sexta-feira, 10 de março de 2023

Fim de tarde

Isabel Pires

A tarde está cinza. Flocos de ar cinzento invadem o espaço reduzido do apartamento, da cidade, do mundo. Já é tarde para pôr em prática os planos da manhã. Muito tarde. Que se espera deste fim de tarde? Uma coisa é certa: depois que este brilho fosco e cinzento se dispersar, cairá a escuridão sobre todas as coisas. E então será noite. Por enquanto, as folhas das árvores estão imóveis, mas um pardal as balança, à procura de alguma fruta esquecida. Em alguma parte do planeta, alguém pensa no que responder a outro alguém, ou que pergunta fazer, ou quem sabe não responder nem perguntar nada a ninguém. Muito tarde em verdade. Alguém escreve algo confidencial no papel virtual da tela do computador, e chama esse papel virtual de diário, e acredita ser esse diário um amigo. O pardal foi embora e de novo as árvores estão inertes, prenúncio talvez de tempestade. 

Barulho de água escorrendo na pia. Barulho de carros na rua. Barulho de portas abrindo e fechando. A tarde não é preguiçosa. Uma rede se move num canto da parede. O cachorro pequinês corre pela casa. Não, a tarde não é, em definitivo, preguiçosa. Livros descansam na estante, também eles inertes. Uma caneta, inútil, jogada sobre a mesa. Um lápis, ainda mais inútil, ao lado. A estante cheia de livros parece triste, com o peso de tantos pensamentos sobre ela. Subitamente, o som da campainha se faz ouvir. O pequinês se agita. A porta foi aberta. Engano. É sempre engano. É engano a vida. Também a morte é engano. 

A tarde prossegue, no seu contínuo engano de tarde feliz, apesar do tom cinzento. Tarde morna e docemente cansada. De quê? A pilha de pratos parece uma torre de Pisa sobre o mármore compenetrado de seu papel de mármore de pia de cozinha. O trilho da janela tem um som enferrujado, de trem correndo sobre trilhos velhos em viagens antigas. Lá fora, o mundo também está cinza, até as plantas parecem cinzentas. Adiante, uma poça de água reflete a parede cor de cinza do edifício em frente. 

Entardece no Planeta. Pouco a pouco, os objetos se tornam informes, escurecidos. As últimas fagulhas de sol se afogam no mar. As pessoas, emudecidas, estão a sós consigo mesmas. É a hora do encontro. Todos se preparam para o instante supremo. Gravemente, se desnudam. É o confronto consigo mesmo. A procura da própria sombra, no meio das sombras que já se alastram pelo chão, pelas paredes, tomando conta de tudo. Depressa, daqui a pouco será noite e todas as sombras estarão fundidas numa só. Impossível então a busca. Mais rápido! Mas o instante é solene, não admite pressa. O ângelus plange além, ninguém ouve. Estão absortos em si mesmos. Paz no Planeta. A luta é dentro das cabeças. Anoitece.

Pobre planta. Um dos seus galhos se curvou, procurando em vão alcançar a luz. Pobres plantas, quase todas de folhas amarelecidas. Não adianta molhá-las. Sem ar, sem sol. A luz, um retângulo comprido filtrado por um vidro que veda o ambiente. E a porta sempre cerrada. O cheiro de mofo invade as narinas, sufocando as plantas. Mas elas ainda resistem, pois crescem. E são produto do mofo, da poeira e do sufoco. E seria tão simples. Abrir a porta e deixar o ar passar. Quebrar o vidro e deixar a luz entrar. Tão simples e impossível. O desamparo é total.

Estamos todos desamparados e tentando nos agarrar uns nos outros, na esperança doida de nos salvar todos juntos e, se não der, pelo menos tentarmos subir nos ombros do companheiro do lado para chegar à tona. Estamos desamparados e desesperados. E quando o desespero chega ao auge, fazemos como o avestruz e enfiamos a cabeça dentro da areia, para não ver o caçador que vem implacável no nosso encalço. 

Estamos desemparados e não nos ajudamos. Não há ajuda possível. O campo ou as batatas. A luta é iminente e inevitável. E depois, mais faminto, o vencedor se atirará à recompensa, na louca esperança de saciar essa fome que já é antiga, tem mais de dois mil anos. E então, sozinho, olhará em volta e verá que nem inimigos restaram para acalentar sua solidão. Continuará desamparado. Continuaremos todos desamparados e famintos, porque a fome é insaciável. Então o desespero aumentará e nos tornaremos canibais. Mas será tarde. Choraremos a morte dos nossos irmãos.

 

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