sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Acampamento – Lua de sangue

 Isabel Pires

Movimentava-se no mundo com certeza das coisas e por isso quase nunca falhava. Quase nunca, embora a certeza fosse constante. Mas... Se não houvera a tal emoção... Vacilava, ah sim. Como vacilava. Embora tivesse certeza de tudo. Mas decidia e não seguia a razão. Uma carinha de emoção e a certeza perdia a graça, a moda, a vida. Se ia.

No outono, com certeza o vento assobiaria baixinho e encresparia pouquinho as peles, os cabelos. No outono, acampariam. No outono...

A fogueira queimava alta e o tocador de violão ajudava a esquentar a lua. Cheia, por detrás dos galhos secos da árvore mais alta que a fogueira, a lua era uma bola de cristal mostrando incertezas. O binóculo passou de mão e mão e a lua ficou mais perto.

 Que lua louca!

Louca, desatinada, a lua se dilacerava. Dor? A fogueira estava boa e trouxeram pipoca e vinho. A pipoca estava muito salgada e alguém reclamou. Mas comeram tudo. O vinho rodou de mão em mão, como o binóculo. E, como o binóculo, deixou a lua ainda mais perto. E a lua estava louca.

– Contam, amor, que antes a Lua era a dona da Terra. Rainha absoluta. E durante o reinado da Lua, a Terra era uma noite só. Noite cheia de lua, noite cheia de graça. Noite minha e tua. E, amor, os namorados ofereciam à deusa lunar, em noite de lua cheia, um ritual sagrado, místico e cheio de mistério. E era bom o reinado da Lua.

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