domingo, 30 de julho de 2023

A sobremesa

Isabel Pires

Que estrago.

Ela avaliava o tamanho do estrago, o enorme buraco negro que tragava lentamente a sua vida. Que estrago, constatava, e não tinha forças sequer para protestar, ela própria um buraco vazio de sentimentos. Desolada, deixava as plantas morrerem por falta d’água. Nem sequer se lembrava delas.

Andou por toda a casa, abrindo e fechando portas e janelas. Sentou-se, levantou-se, cruzou e descruzou os braços. Por fim, a ideia passou-lhe de raspão pela mente. Agarrou-se a ela como um náufrago, e logo seu corpo todo agitou-se num frêmito vital. Sentiu fome, que era o princípio da volta à normalidade. Na cozinha, um pedaço de pão seco, uma banana envelhecendo na fruteira. Mais nada. Não desanimou, porém. Saiu para comprar algo, e voltou com frango, arroz, legumes, alfaces. Faria um jantar.

Enquanto estraçalhava o frango com a faca muito afiada, pensou como seria. Bala? Veneno? Corda? Tudo parecia-lhe tão simples e tão terrivelmente difícil. Onde conseguir o revólver, o veneno?

Tropeçava nos detalhes enquanto descascava batatas.

Sentada à mesa da cozinha, quase feliz, flagrou-se pensando sem parar. Desfranziu a testa e riu alto. Assustou-se um pouco, como se fora a primeira vez que ouvia o som do próprio riso. Ficou séria, novamente pensando, pensando. Nem percebeu quando o arroz fumegou, ameaçando queimar.

Tocaram a campainha, chamando-a à realidade, e ela então verificou as panelas. No quintal, o cachorro latia, impaciente. Foi ver. O setter irlandês, de pelo vermelho vivo, moveu-se inquieto quando ela chegou. Os dentes dele brilhavam, pontiagudos, na luz fosca do final de tarde.

A imagem elegante e robusta do cão revolveu-a toda. Ela recuou, refugiando-se no calor da cozinha. Decidiu: também faria uma sobremesa. Pudim caramelizado. Abriu a gaveta, extraindo dela o velho caderno de receitas que fora de sua mãe. A página marcada com uma pequena dobra no canto de cima. “Começar pela calda”, dizia o pequeno oráculo culinário. Pegou uma xícara de açúcar no pote de plástico e levou ao fogo para caramelizar. Quando o açúcar começou a avermelhar, ela desligou o fogo, e enquanto mexia a calda percebeu que era da mesma cor do setter irlandês.

Estava só, mas não se importava mais. Afinal o cão, no fundo do quintal, também não estava completamente só? E preso, no seu minicurral cercado de cuidados. Tudo pronto, enfim. Pegou a faca de descascar legumes sobre a mesa e mirou-se na lâmina, como se fora um espelho. Verificou os dentes, escurecidos pelo cigarro. Não conseguiu lembrar-se da última vez que os escovara.

Foi quando o marido chegou. Surpreso com o jantar, deu-lhe um beijo na face e foi para o banho.

Resignada, ela seguiu atrás dele. Da porta do quarto, observou vagarosamente a cama de casal, ladeada pelos criados-mudos. Mirou sua figura no espelho da penteadeira, e sentiu que precisava lixar as unhas, prender os cabelos. Talvez, um pouco de maquiagem. Fez um gesto para pegar o roupão, mas desistiu, adiando o banho para depois do jantar. Parada à soleira da porta do quarto, percebeu que, agora, quase quase nada da sua quase alegria de durante uma parte da tarde havia sobrado, esmagada totalmente pela poderosa presença-ausência do marido. Constatou que o buraco negro vinha, mais uma vez, à tona, tragando-a impiedoso.

O clic da maçaneta da porta do banheiro cortou-lhe os pensamentos. O marido, cabelos escorrendo água, ruidoso como um leão, reclamava por comida. Ela encarou seus olhos tenros e ternos. Uma onda de calor invadiu-a, inundando seu peito. Esperou, paciente, o marido vestir-se e o acompanhou ao jantar.

À mesa, ele traçava o frango com apetite voraz. A mulher apenas engolia a comida, mastigando sem fome. Os olhos dela esbarraram na faca suja de gordura e suas mãos tremeram. Por que não pensara nela? Não tinha revólver nem veneno, mas a faca...

Por um instante entreviu a lâmina metálica, afiada e ávida, adentrando a carne do marido, enquanto o sangue vermelho e quente envolveria o tapete da sala de completo amor. Pois a cor do amor não era o vermelho-quente? Estremeceu de gozo, pensando na cara que ele faria, certamente surpreso de vê-la ali, cravando fundo a faca em seu peito, que se abriria numa cascata vermelha e quente. Vermelha e quente. Como a calda de caramelo do pudim. 

Empurrando o prato, satisfeito, o marido levantou-se, declarando que iria levar o cachorro para passear.

Ela voltou à realidade, piscando os olhos para a mesa cheia de pratos e talheres gordurentos. Espera, tem pudim de caramelo”, já ia dizer, mas desistiu. Súbito, sentiu o cansaço tomar-lhe as entranhas. Quis deitar, fechar os olhos e descansar, deixando para lá os pratos, o banho, o marido e o cachorro.

***

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