Isabel Pires
Passava das três da tarde quando a família, vinda da Tijuca, chegou à praia, lotada, do Arpoador. Barracas e cadeiras de lona plástica disputando os mínimos espaços nas areias congestionadas. Àquela hora, ninguém parecia querer arredar pé dali: verdadeiros “ratos de praia”, chegaram cedo e não pretendiam sair antes que os últimos raios de sol se enterrassem lá para os lados do Dois Irmãos.
O mais novo da família recém-chegada às areias, cinco anos incompletos, partiu em direção à água, enquanto a matrona desabava seus 80 anos de praia na cadeira sob a barraca.
Verão praticamente sem chuvas no Rio, para a felicidade de mineiros, paulistas, argentinos e cariocas. Há muito tempo não se via uma estiagem tão prolongada, um Rio tão 40 graus como nesse verão. Aqui e acolá, uma mãe de biquíni com as mãos na cabeça, a incerteza corroendo a consciência: o filho (ou filha) perdeu-se? Afogou-se? Foi sequestrado(a)?! E de repente, para alívio geral, a criança é encontrada. Indiferente, o menino, ou menina, não parece compreender a agitação à sua volta, as lágrimas da mãe, as recriminações e felicitações dos banhistas. Não entende nem mesmo o picolé, que ganha como uma espécie de prêmio. E todos voltam à monotonia das barracas, um ou outro fiapo de conversa rolando solto no vento.
Era por volta de quatro da tarde quando o rapaz muito branco, barba por
fazer, perguntou à matriarca da família tijucana, que descansava sob a barraca
azul, se poderia deixar ali suas coisas, enquanto dava um mergulho. “É só um
instante. Vocês já estão indo?”.
— Pode ir, filho. Não se apresse. Não vamos sair daqui agora.
O moço deixou as coisas aos pés da matriarca: bermuda e camiseta
enroladas e, entre elas, visíveis, o celular e a carteira com os documentos.
Também havia o par de chinelos, que uma das filhas recolheu para debaixo da
cadeira. “Melhor colocar tudo aqui embaixo. Vai que tem arrastão!”.
— Não estão mesmo indo?, certificou-se
ele.
— Não. Também acabamos de chegar, disse, com ar cúmplice, a outra filha, saboreando sua cerveja gelada.
E ficaram, mãe e filhas, especulando um
pouco de onde o moço seria, até que se esqueceram dele por completo.
O genro chegou, no mesmo instante em que o rapaz, já menos branco, retornava da água. “Será que vocês poderiam olhar minhas coisas só mais um pouco?”.
— Fique à vontade, reafirmou a
matriarca, enquanto o rapaz, agradecendo muito, zarpava em direção ao mar.
Os preços na praia estavam “surreais”, a nova moeda desse verão, mas nem por isso os ambulantes dos isopores de latinhas de bebidas eram menos requisitados. Surreal também era a água do mar, geladíssima, sob um sol de 40 graus. Efeito, talvez, do aquecimento global. Quem sabe, as calotas polares, em processo de derretimento, enviassem suas águas geladas para a orla carioca? O fato é que os banhistas que se aventuravam no mergulho deviam se sentir como uma lata de cerveja boiando dentro de um isopor cheio de gelo.
Foi quando o pai e o filho mais velho
foram mergulhar que a ventania começou, ameaçando levar a barraca que a
senhora, com seus 80 anos de idade, agarrava vigorosamente. Uma das filhas
ajudou a fechá-la. Em volta, muitos acompanharam o movimento e, em pouco, a
praia era um deserto de barracas fechadas.
O garoto, ao retornar da água com o pai, não aprovou a ideia: “O cara vai se perder, se a gente fechar a barraca”.
— Cara? Que cara?!
— É mesmo! O cara do mergulho. Vocês o viram na água?
A família já preocupada, imaginando o pior: “Será que ele se afogou?”.
— Que nada, foi só dar uma volta. Daqui a pouco ele vem.
Reabriram a barraca. E nada do moço aparecer.
Quem apareceu, majestoso, foi o pôr do sol, paralisando a todos para uma
justa reverência. Já começava a escurecer. E a família toda postada em volta do
celular do moço, à espera de uma chamada que nunca vinha.
Que fazer: ir embora ou esperar mais um pouco?
— Vamos levar as coisas. Com certeza, ele vai fazer contato, vai ligar
para o próprio celular.
Já estavam enrolando a barraca e fechando as cadeiras, decididos, quando o filho apontou, há alguns metros atrás deles: “Olha, pai”.
Era o moço? Seria? Barba por fazer, sunga preta... Mas tão moreno, que não parecia ser ele. Em dúvida, pai e filho se aproximaram.
— Desculpe, mas... por acaso... você está procurando suas coisas?
Documentos, roupas...
O rapaz, cheio de culpa: “Gente, desculpa fazer vocês esperarem tanto. Mas é que o pôr do sol...”.
— Tudo bem, está tudo bem. A gente sabia que ia te encontrar.
— Cheguei a pensar que vocês já tinham
ido.
— É, a gente estava indo mesmo.
— Mas suas coisas estavam seguras.
— Você ia fazer contato, não ia?
— Pessoal, nem sei como agradecer.
— Esquece. Deixa pra lá.
Afinal, era verão. Turistas no Rio. E o pôr do sol no Arpoador.
Uma das filhas resolveu perguntar: “De onde você é mesmo?”.
E o rapaz, enquanto calçava os
chinelos: “Da Tijuca”.
***
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