quinta-feira, 26 de junho de 2025

O dragão de São Jorge

Isabel Pires

 

Direi mesmo: que importa, que importa que nunca mais o paraíso volte e que não exista mais (uma vez que o compreendo, digo-vos), apesar de tudo, pregarei o paraíso. (Dostoievski, in O sonho de um homem ridículo)

Era uma vez uma cidade arrasada pela guerra cujos sobreviventes se refugiaram em um trem, única coisa que restou. O trem, que era ao mesmo tempo lar, trabalho, centro de lazer, maternidade e também crematório – os que morriam eram lançados à fornalha, uma vez que se tratava, o trem, de uma velha maria-fumaça –, não parava nunca, autoalimentado que era pelos cadáveres. Seu trajeto era o antigo perímetro da cidade destruída, o que fazia com que a sua viagem circular nunca tivesse fim. Os viajantes do trem estavam condenados a jamais saírem dele, pois a área central – o que havia sido a cidade – estava contaminada por material toxicológico, radioativo, bacteriológico e nuclear. Deixar o trem era morte certa. Mas ficar no trem também. Em pouco tempo, os víveres começaram a se esgotar e os sobreviventes só viam uma saída possível.

E qual era?, perguntei, a essa altura ardendo em curiosidade. 

Depois termino a história, disse ela, espreguiçando-se e bocejando. Neste dia estava bem bonita, com os cabelos vermelhos amarrados por uma tira colorida. Angelina era mesmo diabólica. Nunca terminava as histórias que inventava – e que garantia serem reais –, deixando o final sempre para uma próxima vez. Mas, ao chegar “a próxima vez”, o que ela fazia era começar outra história que não ia ter nenhum fim. Todas as vezes que a gente se despedia, ela perguntava, reforçando aquele olhar apreensivo que sempre me lançava, “você vai ficar bem?”. E eu respondia que sim, que eu ia ficar muito bem, obrigado.

Eu sabia que ela era uma espécie de bruxa. Dada a ler mãos, cartas. Tarô e quiromancia. E, afinal, me sentia grato por ela nunca ter se oferecido para decifrar a minha sorte, minha sina ou meu destino, coisas enigmáticas, com as quais, por algum motivo obscuro, eu pensava que não se devia brincar. Consultar oráculos não era muito a minha praia.

Conheci uma mulher que tinha o dom da terceira visão, começou ela, um tanto séria demais, olhando fixamente para mim. Quando olhava para uma pessoa, podia enxergar como ela seria no futuro. Mas isto era uma coisa que ela nunca comentava com ninguém, comentou minha bruxa particular. E pelo seu tom e o jeito dela me olhar, intuí que, desta vez, aquela história não era uma ficção. A mulher que possuía o dom da terceira visão devia ser ela mesma, e devia ser aquela “terceira visão” que a fazia me olhar daquele jeito esquisito, e, ao mesmo tempo, refleti, meio irracionalmente, que ela deveria estar vendo algo em mim que o espelho do banheiro não me mostrava, todas as vezes em que eu me demorava em frente a ele, me barbeando e penteando. Confesso que sou vaidoso. Confesso também que fiquei ardendo em curiosidade, mas, para não dar o braço a torcer, perguntei, num tom o mais casual e brincalhão que pude inventar, o que era que aquela mulher da terceira visão veria em mim, se acaso me visse.

As verdadeiras bruxas têm lá seus segredos. Ela embarafustou por veredas, sem me responder diretamente. Passou a dar detalhes técnicos, explicando que a “terceira visão” se localizava num ponto equidistante entre os dois globos oculares, e que, na verdade, todo mundo tinha essa terceira visão, não se tratava de nenhuma paranormalidade. Apenas as pessoas não sabiam usá-la. É tão terrível assim o que você vê que não quer me contar?, provoquei. Angelina sentou-se, com aquele olhar apreensivo fixo em mim. “É curioso”. Curioso? Desatei a rir, um tanto descontroladamente. Eu me sentia um objeto de contemplação apenas “curioso”. O que é curioso?, perguntei, frisando bem a palavra que. “É curioso, porque não consigo ver o seu rosto mais velho”. Disse que me via apenas com um sorriso nos lábios e um olhar curioso. É. Ela usou exatamente essa palavra, curioso, para descrever o olhar que via. Curioso. Essa palavra nojenta e ambígua já começava a me dar nos nervos.

A minha bruxa não era uma bruxa profissional, porém. Embora isso não venha ao caso, esclareço que ela ganhava o seu dinheiro com uma loja de papelaria que herdara do pai. E, segundo eu soube, administrava os negócios com mão de ferro. Também tinha uma página mística na Internet: poemas e orações.

Depois daquela confissão, quando a encontrava, estendia-lhe a palma da minha mão direita, em posição de leitura. Ela ria e afastava a mão de si, ou a pegava e colocava em alguma parte do seu delirante corpo. E acabava arrematando tudo com mais uma das suas histórias malucas. Mas um dia Angelina se resolveu. Tomou minhas mãos entre as suas e ficou assim um tempão – apenas segurando-me as mãos. Depois, fitou as palmas das mãos – ambas – longamente. Quando eu ia perguntar qualquer coisa, ela pareceu voltar a si. Soltou-me as mãos, bruscamente, e disse apenas que eu iria fazer uma longa viagem. Uma não, duas. Talvez, várias, corrigiu, meio hesitante.

Na última vez em que a vi, Angelina confessou-me que era ela que iria viajar: vendera a loja, casara e sequer me convidara. Estávamos bebendo um chope no bar do Félix, aonde costumávamos ir sempre. Antes que eu pudesse retrucar algo, Angelina contou mais uma das suas estranhas histórias. A diferença, porém, é que a de agora possuía um fim. Um fim duvidoso, sem dúvida, mas ainda assim um fim. Era a história de um homem que roubava espelhos. Esse homem acreditava que, olhando-se no mesmo espelho que outra pessoa costumava olhar-se, ele descobriria as fraquezas daquela pessoa, seus medos, seus planos, suas crenças e, principalmente, seus segredos mais íntimos e mais terríveis, podendo, em resumo, se apoderar da alma e dos segredos da pessoa. Quando era do seu interesse, o homem dava um jeito de entrar na casa alheia e pegar o espelho. Assim ele venceu boa parte dos seus inimigos e tornou-se muito rico. Até que um dia apaixonou-se perdidamente por uma bela mulher. Desconfiado de que ela o traía, foi em busca do espelho da mulher. Ao se mirar nele, porém, o espelho partiu-se e o homem morreu, sem conhecer, afinal, a verdade que tanto fizera questão de ir buscar.

Alguém já disse que não se pode sair dessa vida com vida. A profecia do oráculo de Delfos – aquele mesmo onde está escrito “conhece-te a ti mesmo” – talvez não tivesse se cumprido, e Édipo não tivesse matado o pai e se casado com a mãe, se ele não tivesse, também, começado uma viagem. Estou perdido, pensei, enquanto eles me levavam para o carro, encostando algo como um cano de revólver sob a minha camisa. E, como os nossos pensamentos nem sempre obedecem à lógica e ao bom senso, admiti também que havia sido um sequestro-relâmpago – se é que era sequestro, e se é que era relâmpago – perfeito. Ninguém no bar percebera coisa alguma, distraídos certamente pelo quebra-quebra, os espelhos em pedaços, cadeiras e mesas reviradas. Quando saímos de lá, eles me segurando firme com suas mãos enormes, devíamos parecer apenas velhos amigos.

Uma bela manhã um homem acordou. Enquanto esfregava os olhos e se espreguiçava, percebeu que se mover na cama era algo inexplicavelmente penoso. Com extrema dificuldade, levantou-se, e só então, ao fincar as quatro patas no chão, acompanhadas de uma bela crina e um longo rabo, se deu conta de que agora era um centauro. Por mais razões que buscasse, o homem não compreendia o que se passara. O cavalo parecia nada querer entender, mas, sentindo-se aprisionado, levantava as patas e se agitava, destruindo o quarto à sua volta. O homem sentiu-se aterrorizado. Como sair do quarto naquele estado? Como não sair, mantendo o cavalo preso num cubículo, apertado para qualquer homem normal? Com esforço, ele passou todo o dia, na esperança de que a noite chegasse logo quando então talvez pudesse dormir, e talvez então sonhasse, e o seu sonho finalmente o despertasse de tal pesadelo.

E, se na manhã seguinte, acordasse novamente centauro, o que faria?

Enquanto um dos meus sequestradores dirigia tranquilo aquele estranho carro todo branco, pensei que a viagem deveria ser longa, como Angelina, afinal, havia previsto. Tentei fechar os olhos e adormecer. Quem sabe, não estaria sonhando, e, dormindo, acordasse daquele pesadelo? Ou, quem sabe, eu não seria apenas um personagem de uma das histórias de Angelina, e não passasse, portanto, de mera ficção?

O carro avançava noite adentro pela estrada comprida, mas eu não conseguia pregar o olho. Emendo. Não sei se dormi ou não. Só sei que, depois de algum tempo, o carro estacionou em frente a um prédio enorme, um edifício de segurança máxima, cheio de guardas, cercas eletrificadas, detectores de metal, câmeras. Principalmente câmeras. Finalmente entramos. Havia muitas mulheres, todas metidas em aventais brancos, de toucas brancas. Até os sapatos e meias eram brancos.

Numa cidade longínqua, um homem perdera seu grande amor. Havia sido um equívoco, um lamentável mal-entendido, ela disse, e se foi, sem dar maiores satisfações. Deixou para trás pequenas coisas que dizia amar: alguns vasos de plantas, os CDs com as canções preferidas, os livros. Um porta-joias de metal, sem joias, em formato ovalado, forrado de cetim vermelho e com um laço de fita de metal dourado incrustado na tampa contornada por pequenos frisos. Sobretudo uma gata de olhos cinzentos, lânguida e arisca, chamada Gitana. O homem caiu em profunda melancolia. Sua voz tornou-se um fiapo lamentoso, mesmo quando aparentava não lembrar dela. Quando parecia quase conformado, deu para enxergar, em todas as mulheres à sua volta, o rosto da amada. Não eram bem os traços fisionômicos. Era mais o jeito de olhar. O mesmo jeito que o enlouquecera de paixão. Impossibilitado de amar todas ou escolher uma, ele arrastava o seu viver, enquanto, devagar, enlouquecia.

Quando abri os olhos, Angelina sorria para mim à cabeceira da cama, enquanto outra Angelina me aplicava uma injeção que, apesar do tamanho da agulha, não doeu nada nada, e outra Angelina, ainda, entrava no quarto carregando uma bandeja. Apenas quando as Angelinas falavam a ilusão se desfazia, e eu ficava com a sensação angustiante de que a minha Angelina talvez sequer tivesse existido um dia.

Mas como lembro tão perfeitamente das histórias que ela contava?

Sei que nunca mais serei o mesmo. Tenho comigo apenas as lembranças das histórias de Angelina. Sei, também, que ela não era nenhuma miragem. Lembro de cada detalhe do seu corpo, do seu rosto salpicado de pequenas sardas, os dentes muito brancos irrompendo subitamente das gengivas cor de morango, quando ela sorria. A gente costumava frequentar o bar do Felix, lembra? Aquele bar cheio de espelhos. Muitos espelhos. Amigos em comum, todo mundo nos via, não nos viam? Sei que existimos juntos sim, eu e Angelina.

E sei que, aqui, não terei sequer as histórias de Angelina para lembrar, porque já não tenho, cada vez mais, a lembrança da própria Angelina, isto é, do seu cheiro, da sua pele. Não saberei mais como era o seu sabor, nem o gosto de suas lágrimas. Já não sinto mais como meus os seus projetos, tão ingenuamente ambiciosos, nem os seus espantos, os seus espasmos. As suas tristezas e as suas alegrias.

Embora jamais tocassem no assunto, percebi que eles – aqueles homens sisudos, sempre vestidos com jalecos brancos, que todos os dias iam me ver – me preparavam para uma longa viagem. Claro, era isto. Como não desconfiei antes? Eu iria navegar infinitamente pelo espaço interestelar, às vezes pousando ora aqui ora ali, em mundos longínquos, numa errante viagem cósmica. Ou talvez eu estivesse destinado à lua, e talvez pudesse dizer, ao chegar lá, não sei se poética ou pateticamente, porque não sei se me sobraria humanidade possível, que “a terra é azul”. Eu, o escolhido, afinal.

Certa feita, ao visitar uma tribo distante, um xamã dera-lhe um pouco da poção mágica, que ele usava gota a gota, secretamente. A poção o fazia viajar sem sair um milímetro do lugar. Dos diversos mundos que ele conhecera, nessas viagens inimagináveis, um ele escolhera para sua futura e definitiva morada. Nesse mundo, os habitantes tinham longas cabeleiras azuis, eram dourados e prateados e não usavam roupa. Apenas uma luz diáfana os envolvia, e eles eram extremamente suaves e pareciam em eterno êxtase e devaneio. Quando ele achou que era chegada a hora da partida, descobriu, porém, que a poção mágica havia desaparecido.

Não, não se tratava de viagens espaciais, concluí finalmente. Eles me preparavam para viagens no tempo – ou, possivelmente, “nos tempos”. Por que não? Física quântica, precisões atômicas de tempo, medidas holográficas... Coisas misteriosas e profundas a que os pobres mortais não têm acesso. Apenas os escolhidos.

Sei também que serão generosos comigo, pressinto. Certamente me deixarão escolher uma companhia. E então lhes falarei de certa contadora de histórias, de cabelos ruivos e olhar brilhante. Cercado por minhas Angelinas, aguardarei ansioso a chegada dela. Mas não sei se algum dia eles a encontrarão.

*** 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Crônica de um sábado de verão

Isabel Pires


Não pode um cristão dormir um pouco mais numa manhã de sábado? Era o que me vinha à mente, ainda entorpecida, enquanto olhava os números do alarme-despertador, que exibiam, na penumbra do quarto, seis horas e dois minutos da madrugada! Contudo, o despertador não tocava sozinho. Junto com ele, a campainha do telefone berrava estridente num dueto infernal. E a segunda coisa que me veio à cabeça foi uma ideia funesta. Algo de terrível tinha por força de ter acontecido, para justificar a insistência daquela campainha àquela hora da manhã. Atendia ou não? Como aquele troço não parasse, resolvi ver afinal do que se tratava. “Alô? Querido? Já está pronto?”. A voz meiga de Lina era um balde de água fria nos meus ouvidos. Como poderia ter esquecido? Eu era mesmo um animal. Um monstro. “Cla claro querida. Daqui a dez minutos? Tudo bem”.

Como eu ia disfarçar o gosto de sola-de-sapato-cabo-de-guarda-chuva na boca, eu não fazia a mínima ideia. Como aquilo acontecera comigo, eu conseguia explicar. Só um asno poderia sair para um happy-hour com a turma do trabalho – a mesma com a qual eu passava oito horas por dia, quarenta por semana – e chegar em casa às... Bem, isso não importava agora, mas apenas chegar na casa da Lina em... Cinco minutos?

Sentei-me desolado na beira da cama, tentando lembrar onde foram parar as chaves do carro. Felizmente, havia um spray para garganta no armário do banheiro. Enfiei-me numa roupa qualquer e fui dirigindo com a janela do carro bem aberta. Isso justificava o cabelo desgrenhado, a roupa amarrotada. Sorri comigo mesmo, envaidecido da minha própria inteligência.

À porta do prédio, de mala em punho, bolsa, sacola e laptop, Lina me recebeu com um sorriso do tamanho do mundo, e, enquanto colocava toda aquela tralha no banco traseiro, confessou que estávamos meia hora adiantados. Devo ter sorrido muito amarelo, porque ela me perguntou se eu havia tomado café da manhã. “Está com fome, querido? Pobrezinho!” Deu-me as chaves do seu apartamento e insistiu para que, na volta, eu passasse por lá. Havia me preparado uma bela surpresa. “Claro que você vai gostar!” No saguão do aeroporto, Lina notou-me a palidez, o mutismo. E interpretou tudo como saudades antecipadas dela. “Volto logo, querido. Só uma semana...”. Eu só pensava em voltar correndo para debaixo das cobertas.

Depois do check-in, Lina finalmente me liberou, não sem antes me fazer prometer que sim, que quando saísse dali eu iria direto ao apê dela.

Enquanto dirigia, o vento fresco da manhã revigorando-me, começava, de fato, a sentir saudades da minha doce Lina. Pouco a pouco, também a curiosidade começava a me dominar. Afinal, não custava nada dar uma passada por lá.

Era manhã de sábado. O trânsito fluía. Os poucos motoristas também fluíam, sem prestar muita atenção ao sinal. Verde, amarelo, vermelho, que diferença fazia? Eu ia sem pressa, parando em algumas esquinas.

Devia estar pensando ainda em Lina e na “bela surpresa” que me aguardava, porque não percebi logo que as buzinadas ao lado eram comigo. Só quando o motorista bateu na minha janela é que tomei conhecimento dele. Dele, da mulher e dos dois filhos, que me olhavam cheios de interesse e, provavelmente, com segundas intenções. Era o meu primo Maurício. “Está indo a algum lugar? Bom... Estamos indo a um churrasco, não quer vir com a gente?”. O sinal ficou verde e o carro do Maurício não saía do lugar. Acabou dizendo que foi mesmo muita sorte ter me encontrado. “E?...” O que eu temia aconteceu. A prima Roberta me olhava sorrindo, um sorriso quase do tamanho do sorriso da Lina. “Como não?”. “Com o maior prazer”, atravessei a cidade para ir buscar o casal de velhinhos, avós de Roberta. Era aniversário de alguém e insistiam para eu ficar. Churrasco, piscina. Nada mau para uma manhã de sábado. Maurício arranjou-me um calção de banho e eu fui me deixando ficar ali. Tinha tempo que eu não pegava uma corzinha.

Entre um mergulho e outro, sempre dando um jeito de devolver o tapa de água recebido dos garotos, lembrava da surpresa da Lina e sentia remorsos. Depois, olhava os dois velhos, sentados placidamente à sombra, com seus chapéus brancos de largas abas, e sentia mais remorsos. Mas, definitivamente, eu não iria levá-los de volta. Lá pelas duas da tarde, arranjei um pretexto para escapulir, apesar da insistência da mãe de Roberta para que eu ficasse. Disse que não podia, tinha um encontro com a Lina, ia almoçar com ela. “Aliás, estou até atrasado...” A velhinha, até então quieta, levantou a cabeça um tanto surpresa. “Mas a Lina não viajou? Você não foi levá-la ao aeroporto?”. Emendei-a, constrangido e percebendo que ela anotara tudo da nossa conversa no trajeto para o churrasco. “Como? Não, Lina ainda vai viajar. Depois que almoçarmos”. Enquanto eu terminava as despedidas, a velhinha fez cara de poucos amigos e, intimamente, deve ter me rogado algumas pragas. Ao lado dela, o velhinho dormitava, indiferente. 

Era um breakfast o que Lina havia me preparado. Simpáticos crisântemos repousavam ao lado da jarra de suco e da leiteira. Torradas, queijo, presunto. Geleia, biscoitos amanteigados. Pão francês. Tudo murcho. O ar recendia a mamão e a laranja azeda. Sob o açucareiro, um bilhete carinhoso de Lina, escrito num delicado papel, ornado de flores e corações.

Sorri um pouco, sem compreender muito bem a finalidade da estética romântica que presidia tudo aquilo, e que, aparentemente, não combinava em nada com a doutora Idalina Carvalho. A propósito, ela havia embarcado para um simpósio de advogados criminalistas, que ia se realizar em Porto Seguro. Enquanto mastigava uma torrada ressecada em excesso e esvaziava a jarra de suco e a leiteira dentro da pia da cozinha, senti-me, mais uma vez, um monstro inominável. Paciência. Sobretudo, eu deveria ser paciente comigo mesmo. Dobrei com cuidado o bilhete e guardei-o na carteira.

Escolhi uma música da playlist da Lina para escutar debaixo do chuveiro. Titãs. Só os Titãs salvam. Enquanto esfregava o xampu da Lina no cabelo, escutava a voz poderosa do Arnaldo Antunes a plenos pulmões: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Súbito, a campainha tocou. Eu ainda estava na metade do banho e a campainha tocando, sistemática e pausadamente, uma duas três vezes. Quem seria? Enrolei a toalha na cintura e fui atender.

De dentro de suas bermudas, um garotão com pinta de surfista sorria, com uns dentes meio exagerados e muito brancos. “Não, a Lina não está”. “É que, bem, a minha avó...” Ele parecia meio desconcertado. E os Titãs: “Cabeça cabeça cabeça de dinossauro”. Por fim, o garotão conseguiu se explicar: viera convidar a Lina para a missa de sua bisavó, que morava no apartamento em frente. Lembrei do aviso dentro do elevador, referente a uma missa que seria celebrada pela passagem dos cem anos de alguma senhora do prédio. Com efeito, por trás do garoto, pude ver a velhinha sendo retirada de casa em sua cadeira de rodas. “Bom, cara. Vai rolar um bolo lá mesmo, no salão de festas da igreja. Se quiser, aparece por lá”.

Aquele era o sábado dos aniversários. Declinei de mais este convite. O garoto não insistiu, afinal, e eu voltei aos Titãs. “Família, família. Papai, mamãe, titia”.

Uma ligeira azia e a movimentação do apartamento em frente, cujos ruídos pareciam penetrar por debaixo da porta, tiravam-me qualquer concentração. A cabeça começou a latejar. Imóvel, esticado no sofá, escutei a última música da playlist: “É que a televisão me deixou burro, muito burro demais”. 

A televisão! O controle remoto estava ali mesmo, ao alcance da mão. Bastava apertar um botãozinho de nada. Televisão relaxa, afinal de contas. E a da Lina é das grandes. Sessenta polegadas de imagem colorida em 3D invadiram o espaço num blablablá infernal que me aumentava a dor de cabeça. Abaixei o volume até deixá-la muda. E troquei a playlist. Agora sim, podia relaxar, escutando Caetano com aquele cenário todo colorido. Parecia um show. 

Não estava com a mínima disposição para dirigir de volta pra casa, e assim fui ficando no apê aconchegante da Lina, sem a Lina, porém. O relaxamento com música, televisão e sofá pode ser que fizesse efeito, era o que eu esperava. Enquanto isso, mudei para a playlist internacional, sempre com as imagens coloridas ao fundo. Rolling Stones, Supertramp, Dire Straits, Yes. Com tais canções de ninar, acalentadas pela tevê completamente muda, acabei cochilando. Ou melhor, dava cabeçadas para logo ser bruscamente acordado por uma bateria mais pesada ou uma guitarra mais estridente. Até que a música cessou e peguei no sono de vez. 

Não tenho ideia de quanto tempo depois fui acordado por uma voz estranha que me sussurrava aos ouvidos. Sussurro nada. Era uma voz grandiloquente. Visceral, eu diria, se não fosse tão impostada. Quando abri os olhos, Cid Moreira olhava fixo para mim, de dentro da tela da tevê: “No princípio era o verbo e o verbo estava com Deus e o verbo era Deus”.

Que história era aquela? O que o Cid Moreira estava fazendo na televisão da Lina? Mas ele, impassível, continuou: “Ele estava no princípio com Deus. Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro”. Como eu não reagisse, ele colocou as mãos na moldura da tela, como se fosse sair de lá. Foi o que fez. Quando percebi, ele já havia passado uma das pernas para o lado de fora, e estava prestes a passar a outra, enquanto dizia: “Estamos de olho!”. Foi aí que eu reagi. De um pulo, saltei do sofá, abri a porta e saí em desabalada carreira pelo corredor, enquanto a toalha que me cingia a cintura caía no chão, juntamente com os óculos 3D da televisão da Lina. Antes de alcançar as escadas, completamente nu, ainda vi a cara, lambuzada de glacê branco, da velhinha dos cem anos, que estava sendo removida de volta para casa. 

*** 

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O guarda-chuva verde

 Isabel Pires

 As duas velhas iam andando pela rua, com passos que pareceriam incertos, mas que, na verdade, eram passos de quem já perdeu toda a pressa das coisas do mundo. Chovia uma chuva fina, e elas seguiam, muito unidas sob o mesmo guarda-chuva. Confusa, a mais velha das duas velhas procurava entender, sem sequer se lembrar, como perdera o seu guarda-chuva. Coisa impossível, pois se até os moços não explicam como guarda-chuvas se perdem a toda hora, sobretudo em dias de chuva.

Pararam na banca do camelô. A velha menos velha insistia na compra de um guarda-chuva para a outra velha, que relutava, ainda mais confusa. Mas estou sem o dinheiro. Não faz mal. Não disse que, qualquer dia, lhe compraria um guarda-chuva novo? Pode escolher. A velha mais velha piscava para os guarda-chuvas na barraca, enquanto o camelô, paciente, esperava. E porquê já viveram até o ponto de perder a pressa, e de saber, que, agora, eram os outros que deveriam esperar por elas, as velhas escolhiam o guarda-chuva devagar. Devagar caía uma chuva rala.

Finalmente, seguiram pela rua cheia de guarda-chuvas em direção ao ortopedista. A mais velha das duas velhas sentiu a falta do corpo da outra velha amparando o seu. Contudo, o braço dela ainda a enlaçava pela cintura, e as duas seguiam, os guarda-chuvas bailando sob a chuva fina.

Com espanto e dor, subiram cada degrau. O que são as dores todas do mundo, quando duas velhas sobem cinco degraus? O ascensorista, solícito, as aguardava.

Outros velhos, muitos velhos, enchiam o consultório de ortopedia. Cada velho que levantava, que saía – e outro velho segurava longamente a porta – parecia que o mundo parava.

As duas velhinhas, sempre unidas, seriam as últimas. O médico atendia por ordem de chegada. A lentidão da velhice atrasava o atendimento. E quando parecia não ter mais fim a espera, a recepcionista encontrou, ao lado das velhas, um guarda-chuva abandonado. Negro, bem negro, não era delas, e de mais ninguém. Na sala de espera do consultório, não havia mais nenhum velho, além delas duas, que já se dirigiam ao médico.

— O que faço, doutor? Mais um guarda-chuva perdido. 

À soleira da porta, a recepcionista segurava incólume o objeto extraviado.

— Agora é moda, minhas senhoras. Semana passada, encontramos um também.

— Por acaso era verde?, arriscou a velhinha mais velha.

Meio comovido – porque, apesar do trato quase diário com aqueles seres que ainda não foram, mas também já não eram, meros ossos porosos a serem examinados, ele ainda guardava a capacidade de, pelo menos, querer se comover –, meio comovido, o médico mandou a recepcionista buscar o guarda-chuva verde. Mas a moça, pigarreando, explicou que o havia deixado na portaria. Era só pegá-lo, quando por lá passassem.

Na saída, a velhinha foi em busca do seu guarda-chuva verde. Atencioso, o porteiro prontamente se dispôs a pegá-lo. Que pena. Não é esse, não. Esperem, tem outro. E é verde também. Do cubículo escuro ao lado do balcão, o porteiro emergiu segurando o guarda-chuva verde. E, embora verde, também não era aquele o guarda-chuva agora já ansiosamente esperado.

Um momento! O porteiro, nesse instante, tornou-se involuntariamente autoritário, fazendo com que as velhas suspendessem o passo. Das entranhas do cubículo escuro agarrado ao balcão, o porteiro retirou quatro guarda-chuvas. Um verde-claro, um verde-escuro, outro verde-petróleo e outro, ainda verde, xadrez. Nenhum, porém, ostentava o friso dourado, a alça intacta. Nenhum deles era de pequenos pontos vermelhos salpicado. Eram verdes e eram guarda-chuvas. Mas nenhum era o guarda-chuva verde, para sempre perdido. Perdido para sempre.

Chegando à rua, a chuva já havia ido embora. Guarda-chuvas debaixo dos braços, as duas velhas seguiam mais lentas, mais unidas, mais inseparáveis. Acima de suas cabeças, resplandecia um céu recém-lavado. 


***

domingo, 22 de junho de 2025

A janela

Isabel Pires


Descobriram por acaso uma infância quase em comum: haviam frequentado a mesma praia, agora tão distante no tempo e no espaço. Esse fato as tornava um pouco mais próximas, mais íntimas. Ficaram contentes com a novidade. “Amigas de infância, afinal...

Seis, sete anos de idade?

Se tanto...

Vai ver, a gente brincava junta, e nem sabia...

Pois não é?...

No retângulo azul-escuro do tapete, os dois rolavam ferozes, esganando-se mutuamente, em ódio visceral.

Corre, que eles vão se matar.

A troco de quê estão brigando assim, gente?

Parem com isso, já.

Pronto. O quê? Ah, sim. Deixa ele um pouquinho também, tá?

Tudo bem?

Tudo...

Os meninos sossegaram em frente ao videogame.

Um controle só é complicado.

Dá briga.

Se dá.

As ondas verdes e quentes balançando no mar. Na praia, sal, areia, céu azul, vento.

Tubarão...

Que cê disse?

Eu? Nada não. E o café?

A cozinha parecia pouco amigável, mergulhada numa meia-penumbra excessivamente fresca, que o clarão instantâneo da lâmpada só conseguiu aquecer aos poucos. Dentro da chaleira, as bolhas espocavam como fogos. Ou pipocas. Dava para ouvi-las perfeitamente.

Os meninos?

Correram para a sala. As almofadas brancas, salpicadas sobre o azul escuro do tapete, pareciam pequenos blocos de gelo sobre um pedaço quadrado de mar imóvel. O sofá, geleira branca à beira desse mar, vazio. Na tela da tevê muda, um carro capotado, fumaça, sangue, fogo.

Cadê eles, santo Cristo!

A porta escancarada denunciava a travessura. As duas à janela, ansiosas. Os vidros das janelas das casas miniaturizadas, amontoadas em frente, soltavam faíscas vivas, como lavas incandescentes. Barraco mesmo, de parede de madeira e teto de zinco furado, daqueles que, à noite, coavam estrelas no chão, quase não se via mais. Aqui e acolá, um prédio rapidamente erguido em uma semana, às vezes, menos. Dois, até três andares. Tudo calmo. Vez em quando, um galho se agitava. Uma bola? Um olheiro? Finalmente, os meninos despontaram no play, logo abaixo.

Subir agora.

Mas mãe...

Já.

Pô, mãe, deixa.

Só um pouco, tia, vai.

Só um pouco então.

Tá.

O café!

Na cozinha, um vapor forte se despendia da chaleira, o açúcar quase virando melado no fundo.

Então, e a praia? A gente ia lá sempre... nas férias...

Pois é, nós também. Antes de morrer, meu pai quis porque quis ir para lá. Ninguém tirava da cabeça dele essa ideia. Vendeu a casa, comprou um apartamento. Minha mãe dizia apertamento. Mas fez a vontade. Ficou quase um ano lá. Até morrer. Mas para ela sozinha, dá, né?

O quê?

O apertamento...

Ah, é.

O pão era de mais de meia hora atrás.

Quer que esquente?

Não precisa...

Na sala, o caos recomeçou. O carro correndo feito louco fugindo dos bandidos. Ou seria da polícia? No caminho, a destruição: muros derrubados, pedestres atirados para fora como bonecos sem vida, postes arrancados. Um motoqueiro voou com moto e tudo, bateu na amurada da ponte antes de cair no mar metálico da tecnologia.

Atira, atira!

Não dá!

Foge então.

Game over

Agora sou eu!

Calma gente.

De novo?

Não tem um jogo menos violento?

Quem foi que deu esse jogo a vocês?

O menino concentrado, apertando os botões de comandos, xis quadrado círculo. Direita esquerda subir descer.

Entra no avião.

Não dá, cara. Calma aí.

A faca cortava implacável o queijo-minas, enquanto as lembranças iam emergindo aos poucos, em pedaços teimosos.

Meu pai sempre buscava a gente na escola, eu e minha irmã. Segurava forte nossas mãos, que era para a gente não correr, imagina. Eu ia amassando com a conguinha azul as folhas secas que encontrava pelo caminho. Minha irmã, pendurada do outro lado do meu pai, tagarelava coisas que ninguém entendia. Quando ela ficava quieta, meu pai assoviava uma música comprida comprida, até a gente chegar em casa.

O rá-rá-tá-tá eletrônico da metralhadora virtual recomeçou na sala.

Joguinho chato esse, hein?

É... mas pelo menos a gente sabe que eles estão lá.

E você?

Eu? Ah! Quando saía da aula, eu ia correndo pra casa. A molecada toda se mandava, rua abaixo, rua acima. A aula acabava às cinco em ponto. E ninguém queria perder um seriado antigo, que passava justo nesse horário. Todo mundo correndo feito doido, pra não perder o começo.

E nossas mães reclamavam, hein?

Riram, enquanto o tiroteio prosseguia implacável na sala, pum-pum.

Uma das mães alteou um pouco a voz, o rosto virado em direção à sala.

Fizeram o dever?

Hã-hã.

Riram de novo.

É?... não quero dever saindo da mochila às dez horas da noite, hein?

Tá!

O meu, deixa sempre para as dez da manhã do dia seguinte. Um caos!

Na sala, o caos se intensificava mais, insuportável. Os tiros quase se confundiam com tiros de verdade, rá-tá-tá, pum-pum, pac-pac, até que de repente cessaram.

A cozinha agora era agradável, iluminada e quente. O café escorreu para dentro das xícaras, grosso, preto, forte. Aconchegante. O cheiro espalhou-se pela casa.

Bom...

Estão quietos...

Mais uma mordida no pão farto de queijo, um gole de café preto, bem preto.

Quer leite?

De jeito nenhum!

Mais café, então.

Vou pegar manteiga.

Tá.

A geladeira, imponente, tomava conta da cozinha, toda branca. Abriu-a, à procura da manteiga. Abaixada, distraída, consultou os pequenos.

Querem iogurte?

Silêncio.

Ela fechou a porta da geladeira devagar.

Ei vocês, querem iogurte?, repetiu mais alto.

Elas se entreolharam, meio assustadas.

A janela! A janela!

Meu Deus!

A maldita janela! Desde que foram morar ali, receava a janela, bem de frente para o morro, onde não tinha hora para haver troca de tiro entre bandidos e polícia, entre polícia e polícia e bandidos e bandidos. Inútil pedir ao marido para mudar a disposição dos móveis na sala, deixando a tevê bem de frente para a janela, em vez do sofá.

Sem coragem, aproximaram-se pé ante pé da sala, o coração saltando na boca, perturbadas, sem cor.

Uma rajada de vento meio frio sacudia de leve a cortina de tecido transparente que emoldurava a janela. A tarde desmaiava, um alaranjado sem fôlego tomando conta de tudo. Os meninos, muito quietos no sofá, liam, cada um, seu gibi, esquecidos do videogame.

Ah!

Abriram um sorriso largo, entreolhando-se mutuamente, mal disfarçando a comoção.

Voltaram para a cozinha.

Pois é, na minha época, gibi, nem pensar.

Minha mãe também proibia, mas meu pai às vezes comprava, e a gente lia escondido.

E voltaram ao café, eternamente recomeçado. 

 

***

 


sábado, 21 de junho de 2025

Domingo, maio

Isabel Pires


O marido acordou esquisito. A mulher também, mas quis fazer tudo como de costume. Errou, porém, a quantidade do pó, e o café ficou perdido, o que aumentou o constrangimento do homem, a xícara quase intacta esfriando sobre a mesa da cozinha, enquanto ele desdobrava o jornal à cata de alguma notícia alarmante, alguma catástrofe natural de grandes proporções, um escândalo público, um crime hediondo. Algo que pudesse abafar o grito dentro do peito. Sem mágoa, silenciosamente a mulher retirou a xícara cheia de café bem preto da mesa. Lá fora, os pardais rejubilavam-se ao sol claro da manhã de domingo (era domingo), e o homem lembrou-se de ir para a frente da casa, para aquecer-se um pouco ao sol branco do outono (era maio). Largou o jornal sobre a bancada de alvenaria que contornava o pequeno jardim e sentiu a necessidade que as plantas tinham de serem regadas, o frio seco crestando as folhas das roseiras cultivadas com tanto esmero pela mulher.

Na cozinha, ela lavava a louça do café, enquanto pensava no que fazer para o almoço. Almoço de domingo. Há quanto tempo não sabia mais o que era isto? Ela e o marido eternamente de dieta. A filha caçula, a única que ainda morava com eles, tinha ido dormir na casa do noivo, não iria aparecer antes das sete da noite. 

Na frente da casa, empunhando o velho regador de plástico azul cheio d’água, o marido molhava as plantas, sentindo-se meio deslocado nesta tarefa. O carro verde-escuro descansando na garagem, num domingo verde-claro como aquele. Até que ele se cansou e entrou. Desajeitado, sentou-se novamente à mesa da cozinha, observando a mulher abrir e fechar as portas dos armários e da geladeira, fazendo limpezas desnecessárias. A mulher olhou para ele. E viu-lhe as olheiras, que denunciavam as noites mal dormidas, as idas e vindas constantes ao hospital, a espera infindável do desfecho que parecia não querer vir nunca. Viu os olhos muito azuis dele, herança da mãe, marejarem um instante, desamparados, e sabia que tudo que dissesse não poderia servir, em absoluto, de consolo. Aproximou-se dele e apenas pousou a mão em seu ombro.

O telefone tocou. Era a Zélia, avisando que iria render a Carmem junto ao leito da mãe. Não, não havia nenhuma novidade. A não ser aquela espera desesperançada que Antônio, o filho mais velho de Dona Clotilde, sessentão já, não sabia mais como suportar. Ele voltou ao jardim e, enquanto observava as gotículas que escorregavam mansamente pela pele das rosas recém-aguadas, reviu, nítido, todos os domingos passados na casa da mãe, que, agora, agonizava no hospital. Reviu o dia em que levara, orgulhoso, seu primeiro neto para a mãe conhecer. O segundo neto. E o terceiro. As irmãs, mais novas que ele, também levavam aos poucos os seus próprios netos. E os bisnetos da Dona Clotilde se multiplicavam. As comidas sobre o fogão também. Enormes panelas onde a velha depositava suor e amor, no sagrado almoço do domingo na “casa da vovó”.

— Meu filho, cadê a Tereza?

— Ela não vem, mãe. Foi para a casa do pai dela, não lembra?

Dona Clotilde se inquietava um instante, os olhos extremamente azuis piscando muito, perturbada. Depois, a ausência de Tereza ia se diluindo pela tarde cheirando a biscoito de polvilho assado com açúcar e canela e café fresquinho. A criançada desafiando o cachorro preso no fundo do quintal.


À beira do jardim bem cuidado, Antônio revia a mãe se enrugando lentamente, os olhos azuis perdendo o viço, o cabelo virando um chumaço de algodão. Era como um espelho para ele, que também se ia encolhendo, a calva cada vez mais calva, os músculos flácidos, problemas de saúde de toda sorte, colesterol, diabetes, pressão alta. O diabo. O tempo infiltrava-se em sua arquitetura e provocava vazamentos por todos os lados. O edifício ruía. Via a mãe se desfazendo lentamente. “Meu filho, meu filho. Meu filho!”. E o mundo à sua frente também se desfazia numa mancha colorida em que as rosas vermelhas, amarelas e brancas do jardim subitamente se fundiam contra o fundo verde. Antônio chorava.

***