Isabel Pires
O prédio da faculdade
era um tanto antigo, não muito confortável, mas ficava num lugar agradável e
bastante amplo. Ao lado das salas de aula funcionava a secretaria. Na outra ala
ficavam o auditório e os banheiros. No saguão, ao fundo, a biblioteca. No corredor
das salas de aula havia várias portas de acesso ao pátio. Este era vastíssimo,
com um imenso estacionamento e um lindo jardim cheio de árvores. Lá no fundo
ficava a cantina, que funcionava como ponto de encontro dos estudantes durante
o intervalo das aulas. E, ao seu lado, a creche. Esta última era a conquista
mais importante dos últimos tempos. Servia tanto aos estudantes como aos
professores que possuíam filhos pequenos e não tinham com quem os deixar.
Era hora do intervalo. A sala estava praticamente vazia. Apenas Eneida continuava debruçada sobre a carteira, lendo um livro em seu tablet. No fundo da sala, Roberto também estava sentado, mas demonstrando tão somente preguiça de se mexer do lugar. Vez ou outra dava uma espiada no celular, mas mesmo isso parecia cansá-lo. Roberto era o engraçadinho da turma, sempre com uma piada pronta, sempre disposto a fazer um bullying básico com alguém. Mas naquele exato instante parecia meramente entediado.
No corredor, próximo à porta e de costas para o interior da sala, alguns estudantes conversavam num semicírculo.
Eneida, muito
concentrada na leitura, sobressaltou-se quando sentiu um leve toque no braço.
Virou-se e respirou aliviada. Era o Ângelo, que acabara de se sentar numa
carteira ao lado.
– Oi, tudo bem? – começou ele –. Olha, Eneida, você está muito ocupada?
– Bem, mais ou menos.
Por quê?
– É que eu precisava muito de um favor seu. Mas o que houve? – interrompeu-se ele –. Te assustei? –, perguntou, observando a tensão no rosto da jovem.
– Não, não foi nada.
É que eu estava um pouco distraída, quero dizer, concentrada demais na leitura,
sabe como é... Você me pegou um pouco de surpresa. Não tinha visto você entrar.
– Desculpe, Eneida.
Mas é que realmente eu precisava de uma mão, entende? Estou com um pouco de
pressa e ainda tenho que correr lá na secretaria para resolver um probleminha.
Não vai dar pra fazer duas coisas ao mesmo tempo. Então eu pensei, e se a
Eneida puder me ajudar?
A carteira em que
Eneida estava sentada ficava próxima à porta e, enquanto ela conversava com o Ângelo, viu quando as pessoas que estavam no corredor se dispersaram. Deviam estar indo para a cantina tomar o cafezinho do intervalo. No fundo da sala, Roberto deixou momentaneamente de lado a preguiça, e esticava
o pescoço em direção ao corredor. Seu rosto era todo curiosidade.
– Tudo bem, Ângelo. O
que você quer que eu faça? – disse Eneida, já desistindo da leitura e guardando
cuidadosamente o tablet em sua
mochila.
– Eu queria que você pegasse a Yalina na creche pra mim, enquanto eu vou lá na secretaria descascar esse abacaxi que pintou, tudo bem? Depois volto aqui, e pego a Yalina com você. Vai quebrar essa pra mim, não vai, Neidinha? – disse Ângelo, e abriu um largo sorriso, aguardando a resposta.
Poucas pessoas chamavam Eneida de Neidinha. Ela sorriu um pouco antes de concordar.
– Tudo bem, vou quebrar essa. Pego a menina pra você.
Yalina, a filha do Ângelo, tinha pouco mais de um ano e ele costumava deixá-la na creche da faculdade. Sua mulher viajava a trabalho com bastante frequência e não podia levar a
menina com ela. No entanto, ninguém na turma jamais tinha visto a criança.
– Mas é só dessa vez – disse Eneida –. Não vai abusar... Como é mesmo o nome dela?
– Y – a – li – na – soletrou Ângelo –. Com ípsilon no começo.
– É um pouco difícil. Y – a – li – na – repetiu Eneida –. Espera, é melhor anotar.
Pescou uma caneta esquecida no
fundo da mochila e escreveu o nome na palma da mão. “Yalina”. O Ângelo já saía
da sala, apressadamente. Da porta, ele acenou para Eneida, que retribuiu o
aceno, já se preparando para levantar e ir buscar e a menina.
Quando ia alcançando
a porta, Roberto chamou-a.
– Ei, onde é que você
vai?
Eneida o encarou.
Roberto era decididamente intrometido.
– Por quê?
– Desculpa, desculpa.
É que eu sou muito curioso…
– Ah, disso todo mundo sabe – retrucou Eneida –. E daí?
– Daí, que eu queria
saber com quem você estava falando no corredor esse tempo todo. Não vi ninguém!
Eneida lançou-lhe
um olhar bem hostil.
– Engraçadinho! – de repente sorriu –. Cara! Você é mesmo maluco!
Virou-se para sair,
mas Roberto a interrompeu novamente.
– Espere, você não
disse onde vai. Daqui a pouco começa a próxima aula... Vai ter teste oral, lembra?
– Tou sabendo. Mas onde eu vou não é da sua conta – respondeu Eneida. E acrescentou: – Você é mesmo bem curioso, hein?
Ela se pôs a andar, mas
estacou o passo e virou-se para Roberto.
– Tudo bem, vou
satisfazer sua curiosidade insaciável… Vou lá na creche.
– Ah, na creche... Mamãe.... Você nunca me disse que tinha filho. Como ele se chama?
Eneida balançou a
cabeça, em desaprovação, e, sem mais responder, saiu da sala.
Na creche, Eneida precisou se
explicar muito, para conseguir que a professora lhe entregasse a filha do Ângelo.
Ao voltar à sala de aula, quase esbarrou em Júlia no corredor, que vinha toda
afobada.
– Nossa, onde você vai com essa
pressa toda?
Júlia ajustou os óculos,
piscando muito.
– As aulas foram suspensas – disse –. Preciso sair correndo, tenho umas coisas pra resolver.
– As aulas foram suspensas?! – Eneida estava boquiaberta –. Por quê?!
Júlia piscou ainda
mais, encarando Eneida.
– Ué, você não sabe? Foi por causa do Ângelo. Bom, vou indo. Tá todo mundo lá na cantina, acalmando a Lourdinha. Ela viu tudo, coitada. Mas eu tenho mesmo que ir, desculpa. Ah!... – disse Júlia olhando a criança no colo de Eneida –, linda sua menina! – E foi saindo apressada.
– Mas não é minha…
Espera…
Eneida deixou cair o braço livre
ao longo do corpo, desanimada, enquanto segurava Yalina com o outro braço.
Franziu a testa, tentando compreender o monólogo incoerente da outra. Olhou a
menina no seu colo. Só então pareceu decidir-se. Saiu disparada em direção à
cantina. Havia uma agitação qualquer por lá, Eneida logo percebeu ainda
atravessando o pátio. Entrou. As pessoas faziam um círculo meio compacto em
torno de Lourdinha, que estava ainda muito nervosa, soluçando bastante. Lágrimas
desordenadas escorriam-lhe pelo rosto.
– O que houve? – perguntou a jovem com a criança no colo.
Lourdinha olhou-a e
fungou ainda mais. Uma outra jovem virou-se, meio enfastiada com a choradeira
da outra, e começou a brincar com a criança que Eneida carregava.
– Nossa, que menina mais fofa – disse alguém.
– É, é linda. Mas, gente, não é minha filha, não! Afinal, o que aconteceu? – insistiu Eneida.
Então pela vigésima vez,
Lourdinha se pôs a contar.
– Ah, meu Deus, foi horrível, horrível! – abanava a cabeça, limpando uns restos de lágrimas –. Eu estava saindo mais cedo hoje... Ah! quando lembro disso... Não devia ter matado aula, mas é que com aquele estrupício daquele professor, não dá pra ficar em sala, não dá mesmo!
– Continue, por favor – interrompeu Eneida, mais curiosa.
– Bom – continuou Lourdinha –, eu já estava saindo, quando vi o carro do Ângelo, lá na rua. Até pensei em pedir uma carona, mas ele parecia louco de pressa. Nem me viu. Atravessou a rua, normalmente, descendo a outra, sabe?
– Sei, sei.
Eneida estava impaciente.
Conhecia perfeitamente as duas ruas transversais, movimentadíssimas, que faziam
esquina no quarteirão da faculdade.
– Pois aí – continuou Lourdinha –, de repente o Ângelo fez aquela loucura. Só sendo mesmo louco, muito louco. Eu vi que ia dar merda, tive um pressentimento, sabe... Ah, meu Deus!
– Mas o que ele fez, afinal? – Eneida não suportava mais a tensão.
O Ângelo tinha acabado de
retirar o carro do estacionamento e já estava saindo da faculdade. Atravessou a
rua mais movimentada, descendo a outra para, como de costume, fazer o retorno
lá embaixo e pegar a avenida. Mas, ao acabar de atravessar a rua com o carro, pareceu
ter se lembrado subitamente de algo e deu marcha à ré, sem olhar para os lados.
Um ônibus vinha na transversal. Não estava em alta velocidade, mas pegou Ângelo
em cheio, ao volante, de um jeito que o estraçalhou com o impacto. A morte foi instantânea. O carro, bastante danificado, ainda estava no meio da rua. O ônibus também, vazio. O
trânsito havia sido interrompido e a perícia lá estava agora, fazendo o seu
trabalho.
Eneida, pálida,
parecia prestes a desmaiar. Seu lábio tremia, e alguém tirou-lhe a criança dos
braços. Sentaram-na numa cadeira e deram-lhe um pouco de água com açúcar.
– O Ângelo?! Mas é incrível! – balbuciou, trêmula –. Eu tinha acabado de falar com ele, lá na sala. Agora mesmo, não faz nem 15 minutos! Ele me pediu para buscar a filha na creche. A Yalina, essa menina fofa, é a filha do Ângelo. – Parou, franzindo a testa. – Mas que coisa estranha, parece que ele se esqueceu completamente da menina. Tinha combinado de pegar a Yasmim comigo, na sala!
As pessoas em volta olhavam
para ela, sem compreender. Súbito, o silêncio se fez intenso. Eneida levantou a
cabeça, perplexa.
– Mas o que há? Por que vocês
estão me olhando assim?
Foi Roberto quem respondeu, numa cara incrivelmente séria.
***
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