Isabel Pires
Chamava-se Tilda e era
profundamente louca. Não que tivesse perdido toda a razão. Isso não.
Sobrara-lhe alguma, retida nos olhos saltados. Trabalhava num hospital –
enfermeira? Chegava todos os dias em casa tarde da noite. O namorado ia levá-la
de carro.
Tilda não conhecia as pessoas
pacatas do seu bairro. Só os “pouco recomendáveis”. Culpa do irmão magricela
que todas as noites, quando Tilda chegava, estava trancado no quarto com os
companheiros pouco recomendáveis.
Tilda tirava os sapatos e se jogava
no sofá, olhando o vazio da janela escura. Daí a pouco, invocava e pulava. A
mãe tossia, trancada no quarto. Vendo tevê, esperava a filha chegar para
tomarem juntas uma atitude. Não que não fosse autoritária: quando fritava
batatas, retirava-as ainda cruas da gordura fervente.
As sombras na sala ficaram oscilando
pelas paredes, e o abajur, metro e meio acima do chão, parecia um pêndulo.
Resultado do safanão de Tilda ao levantar-se.
No fundo do corredor, a fresta da porta fosforescia. Tilda aproximou-se, pé ante pé, respiração presa. À meio caminho, um clarão súbito iluminou-a. A mãe abrira a porta do quarto. Rígida, com o olhar, mandou Tilda seguir em frente.
Tilda acelerou um pulo e alcançou o trinco da porta. Chaveado. Do outro lado da madeira, um “psiu” e o clic do botão da luz. A fresta iluminada extinguiu-se. Então, furiosa, ela começou a esmurrar a porta e a gritar para que abrissem. Silêncio absoluto determinou a decisão de Tilda.
O trinco da porta tombou meigamente sobre o carpete, enquanto Tilda, acuada, parecia sua própria sombra colada à parede. Só os olhos de fora, estes, ainda mais saltados.
Mas, o trinco arrancado, a porta invadindo-se a si mesma, mostraram apenas as moitas cabeludas dos roqueiros dos cartazes espalhados pelas paredes do quarto. Imobilizados e indefesos atrás das guitarras, pareciam eles a fugir inutilmente da inspeção de Tilda. Ninguém no quarto. Só os cabeludos, nos cartazes, cujas cabeleiras pareciam fustigadas pela brisa que vinha da janela. A janela – aberta.
Tilda abriu a porta da rua e atirou-se cegamente pelas escadas abaixo. Como uma louca, deu a volta sob as janelas da casa, a tempo ainda de agarrar o irmão que tentava pular o muro dos fundos atrás dos companheiros. Com o safanão de Tilda, o magricela se estatelou no chão, os olhos arregalados de surpresa e espanto. E então dois pares de olhos infinitamente arregalados e saltados se encararam na escuridão.
***
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