Isabel Pires
Estendido
em decúbito dorsal na cama, ele via a estrela e pensava como ela era bela. Bela
e longe, porque entre ele e a estrela havia a janela. O vidro da janela e a
grade da janela. Se olhasse bem para a grade, não veria a estrela, apenas a
pressenteria. E, olhando para a estrela, esquecia da grade. Olhava, pois, para
a estrela bela e só ela então existia. Mas o vento, querendo invadir tudo, de
vez em quando o lembrava da janela – a vidraça tilintava, se anunciando.
Por que sol? Por que lua? E, sobretudo, por que
estrela?
E por que
estrela, se as mãos são mais humanas, embora para muitos possam ser
imperfeitas? Mas que é a perfeição?
Bom seria
deixar o vento invadir o quarto.
Ele rolava
no colchão, pingando suor e querendo a estrela. Mas o vento não era vento,
apenas uma leve brisa, e era melhor não abrir janela nenhuma. Pegou a toalha,
pendurada à cabeceira da cama, e atirou-a, tentando pendurá-la no trinco da
janela. Esta, como que adivinhando o gesto, e obediente, recebeu no trinco a
toalha úmida que ficou balançando uns instantes e depois quietou.
A
saboneteira estava lá, no parapeito da janela. E um pente de bolso e um
espelhinho com o retrato de uma mulher nua atrás. Mulher nua, pensou ele,
achando sofisticado demais. Pois o que estava do outro lado do espelho não era
apenas uma mulher pelada? Peladíssima, confirmaram os seus pensamentos,
enquanto ele se queimava de calor e desejava abrir a janela. Mas os
pernilongos?
Chamo-me Zé
e divido o quarto com um grilo. Meio a meio. Espaços conquistados a duras
batalhas. Finalmente, me acostumei a ele. E ele já me aceitou, com minhas
manias de levantar fora de hora para escrever desatinos. Mas é que o canto dele
me inspira tanto... Não, eu não tenho nem metade do quarto. É todo do grilo,
que do canto se apossa de tudo, de mim, com o seu canto. Grilo.
Olhou
através das grades procurando a estrela, mas ela já se fora. Que fazer? Seus
olhos vagueavam pelas grades da janela hermeticamente fechada. Lá fora, atrás
do vidro, a noite. Um pedaço do telhado do vizinho interrompia o quadrado negro
do céu atrás das grades. E por instantes ele tentou se lembrar onde havia
colocado a escova de dentes, já que ela não estava no parapeito da janela.
Raios. Pensou em se levantar, acender a luz e procurar a escova de dentes. Mas
o esforço seria demais e talvez vão. Como achar alguma coisa àquela hora, na
bagunça do seu quarto minúsculo? De grande, só ele e a janela, encurralados nas
quatro paredes do quarto.
A janela e
as grades pareciam tomar toda sua existência. Mas tinha o grilo.
Já disse,
meu nome é Zé. Tenho mãos que têm veias que latejam um sangue impaciente. Mas
uma cigana disse que também tenho estrela. Tenho estrela? Vá lá. Não sou navio
nem rei-mago, mas tenho uma estrela. Estrela? O que tenho mesmo é um grilo...
Tenho um
grilo, eu disse? Fico a imaginar o que o grilo faria se me ouvisse declarar seu
proprietário. Na certa, iria embora. E, espantado, eu o veria fazer as malas.
Então, imploraria ao grilo não se vá, grilo, por favor, quem vai tomar conta de
mim neste quarto? Ele concederia? Fico a imaginar... E adormeço com
o seu canto rompendo a noite. Felizmente, ele não me ouviu.
Meu nome é
Zé, e uma noite, quando voltei para casa, o grilo já estava instalado. Tentei
expulsá-lo. O que um grilo veio fazer aqui? Inútil, porém, localizá-lo, tão
onipresente naquele canto cortante, estridente. Deixei o grilo com o quarto e
fui dormir na sala.
Mas eu
estava a falar de estrelas, tão distantes, tão frias e brilhantes. Sim, as mãos
são mais humanas, embora tenham cinco pontas. Como as estrelas.
Comecei a
perceber as estrelas ouvindo o grilo dentro da noite. E, do fundo da noite, as
estrelas emergiam para preencher o vazio da minha janela. De vez em quando, era
a lua que vinha, solitária e orgulhosa, espiar minha insônia emoldurada pelo
canto do grilo.
Pela manhã, uma bola de fogo imersa em intensa claridade tomava conta do quadrado da janela, do quarto, de mim, do grilo. Emudecido, o grilo esquecia de existir.
Por que sol, por que lua, por que estrela?
Eu dizia que meu nome é Zé, pois não? E que o grilo... Sim, o grilo. Um dia, digo, uma noite dessas de insônia e desatino...
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