Isabel Pires
Pensando
bem, até que não está tão ruim assim, pensou ela, a caminho da pracinha com o
filho. O garoto ia ao seu lado, em passos um pouco hesitantes, embora pudesse
caminhar perfeitamente bem. O problema eram os braços: ambos quebrados e
engessados. Levara uma queda da árvore do pátio da escola, a qual escalara na
hora do recreio. Havia apostado com os colegas da quarta série quem subia mais
alto. Ele ganhara a aposta, mas...
“Mas
podia ter sido bem pior”, ponderou ela, dando-se por satisfeita que o menino
não tivesse quebrado, em vez dos braços, as pernas. Ou, quem sabe, as pernas e
os braços, com o risco de ficar até paraplégico. “Deus me livre!”, pensou em
voz baixa, enquanto refletia que aquele momento catastrófico tinha um lado bom,
afinal. Podia passar mais tempo com o filho, e isso compensava alguma coisa.
O
médico recomendara o afastamento das atividades escolares por pelo menos um
mês. E também banho de sol todos os dias pela manhã. “Para ajudar na
regeneração óssea”, dissera o ortopedista.
Finalmente
chegaram à pracinha, àquele horário, completamente lotada. Ela procurou um
banco vazio. Deu alguns passos em direção ao centro da praça, apinhado de
crianças que disputavam os balanços. Próximo a estes, havia um banco de cimento
relativamente desocupado. Desistiu, porém, temerosa de que alguma criança
esbarrasse com balanço e tudo nos braços engessados do filho.
Foi
quando se deparou com uma cara familiar. Sim, era um senhor, vizinho de prédio,
morador do apartamento da cobertura. Conhecia-o apenas de vista mas com certeza
era ele. Estava acompanhado de um cuidador e usava uma cadeira de rodas. Ele
também a reconheceu. Acenou para ela e o filho, chamando-os. E então mostrou um
banco com um lugar bem atrás da cadeira de rodas. Só havia um lugar, mas
apertando um pouco, caberia os dois, ela e o menino.
Ela
sorriu agradecida. Problema resolvido. Naquele banco, o menino poderia tranquilamente
tomar a sua dose de sol receitada pelo ortopedista. E ela poderia aproveitar
para ler o livro que levara e que já começava a abrir na página em que parara,
assinalada por um marcador de página artesanal, de madeira, gravado com as suas
iniciais. Presente do marido, quando ela resolvera retomar o curso de História,
seis meses antes.
Como
foi isso?, quis saber o vizinho, a respeito dos braços engessados do garoto. Ao
se inteirar da aposta da árvore, soltou uma gargalhada. “Quem sabe, montamos um
time de futebol, hein? Eu de centroavante, você de goleiro. O que acha?”. E
piscou cúmplice para o menino.
Perguntou
o nome do filho, o nome da mãe. E se apresentou: “Sou o Osmar”. E engrossando a
voz, meio cantarolando: “Os mar que não é os oceanos!”. E ria, a bandeiras
despregadas, como diria o seu pai, se vivo fosse. Mãe e filho se entreolharam,
e também caíram na risada. Então ele apresentou o cuidador que o acompanhava:
“Esse aqui é o Divino”. Mãe e filho já prestes a rirem, pensando que se tratava
de mais uma piada do seu Osmar. Não era. O homem chamava-se mesmo Divino. José
Divino. E era de poucas palavras. Quase não falava. Mas ria muito das piadas bobas
e inofensivas do patrão.
“Moro
no décimo segundo andar, isto é...”. “O senhor mora na cobertura, não é?”,
perguntou o menino. “Moro lá desde que o prédio foi construído, isso há mais de
cinquenta anos. Você nem sonhava em nascer... Aliás, nem sua mãe! Me casei e
fui para lá”. “O senhor tem filhos?”, perguntou a mãe do menino. “Tive três”,
ele disse, e contou que os filhos – dois homens e uma mulher – moravam no
estrangeiro, raramente vindo ao Brasil. Sua mulher morrera havia oito anos. E
ele agora morava sozinho no apartamento da cobertura, com jardim e piscina e
área para churrasco e mesas de jogos. Tinha até totó, da época em que os filhos
eram adolescentes e levavam os amigos lá. Mas ele preferia sair, ir à praça, ver gente. Conversar.
A
mãe consultou o relógio e constatou que levou mais do que a meia hora
recomendada pelo médico. Percebeu também que não lera o livro. Nem sequer o
abrira. “As horas voam, não é seu Osmar?”. Ele assentiu vigorosamente com a
cabeça, “Sim, sim, é verdade, as horas voam”. “Preciso ir. Até logo”. “Mas já?
Por que não ficam mais um pouco?”.
“Os
mar que não são os oceanos!”, repetia o garoto, no caminho de volta para casa, cantarolando
e imitando o seu Osmar. E caía na risada. A mãe tentava conter o riso, mas não
resistia e acabava se rindo também. Mas ao chegarem próximo à portaria do
prédio, a mulher, séria, falou para o filho parar com aquilo.
No
dia seguinte, na pracinha, mãe e filho depararam-se novamente com seu Osmar,
que acenava insistentemente para eles. Defendia com unhas e dentes e cadeira de
rodas um lugar no banco para ela e o filho. Ela sorriu, satisfeita. A pracinha,
como sempre, lotada. Mãe e filho instalados, seu Osmar entabulou a conversação.
Desta vez, falou sobre o filho médico, o mais velho, que havia ido para Nova
Iorque especializar-se, tão logo se formou, há vinte e cinco anos atrás, e
nunca mais retornara ao Brasil, a não ser em viagens esporádicas, sempre
apressadas. Ou em casos de muita necessidade, como no falecimento da mãe. Chamava-se
Osmar, como o pai. E era ortopedista. Ao ouvir esta palavra, o garoto abriu bem
os olhos, atento. Seu Osmar sorria, orgulhoso. “Pois é, quem sabe ele vem por
aqui, e dá um jeito nesses seus braços, hein?! E também nessas minhas pernas!”.
E gargalhava a sua gargalhada singular, contente com o encontro imaginário
entre esse médico e esse paciente.
No
terceiro dia, lá estava o seu Osmar, defendendo incansavelmente um lugar ao sol
para a mãe e o filho. E nos dias que se seguiram também. Às vezes, o seu Osmar
pagava uma água de coco para eles. “Não precisava! Agradeça a seu Osmar, filho”,
dizia a mãe, meio sem jeito. E bebiam, contentes, a água de coco bem gelada,
que o José Divino ia buscar na barraquinha da moça dos cocos, mais adiante. Quando
seu Osmar não aparecia na pracinha, mãe e filho sentiam a sua falta, ficavam
até preocupados. Num desses dias, na volta, perguntaram ao porteiro se ele
tinha notícias do seu Osmar. “Seu Osmar? Osmar de onde?”. “Seu Osmar, da
cobertura”. “Ah, sim, foi a uma consulta médica com o Divino”, informou ele,
estranhando um pouco a pergunta. O porteiro, que já estava naquela portaria havia
pelo menos uns dez anos, não fazia ideia de que os moradores do 308, que haviam
se mudado há pouco, conheciam o seu Osmar.
Em outra ocasião, na pracinha, seu Osmar
contou sobre a filha advogada, que se casara com um argentino que conhecera na
praia. A filha, Lídia, a segunda dos filhos de seu Osmar, morava na Argentina e
tinha três filhos – dois meninos e uma menina, tal como seu Osmar, com a
diferença que a filha era a caçula dos irmãos. “Eles costumam vir para o Natal,
mas tem ano que não dá. Sabe como é, época de férias... E tem vezes que querem
viajar para outros lugares também”, explicou o homem.
Era meados de setembro e fazia muito calor, prenunciando o que seria o alto
verão dos meses vindouros de dezembro, janeiro e fevereiro. O garoto, após mais
uma visita ao ortopedista, retirou o gesso dos braços e voltou à rotina de
escola e atividades extracurriculares. A mãe, por seu turno, retornou aos seus
afazeres de dona de casa, secretária num escritório de contabilidade e
estudante universitária, acumulando jornadas e estresses. Nem se lembraram mais
do seu “Os mar que não era os oceanos”.
No
saguão do terceiro andar, à espera do elevador, ela se impacientava, sentindo a
maquiagem escorregar pelo rosto, naquele dia de verão escaldante. Era dezembro.
Olhou para o visor: o elevador, parado no décimo segundo andar. O outro, em
eterna manutenção. E o de serviço, ocupado com uma mudança. Era só o que
faltava! Já estava atrasada, mas não queria descer as escadas, para não chegar
ao seu destino – o escritório de contabilidade – completamente suada. Além do
mais, estava de salto alto. À noitinha, haveria um happy hour no trabalho, em comemoração ao Natal que se aproximava e por isso ela caprichara um pouco mais no visual: salto alto, maquiagem. Um vestido que só usara uma vez, no aniversário de uma amiga, no verão passado, lembrava-se. Não, esperaria mais.
O
elevador desceu lentamente, parando em vários andares. Finalmente chegou ao
terceiro andar. Lotado. Havia uma imensa cadeira de rodas ocupando quase todo o
espaço, e o que sobrava era disputado por mais umas quatro ou cinco pessoas. Então
ela reparou bem: o homem na cadeira de rodas não era mesmo o seu Osmar? Mas
cadê o Divino? Em vez do cuidador, uma desconhecida parecia acompanhá-lo. E
havia uma garota, aparentando uns quinze anos de idade, bem junto à cadeira do
seu Osmar.
–
Bom dia! Tudo bem? Como o senhor está? – ela disse e sorriu para seu Osmar,
esquecendo por instantes o rímel que ameaçava escorrer dos cílios, o batom que
se desmanchava nos lábios.
–
Como o senhor está?! Tudo bem?! É só isso o que tem pra me dizer? – retrucou um
seu Osmar furioso e agressivo. Em poucos segundos, sua cara inchou, vermelha.
No pescoço, a veia parecia querer saltar. Levantou um braço, indignado e
ameaçador.
A
porta do elevador se abriu. Haviam chegado ao térreo. As pessoas em volta da
cadeira de rodas foram se atirando para fora. Ficou seu Osmar, sua acompanhante,
a garota e ela, completamente paralisada, sem saber que dissesse, mas querendo
dizer algo. “O senhor desculpe, é que...”, ensaiou.
–
Desculpe meu pai – atalhou a acompanhante do seu Osmar. – Ele está com
Alzheimer, não sabe o que diz. Imagine! Destratar uma estranha assim dessa
maneira!
Empurrou
a cadeira com seu Osmar para fora do elevador enquanto chamava a garota. “Vamos,
filha”. Lídia olhou ainda uma vez mais para a mulher, que parecia derretida à
sua frente. E pediu, com humildade:
–
Desculpe, por favor, sim? Peço que entenda. Meu pai não fez por mal...
***
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