segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Os mar

Isabel Pires

Pensando bem, até que não está tão ruim assim, pensou ela, a caminho da pracinha com o filho. O garoto ia ao seu lado, em passos um pouco hesitantes, embora pudesse caminhar perfeitamente bem. O problema eram os braços: ambos quebrados e engessados. Levara uma queda da árvore do pátio da escola, a qual escalara na hora do recreio. Havia apostado com os colegas da quarta série quem subia mais alto. Ele ganhara a aposta, mas...

“Mas podia ter sido bem pior”, ponderou ela, dando-se por satisfeita que o menino não tivesse quebrado, em vez dos braços, as pernas. Ou, quem sabe, as pernas e os braços, com o risco de ficar até paraplégico. “Deus me livre!”, pensou em voz baixa, enquanto refletia que aquele momento catastrófico tinha um lado bom, afinal. Podia passar mais tempo com o filho, e isso compensava alguma coisa.

O médico recomendara o afastamento das atividades escolares por pelo menos um mês. E também banho de sol todos os dias pela manhã. “Para ajudar na regeneração óssea”, dissera o ortopedista.

Finalmente chegaram à pracinha, àquele horário, completamente lotada. Ela procurou um banco vazio. Deu alguns passos em direção ao centro da praça, apinhado de crianças que disputavam os balanços. Próximo a estes, havia um banco de cimento relativamente desocupado. Desistiu, porém, temerosa de que alguma criança esbarrasse com balanço e tudo nos braços engessados do filho.

Foi quando se deparou com uma cara familiar. Sim, era um senhor, vizinho de prédio, morador do apartamento da cobertura. Conhecia-o apenas de vista mas com certeza era ele. Estava acompanhado de um cuidador e usava uma cadeira de rodas. Ele também a reconheceu. Acenou para ela e o filho, chamando-os. E então mostrou um banco com um lugar bem atrás da cadeira de rodas. Só havia um lugar, mas apertando um pouco, caberia os dois, ela e o menino.

Ela sorriu agradecida. Problema resolvido. Naquele banco, o menino poderia tranquilamente tomar a sua dose de sol receitada pelo ortopedista. E ela poderia aproveitar para ler o livro que levara e que já começava a abrir na página em que parara, assinalada por um marcador de página artesanal, de madeira, gravado com as suas iniciais. Presente do marido, quando ela resolvera retomar o curso de História, seis meses antes.

Como foi isso?, quis saber o vizinho, a respeito dos braços engessados do garoto. Ao se inteirar da aposta da árvore, soltou uma gargalhada. “Quem sabe, montamos um time de futebol, hein? Eu de centroavante, você de goleiro. O que acha?”. E piscou cúmplice para o menino.

Perguntou o nome do filho, o nome da mãe. E se apresentou: “Sou o Osmar”. E engrossando a voz, meio cantarolando: “Os mar que não é os oceanos!”. E ria, a bandeiras despregadas, como diria o seu pai, se vivo fosse. Mãe e filho se entreolharam, e também caíram na risada. Então ele apresentou o cuidador que o acompanhava: “Esse aqui é o Divino”. Mãe e filho já prestes a rirem, pensando que se tratava de mais uma piada do seu Osmar. Não era. O homem chamava-se mesmo Divino. José Divino. E era de poucas palavras. Quase não falava. Mas ria muito das piadas bobas e inofensivas do patrão.

“Moro no décimo segundo andar, isto é...”. “O senhor mora na cobertura, não é?”, perguntou o menino. “Moro lá desde que o prédio foi construído, isso há mais de cinquenta anos. Você nem sonhava em nascer... Aliás, nem sua mãe! Me casei e fui para lá”. “O senhor tem filhos?”, perguntou a mãe do menino. “Tive três”, ele disse, e contou que os filhos – dois homens e uma mulher – moravam no estrangeiro, raramente vindo ao Brasil. Sua mulher morrera havia oito anos. E ele agora morava sozinho no apartamento da cobertura, com jardim e piscina e área para churrasco e mesas de jogos. Tinha até totó, da época em que os filhos eram adolescentes e levavam os amigos lá. Mas ele preferia sair, ir à praça, ver gente. Conversar.

A mãe consultou o relógio e constatou que levou mais do que a meia hora recomendada pelo médico. Percebeu também que não lera o livro. Nem sequer o abrira. “As horas voam, não é seu Osmar?”. Ele assentiu vigorosamente com a cabeça, “Sim, sim, é verdade, as horas voam”. “Preciso ir. Até logo”. “Mas já? Por que não ficam mais um pouco?”.

“Os mar que não são os oceanos!”, repetia o garoto, no caminho de volta para casa, cantarolando e imitando o seu Osmar. E caía na risada. A mãe tentava conter o riso, mas não resistia e acabava se rindo também. Mas ao chegarem próximo à portaria do prédio, a mulher, séria, falou para o filho parar com aquilo.

No dia seguinte, na pracinha, mãe e filho depararam-se novamente com seu Osmar, que acenava insistentemente para eles. Defendia com unhas e dentes e cadeira de rodas um lugar no banco para ela e o filho. Ela sorriu, satisfeita. A pracinha, como sempre, lotada. Mãe e filho instalados, seu Osmar entabulou a conversação. Desta vez, falou sobre o filho médico, o mais velho, que havia ido para Nova Iorque especializar-se, tão logo se formou, há vinte e cinco anos atrás, e nunca mais retornara ao Brasil, a não ser em viagens esporádicas, sempre apressadas. Ou em casos de muita necessidade, como no falecimento da mãe. Chamava-se Osmar, como o pai. E era ortopedista. Ao ouvir esta palavra, o garoto abriu bem os olhos, atento. Seu Osmar sorria, orgulhoso. “Pois é, quem sabe ele vem por aqui, e dá um jeito nesses seus braços, hein?! E também nessas minhas pernas!”. E gargalhava a sua gargalhada singular, contente com o encontro imaginário entre esse médico e esse paciente.  

No terceiro dia, lá estava o seu Osmar, defendendo incansavelmente um lugar ao sol para a mãe e o filho. E nos dias que se seguiram também. Às vezes, o seu Osmar pagava uma água de coco para eles. “Não precisava! Agradeça a seu Osmar, filho”, dizia a mãe, meio sem jeito. E bebiam, contentes, a água de coco bem gelada, que o José Divino ia buscar na barraquinha da moça dos cocos, mais adiante. Quando seu Osmar não aparecia na pracinha, mãe e filho sentiam a sua falta, ficavam até preocupados. Num desses dias, na volta, perguntaram ao porteiro se ele tinha notícias do seu Osmar. “Seu Osmar? Osmar de onde?”. “Seu Osmar, da cobertura”. “Ah, sim, foi a uma consulta médica com o Divino”, informou ele, estranhando um pouco a pergunta. O porteiro, que já estava naquela portaria havia pelo menos uns dez anos, não fazia ideia de que os moradores do 308, que haviam se mudado há pouco, conheciam o seu Osmar.

 Em outra ocasião, na pracinha, seu Osmar contou sobre a filha advogada, que se casara com um argentino que conhecera na praia. A filha, Lídia, a segunda dos filhos de seu Osmar, morava na Argentina e tinha três filhos – dois meninos e uma menina, tal como seu Osmar, com a diferença que a filha era a caçula dos irmãos. “Eles costumam vir para o Natal, mas tem ano que não dá. Sabe como é, época de férias... E tem vezes que querem viajar para outros lugares também”, explicou o homem.

Era meados de setembro e fazia muito calor, prenunciando o que seria o alto verão dos meses vindouros de dezembro, janeiro e fevereiro. O garoto, após mais uma visita ao ortopedista, retirou o gesso dos braços e voltou à rotina de escola e atividades extracurriculares. A mãe, por seu turno, retornou aos seus afazeres de dona de casa, secretária num escritório de contabilidade e estudante universitária, acumulando jornadas e estresses. Nem se lembraram mais do seu “Os mar que não era os oceanos”.

No saguão do terceiro andar, à espera do elevador, ela se impacientava, sentindo a maquiagem escorregar pelo rosto, naquele dia de verão escaldante. Era dezembro. Olhou para o visor: o elevador, parado no décimo segundo andar. O outro, em eterna manutenção. E o de serviço, ocupado com uma mudança. Era só o que faltava! Já estava atrasada, mas não queria descer as escadas, para não chegar ao seu destino – o escritório de contabilidade – completamente suada. Além do mais, estava de salto alto. À noitinha, haveria um happy hour no trabalho, em comemoração ao Natal que se aproximava e por isso ela caprichara um pouco mais no visual: salto alto, maquiagem. Um vestido que só usara uma vez, no aniversário de uma amiga, no verão passado, lembrava-se. Não, esperaria mais.

O elevador desceu lentamente, parando em vários andares. Finalmente chegou ao terceiro andar. Lotado. Havia uma imensa cadeira de rodas ocupando quase todo o espaço, e o que sobrava era disputado por mais umas quatro ou cinco pessoas. Então ela reparou bem: o homem na cadeira de rodas não era mesmo o seu Osmar? Mas cadê o Divino? Em vez do cuidador, uma desconhecida parecia acompanhá-lo. E havia uma garota, aparentando uns quinze anos de idade, bem junto à cadeira do seu Osmar.

– Bom dia! Tudo bem? Como o senhor está? – ela disse e sorriu para seu Osmar, esquecendo por instantes o rímel que ameaçava escorrer dos cílios, o batom que se desmanchava nos lábios.

– Como o senhor está?! Tudo bem?! É só isso o que tem pra me dizer? – retrucou um seu Osmar furioso e agressivo. Em poucos segundos, sua cara inchou, vermelha. No pescoço, a veia parecia querer saltar. Levantou um braço, indignado e ameaçador.

A porta do elevador se abriu. Haviam chegado ao térreo. As pessoas em volta da cadeira de rodas foram se atirando para fora. Ficou seu Osmar, sua acompanhante, a garota e ela, completamente paralisada, sem saber que dissesse, mas querendo dizer algo. “O senhor desculpe, é que...”, ensaiou.

– Desculpe meu pai – atalhou a acompanhante do seu Osmar. – Ele está com Alzheimer, não sabe o que diz. Imagine! Destratar uma estranha assim dessa maneira!

Empurrou a cadeira com seu Osmar para fora do elevador enquanto chamava a garota. “Vamos, filha”. Lídia olhou ainda uma vez mais para a mulher, que parecia derretida à sua frente. E pediu, com humildade:

– Desculpe, por favor, sim? Peço que entenda. Meu pai não fez por mal...

 

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