domingo, 24 de novembro de 2024

Monólogo incoerente de uma viúva com um vendedor de lingerie

 Isabel Pires  

— “A camisola do dia, tão transparente e macia...”

— Tá muito chic.

—  É, do jeito que o tempo taí agora, pode até sair que é meia-estação...

— Quanto é esse jogo?

— Tá acompanhando o dólar...

— Tou dizendo prá você que eu gosto é de cor clara...

— Só vou no seis e no oito. Quem falou que posso vestir quarenta e quatro?

— Quem disse que eu posso usar isto aqui, prá ficar olhando só pro travesseiro?

— É coisa fina, tá se vendo.

— Eu, fazendo o orçamento lá em casa, eu lhe pago de duas vezes.

— A blusa me serve, é... a calça me serve, a blusa é que não sei...

— A amarelinha que eu tenho, ela tem essa coisa daqui, ó. Bonitinha...

— Casamento é sofrimento.

— Essa cor de blusa é linda, né?

— Papai Noel, lá em casa, pros meninos já tá adiantado: mesa de bilhar.

— Continuo dizendo que eu gostei é dessa aqui. Não sei porquê, mas eu gosto é de branco.

— Na hora de receber, não fico com nenhum tostão no bolso.


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