Isabel Pires
A noite era escura e gelada na rua de terra. Poças de água brilhavam aqui e ali, refletindo a escassa luz dos poucos postes que iluminavam o caminho. O caminho, deserto.
Uma jovem se achava
parada junto a um pequeno portão de ferro batido. Seu rosto lívido, devastado pelo
vento gélido, se mantinha na penumbra, protegido pelo muro que fazia uma sombra
densa, interpondo-se entre ela e a claridade difusa que vinha da luz de um
poste próximo. De quando em quando, porém, seu rosto encrespado se mostrava de
encontro à luz, examinando o caminho vazio.
Um vulto agitou-se ao
longe, envolto em sombras. O rosto da jovem, destacado contra a luz, o
examinava. Alguém aproximava-se zigue-zagueando pela rua, livrando-se das poças
de água barrenta. A parca claridade de um poste iluminou por instantes aquele
vulto, que pareceu sair repentinamente do anonimato das sombras. Era uma
mulher. Carregava uma sacola, impelida pelo vento que lhe fustigava a saia.
A mulher subiu na
calçada, batendo os pés, sacudindo o barro que se aderira aos saltos de suas
sandálias altas. Veio andando, resoluta. O rosto da jovem recolheu-se à sombra.
Seu corpo, porém, envolto numa suéter vermelha e calça desbotada, continuava
iluminado parcialmente pela luz do poste.
Ao aproximar-se do portão em que estava a jovem, a mulher com a sacola estacou o passo. As duas mulheres se encararam na semiescuridão. Seus olhares entrechocaram-se como pedras, no rosto de uma e de outra. Por um instante, as trevas se imobilizaram no silêncio da rua deserta.
A mais velha das duas mulheres retomou sua marcha pela calçada molhada, fundindo-se outra vez nas sombras. A outra, parada junto ao portão, foi escorregando de encontro à barra de ferro fria, até alcançar o chão de cimento grosso da calçada. Enlaçou então os joelhos, pousando sobre eles a cabeça, e começou a chorar.
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