Isabel
Pires
Seus olhos cristalinos atravessavam os objetos como querendo arrumar-lhes os sentidos. Tudo metodicamente disposto, sobre a mesa higienicamente arrumada.
Fora, durante boa parte de sua vida, um burocrata numa grande empresa, e tal experiência como que
se aderira à sua personalidade, confundindo-se com sua própria pele. Durante esse
período, desenvolvera a capacidade de tornar-se invisível. No escritório,
chegava sempre cedo, antes dos outros, e tomava seu cafezinho, sem açúcar e sem
estardalhaço.
Trabalhava. Sim, trabalhava, embora procurasse não se mover em demasia, tudo bem ao alcance das mãos. Nas suas, é verdade, raras ausências, quase ninguém notava a diferença entre ele estar lá, sentado em sua cadeira almofadada, ou não estar. Não que não fosse grande. Alto, de longos braços e mãos imensas e brancas, quase vermelhas, chamava a atenção quando circulava pelos corredores, em direção ao banheiro ou à copa. Por isto, limitava essas idas e vindas tanto quanto pudesse.
Falava pouco, pausado e em tom sempre moderado. Como conviria a um homem invisível. Talvez não se lembrasse quando começou a desenvolver esta capacidade, nem a partir de que premente necessidade – pois é sempre para satisfazer alguma necessidade que uma determinada técnica é desenvolvida. Mas logo percebeu a vantagem do negócio, e a ele aderiu completa e irrestritamente, ainda que comedidamente.
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