem aberta. Isso justificava o cabelo desgrenhado, a roupa amarrotada. Sorri comigo mesmo, envaidecido da minha própria inteligência.

À porta do prédio, de mala em punho, bolsa, sacola e laptop, Lina me recebeu com um sorriso do tamanho do mundo, e, enquanto colocava toda aquela tralha no banco traseiro, confessou que estávamos meia hora adiantados. Devo ter sorrido muito amarelo, porque ela me perguntou se eu havia tomado café da manhã. “Está com fome, querido? Pobrezinho!” Deu-me as chaves do seu apartamento e insistiu para que, na volta, eu passasse por lá. Havia me preparado uma bela surpresa. “Claro que você vai gostar!” No saguão do aeroporto, Lina notou-me a palidez, o mutismo. E interpretou tudo como saudades antecipadas dela. “Volto logo, querido. Só uma semana...”. Eu só pensava em voltar correndo para debaixo das cobertas.

Depois do check-in, Lina finalmente me liberou, não sem antes me fazer prometer que sim, que quando saísse dali eu iria direto ao apê dela.

Enquanto dirigia, o vento fresco da manhã revigorando-me, começava, de fato, a sentir saudades da minha doce Lina. Pouco a pouco, também a curiosidade começava a me dominar. Afinal, não custava nada dar uma passada por lá.

Era manhã de sábado. O trânsito fluía. Os poucos motoristas também fluíam, sem prestar muita atenção ao sinal. Verde, amarelo, vermelho, que diferença fazia? Eu ia sem pressa, parando em algumas esquinas.

Devia estar pensando ainda em Lina e na “bela surpresa” que me aguardava, porque não percebi logo que as buzinadas ao lado eram comigo. Só quando o motorista bateu na minha janela é que tomei conhecimento dele. Dele, da mulher e dos dois filhos, que me olhavam cheios de interesse e, provavelmente, com segundas intenções. Era o meu primo Maurício. “Está indo a algum lugar? Bom... Estamos indo a um churrasco, não quer vir com a gente?”. O sinal ficou verde e o carro do Maurício não saía do lugar. Acabou dizendo que foi mesmo muita sorte ter me encontrado. “E?...” O que eu temia aconteceu. A prima Roberta me olhava sorrindo, um sorriso quase do tamanho do sorriso da Lina. “Como não?”. “Com o maior prazer”, atravessei a cidade para ir buscar o casal de velhinhos, avós de Roberta. Era aniversário de alguém e insistiam para eu ficar. Churrasco, piscina. Nada mau para uma manhã de sábado. Maurício arranjou-me um calção de banho e eu fui me deixando ficar ali. Tinha tempo que eu não pegava uma corzinha.

Entre um mergulho e outro, sempre dando um jeito de devolver o tapa de água recebido dos garotos, lembrava da surpresa da Lina e sentia remorsos. Depois, olhava os dois velhos, sentados placidamente à sombra, com seus chapéus brancos de largas abas, e sentia mais remorsos. Mas, definitivamente, eu não iria levá-los de volta. Lá pelas duas da tarde, arranjei um pretexto para escapulir, apesar da insistência da mãe de Roberta para que eu ficasse. Disse que não podia, tinha um encontro com a Lina, ia almoçar com ela. “Aliás, estou até atrasado...” A velhinha, até então quieta, levantou a cabeça um tanto surpresa. “Mas a Lina não viajou? Você não foi levá-la ao aeroporto?”. Emendei-a, constrangido e percebendo que ela anotara tudo da nossa conversa no trajeto para o churrasco. “Como? Não, Lina ainda vai viajar. Depois que almoçarmos”. Enquanto eu terminava as despedidas, a velhinha fez cara de poucos amigos e, intimamente, deve ter me rogado algumas pragas. Ao lado dela, o velhinho dormitava, indiferente. 

Era um breakfast o que Lina havia me preparado. Simpáticos crisântemos repousavam ao lado da jarra de suco e da leiteira. Torradas, queijo, presunto. Geleia, biscoitos amanteigados. Pão francês. Tudo murcho. O ar recendia a mamão e a laranja azeda. Sob o açucareiro, um bilhete carinhoso de Lina, escrito num delicado papel, ornado de flores e corações.

Sorri um pouco, sem compreender muito bem a finalidade da estética romântica que presidia tudo aquilo, e que, aparentemente, não combinava em nada com a doutora Idalina Carvalho. A propósito, ela havia embarcado para um simpósio de advogados criminalistas, que ia se realizar em Porto Seguro. Enquanto mastigava uma torrada ressecada em excesso e esvaziava a jarra de suco e a leiteira dentro da pia da cozinha, senti-me, mais uma vez, um monstro inominável. Paciência. Sobretudo, eu deveria ser paciente comigo mesmo. Dobrei com cuidado o bilhete e guardei-o na carteira.

Escolhi uma música da playlist da Lina para escutar debaixo do chuveiro. Titãs. Só os Titãs salvam. Enquanto esfregava o xampu da Lina no cabelo, escutava a voz poderosa do Arnaldo Antunes a plenos pulmões: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Súbito, a campainha tocou. Eu ainda estava na metade do banho e a campainha tocando, sistemática e pausadamente, uma duas três vezes. Quem seria? Enrolei a toalha na cintura e fui atender.

De dentro de suas bermudas, um garotão com pinta de surfista sorria, com uns dentes meio exagerados e muito brancos. “Não, a Lina não está”. “É que, bem, a minha avó...” Ele parecia meio desconcertado. E os Titãs: “Cabeça cabeça cabeça de dinossauro”. Por fim, o garotão conseguiu se explicar: viera convidar a Lina para a missa de sua bisavó, que morava no apartamento em frente. Lembrei do aviso dentro do elevador, referente a uma missa que seria celebrada pela passagem dos cem anos de alguma senhora do prédio. Com efeito, por trás do garoto, pude ver a velhinha sendo retirada de casa em sua cadeira de rodas. “Bom, cara. Vai rolar um bolo lá mesmo, no salão de festas da igreja. Se quiser, aparece por lá”.

Aquele era o sábado dos aniversários. Declinei de mais este convite. O garoto não insistiu, afinal, e eu voltei aos Titãs. “Família, família. Papai, mamãe, titia”.

Uma ligeira azia e a movimentação do apartamento em frente, cujos ruídos pareciam penetrar por debaixo da porta, tiravam-me qualquer concentração. A cabeça começou a latejar. Imóvel, esticado no sofá, escutei a última música da playlist: “É que a televisão me deixou burro, muito burro demais”. 

A televisão! O controle remoto estava ali mesmo, ao alcance da mão. Bastava apertar um botãozinho de nada. Televisão relaxa, afinal de contas. E a da Lina é das grandes. Sessenta polegadas de imagem colorida em 3D invadiram o espaço num blablablá infernal que me aumentava a dor de cabeça. Abaixei o volume até deixá-la muda. E troquei a playlist. Agora sim, podia relaxar, escutando Caetano com aquele cenário todo colorido. Parecia um show. 

Não estava com a mínima disposição para dirigir de volta pra casa, e assim fui ficando no apê aconchegante da Lina, sem a Lina, porém. O relaxamento com música, televisão e sofá pode ser que fizesse efeito, era o que eu esperava. Enquanto isso, mudei para a playlist internacional, sempre com as imagens coloridas ao fundo. Rolling Stones, Supertramp, Dire Straits, Yes. Com tais canções de ninar, acalentadas pela tevê completamente muda, acabei cochilando. Ou melhor, dava cabeçadas para logo ser bruscamente acordado por uma bateria mais pesada ou uma guitarra mais estridente. Até que a música cessou e peguei no sono de vez. 

Não tenho ideia de quanto tempo depois fui acordado por uma voz estranha que me sussurrava aos ouvidos. Sussurro nada. Era uma voz grandiloquente. Visceral, eu diria, se não fosse tão impostada. Quando abri os olhos, Cid Moreira olhava fixo para mim, de dentro da tela da tevê: “No princípio era o verbo e o verbo estava com Deus e o verbo era Deus”.

Que história era aquela? O que o Cid Moreira estava fazendo na televisão da Lina? Mas ele, impassível, continuou: “Ele estava no princípio com Deus. Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro”. Como eu não reagisse, ele colocou as mãos na moldura da tela, como se fosse sair de lá. Foi o que fez. Quando percebi, ele já havia passado uma das pernas para o lado de fora, e estava prestes a passar a outra, enquanto dizia: “Estamos de olho!”. Foi aí que eu reagi. De um pulo, saltei do sofá, abri a porta e saí em desabalada carreira pelo corredor, enquanto a toalha que me cingia a cintura caía no chão, juntamente com os óculos 3D da televisão da Lina. Antes de alcançar as escadas, completamente nu, ainda vi a cara, lambuzada de glacê branco, da velhinha dos cem anos, que estava sendo removida de volta para casa. 

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segunda-feira, 23 de junho de 2025

O guarda-chuva verde

 Isabel Pires

 As duas velhas iam andando pela rua, com passos que pareceriam incertos, mas que, na verdade, eram passos de quem já perdeu toda a pressa das coisas do mundo. Chovia uma chuva fina, e elas seguiam, muito unidas sob o mesmo guarda-chuva. Confusa, a mais velha das duas velhas procurava entender, sem sequer se lembrar, como perdera o seu guarda-chuva. Coisa impossível, pois se até os moços não explicam como guarda-chuvas se perdem a toda hora, sobretudo em dias de chuva.

Pararam na banca do camelô. A velha menos velha insistia na compra de um guarda-chuva para a outra velha, que relutava, ainda mais confusa. Mas estou sem o dinheiro. Não faz mal. Não disse que, qualquer dia, lhe compraria um guarda-chuva novo? Pode escolher. A velha mais velha piscava para os guarda-chuvas na barraca, enquanto o camelô, paciente, esperava. E porquê já viveram até o ponto de perder a pressa, e de saber, que, agora, eram os outros que deveriam esperar por elas, as velhas escolhiam o guarda-chuva devagar. Devagar caía uma chuva rala.

Finalmente, seguiram pela rua cheia de guarda-chuvas em direção ao ortopedista. A mais velha das duas velhas sentiu a falta do corpo da outra velha amparando o seu. Contudo, o braço dela ainda a enlaçava pela cintura, e as duas seguiam, os guarda-chuvas bailando sob a chuva fina.

Com espanto e dor, subiram cada degrau. O que são as dores todas do mundo, quando duas velhas sobem cinco degraus? O ascensorista, solícito, as aguardava.

Outros velhos, muitos velhos, enchiam o consultório de ortopedia. Cada velho que levantava, que saía – e outro velho segurava longamente a porta – parecia que o mundo parava.

As duas velhinhas, sempre unidas, seriam as últimas. O médico atendia por ordem de chegada. A lentidão da velhice atrasava o atendimento. E quando parecia não ter mais fim a espera, a recepcionista encontrou, ao lado das velhas, um guarda-chuva abandonado. Negro, bem negro, não era delas, e de mais ninguém. Na sala de espera do consultório, não havia mais nenhum velho, além delas duas, que já se dirigiam ao médico.

— O que faço, doutor? Mais um guarda-chuva perdido. 

À soleira da porta, a recepcionista segurava incólume o objeto extraviado.

— Agora é moda, minhas senhoras. Semana passada, encontramos um também.

— Por acaso era verde?, arriscou a velhinha mais velha.

Meio comovido – porque, apesar do trato quase diário com aqueles seres que ainda não foram, mas também já não eram, meros ossos porosos a serem examinados, ele ainda guardava a capacidade de, pelo menos, querer se comover –, meio comovido, o médico mandou a recepcionista buscar o guarda-chuva verde. Mas a moça, pigarreando, explicou que o havia deixado na portaria. Era só pegá-lo, quando por lá passassem.

Na saída, a velhinha foi em busca do seu guarda-chuva verde. Atencioso, o porteiro prontamente se dispôs a pegá-lo. Que pena. Não é esse, não. Esperem, tem outro. E é verde também. Do cubículo escuro ao lado do balcão, o porteiro emergiu segurando o guarda-chuva verde. E, embora verde, também não era aquele o guarda-chuva agora já ansiosamente esperado.

Um momento! O porteiro, nesse instante, tornou-se involuntariamente autoritário, fazendo com que as velhas suspendessem o passo. Das entranhas do cubículo escuro agarrado ao balcão, o porteiro retirou quatro guarda-chuvas. Um verde-claro, um verde-escuro, outro verde-petróleo e outro, ainda verde, xadrez. Nenhum, porém, ostentava o friso dourado, a alça intacta. Nenhum deles era de pequenos pontos vermelhos salpicado. Eram verdes e eram guarda-chuvas. Mas nenhum era o guarda-chuva verde, para sempre perdido. Perdido para sempre.

Chegando à rua, a chuva já havia ido embora. Guarda-chuvas debaixo dos braços, as duas velhas seguiam mais lentas, mais unidas, mais inseparáveis. Acima de suas cabeças, resplandecia um céu recém-lavado. 


***